SELECES
DO LIVRO

SELECES DO READER'S DIGEST (PORTUGAL) S.A.R.L.



As condensaes contidas neste volume foram realizadas por The
Reader's Digest e publicadas em portugus com o acordo dos
autores e editores das respectivas obras.

A ALiana
Ttulo original: The Covenant
  1980 lames Michener

A ALIANA


UMA CONDENSAO DA OBRA DE
James A. Michener

ILUSTRAes DE JOHN THOMPSON

EM 1647, Willem van Doorn sobrevive a um naufrgio ao largo do
tormentoso Cabo da Boa Esperana e torna?se um dos primeiros
colonos holandeses naquele promontrio varrido pelos ventos.
Apaixonado por uma escrava de uma extrema beleza, mas obrigado
a casar com uma camponesa oriunda da Holanda, funda uma
poderosa famlia cujos descendentes formaro a complexa frica
do Sul da actualidade, dilacerada por conflitos internos.
Os Van Doorns so pioneiros rudes e indomveis, tal como a
frica que os atrai do outro lado do veld, ansiosos da
liberdade que a mesma promete. Devotadamente religiosos,
acreditam que Deus estabeleceu uma aliana com
eles??escolhendo?os para se apossarem daquela terra e a
defenderem contra qualquer oposio. A medida que avanam para
leste atravs da selva nas suas carroas, com as suas robustas
mulheres, esses patriarcas do Antigo Testamento, que se chamam
a si mesmos fricanderes, homens de frica, encontram outros
homens de frica??povos primitivos de tez escura e baixa
estatura e poderosas tribos negras como os Xosas e os
Zulus??que tambm consideram sua aquela terra. A confrontao
 inevitvel.

ERA O tempo do silncio antes do Alvorecer, um dos mais belos
da frica Austral. Durante quase uma dcada pouco chovera; a
terra endurecera e a gua, cujos nveis haviam baixado,
tornara?se progressivamente mais salgada e salobra.
O hipoptamo fmea, que permanecia deitado revelando apenas as
narinas, sabia intuitivamente que em breve teria de abandonar
aquele lugar, levando a cria para outra zona aqufera, mas
ignorava onde e em que direco.
A manada de zebras que vinha regularmmente ao lago desceu a
margem ngreme e bebeu com relutncia a gua ftida. Um macho,
afastando?se obstinadamente dos outros, escarvou a terra dura,
procurando descobrir em vo alguma nascente.
Duas leoas, cuja caada nocturna se revelara infrutfera,
descobriram a zebra solitria e trocaram entre si sinais
misteriosos, comunicando que seria aquela que atacariam quando
a manada abandonasse o lago. De momento limitaram?se a
aguardar, ocultas pelo capim amarelado e seco.
Finalmente, ouviu?se um rudo. Faltavam ainda alguns momentos
para o Sol se pr quando um rinoceronte, idntico na sua
grotesca armadura ao que fora nos ltimos trs milhes de
anos, desceu pesadamente em direco  gua e comeou a roar
com o focinho a lama macia,  procura de razes, sorvendo
ruidosamente gua com a sua pequena boca.

Prlogo
11000 a. C.
A aliana

O Sol estava prestes a erguer?se sobre as duas colinas cnicas
que assinalavam a extremidade oriental do lago quando uma
manada de cefos, majestosos antlopes de grandes dimenses que
se moviam com rara graciosidade, veio dessedentar?se. Quando
apareceram, um homem de baixa estatura e tez escura, que
estivera toda a noite de vigia, oculto no capim alto, murmurou
uma orao de graas: Se o cefo vem, ainda h esperana. Se
aquele rinoceronte ficar, ainda podemos comer.
Gumsto era um representante tpico do seu cl, com um metro e
quarenta e cinco centmetros de altura, tez
castanho?amarelada, compleio delgada e rosto extremamente
enrugado, semelhante ao mapa de uma antiga laguna marcada
pelos trilhos de milhares de animais. Quando soma. revelando
duas fiadas de pequenos dentes brancos essas rugas
sulcavam?lhe mais profundamente a fisionomia fazendo?o parecer
ter mais de noventa anos. Tinha quarenta e trs e possua
aquelas rugas desde os vinte e dois; eram a marca do seu
povo??os Sans, mais tarde chamados Bosqumanos.
O cl pelo qual era responsvel contava vinte e cinco membros:
um contingente superior teria dificuldade em alimentar?se; um
nmero menor sena demasiado vulnervel aos ataques dos animais
Integravam o cl ele prprio, seu chefe, a sua resistente
mulher Kharu, o seu filho de dezasseis anos, Gao, e vrios
outros homens e mulheres de todas as Idades, entre as quais
Naoka, de dezassete anos, uma possvel mulher para Gao, que
enviuvara quando o rinoceronte que agora bebia no lago Lhe
matara o marido e que em breve estaria em condies de receber
um novo companheiro.
Subitamente, Gumsto ouviu o troar de cascos de animais. As
zebras de vigia haviam descoberto as duas leoas e debandavam
em retirada. Como um bando de pssaros de plumagem belamente
listrada, os animais brancos e negros subiam precipitadamente
a margem poeirenta do lago em demanda da segurana.
Mas a zebra macho que preferira vaguear, dissociando?se da
manada, perdera agora a proteco que esta lhe garantia, e as
leoas obedecendo ao seu plano de ataque, cortaram?lhe o passo,
impedindo?a de se reunir s companheiras. Ao arranque
selvtico seguiu?se um salto para os quartos traseiros da
zebra, um grito aflitivo e as garras das leoas rasgaram a
traqueia da vtima. O belo animai, firmemente seguro pelas
predadoras, rolou na poeira.
Gumsto, que observara todos os pormenores do ataque, murmurou:
E o que acontece quando se abandona o cla.

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Permaneceu imvel, enquanto sete outros lees se aproximavam
para partilhar a presa, seguidos  distncia por uma vintena
de hienas. que esperariam pelos ossos, os quais esmagariam com
as sua enormes queixadas para chegar ao tutano. No alto, um
bando de abutres pairava, aguardando o seu quinho. E enquanto
estes predadores e necrfagos se entregavam s suas
actividades vitais. Gumsto dedicou?se tambm s tarefas que
Lhe permitiriam sobreviver.
A sua responsabilidade imediata consistia em alimentar o cla,
em consequncia do que tencionava montar nesse dia uma
emboscada ao rinoceronte, mat?lo (ou ser morto por ele), em
seguida empanturrar a sua gente com uma refeio gigantesca e
conduzi?la para um local melhor. Quando tomou estas decises
bsicas, um sorriso de satisfao rasgou o seu pequeno rosto
escuro. pois era por natureza optimista. Tem de haver um
lugar melhor, pensou.
Abandonando o lago moribundo, dirigiu?se a zona onde vivia o
cla, que era apenas um ponto de paragem entre rvores baixas.
no havia cabanas, nem paredes, nem caminhos, nem abrigo, 
excepo de uma estrutura de rebentos entrelaados toscamente
calafetada com capim. A rea pertencente a cada famlia,
assinalada por paus e pedras, continha apenas o espao
suficiente para os seus membros se deitarem em covas escavadas
 profundidade das ancas. As reduzidas posses, meticulosamente
seleccionadas durante sculos de nomadismo, eram essnciais:
tangas e capas de pele para todos, arcos e flechas para os
homens, ps para o corpo e pequenos adornos para as mulheres .
A famlia de Gumsto estabelecera o seu abrigo na base de uma
rvore. Gumsto apoiou as costas ao tronco da rvore e anunciou
com firmeza: Os antlopes vo partir. A gua j no serve
para beber. Temos de partir.
Imediatamente a velha Kharu se ergueu de um salto e comeou a
percorrer a passos largos a reduzida rea, resmungando
protestos que eram ouvidos em todas as outras habitaes
demarcadas por paus, situadas na proximidade. Precisamos de
mais ovos de avestruz e no nos atrevemos a partir antes de
Go matar o seu antlope. E aquela velha de trinta e dois
anos, de rosto profundamente enrugado, continuou a arengar
numa voz queixosa. Quando terminou a sua tirada, lanou?se por
terra a menos de vinte centmetros do marido e gritou:
??Partir seria loucura.
Gumsto, satisfeito pela moderao dos queixumes da mulher, di?

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A Aliana

rigiu a sua ateno para os homens que se encontravam nas
outras reas, tambm eles to prximos que se Lhes podia
dirigir mantendo?se encostado  sua rvore.
??Vamos matar aquele rinoceronte, comer e partir  procura de
outras guas.
??E onde  que as encontramos?
Gumsto encolheu os ombros e apontou para o horizonte.
??Quantas noites?
??Quem sabe?
??Sabemos que o deserto continua por muitas noites??argumentou
um homem receoso.??J o vimos.
??Outros o atravessaram??retorquiu Gumsto rapidamente.t?tambm
o sabemos.
??E para l dele? Que h depois?
??Quem sabe?
A impreciso das suas respostas alarmou?o tanto quanto aos
outros. Consequentemente, enquanto se encostava  rvore,
apoiando o p direito numa cavidade atrs do seu joelho
esquerdo, avaliou?se a Si mesmo e  sua capacidade para
conduzir o cla naquela grande aventura. A sua estatura excedia
ligeiramente a dos restantes membros do seu grupo, os seus
ombros eram angulosos e as suas ancas estreitas, como o
deserto requeria. Os seus dentes eram sos e, embora possusse
um rosto enrugado, tinha olhos poderosos que nenhuma doena
afectava. E sobretudo era um grande batedor. A uma distncia
de quilmetros conseguia distinguir na areia o rasto de uma
manada de antlopes e descobrir qual dos animais se atrasaria,
permitindo?lhe separa?lo dos outros e atingi?lo com uma seta.
Possua uma capacidade inata que lhe permitia pensar como um
animal, prever em que direco correria o antlope ou onde se
ocultaria o grande rinoceronte Quando quinze rastos de animais
se confundiam, era capaz de identificar e seguir o que
pertencia  presa que Lhe interessava.
Quando a noite caiu, a mulher encarregada de acender a
fogueira disps os ramos com enorme percia, utilizando
madeira suficiente para que as chamas produzidas mantivessem
os predadores a distncia, mas tendo o cuidado de no
desperdiar combustvel. A escurido pesada e abrupta da
savana caiu sobre o acampamento, e os vinte e cinco pequenos
seres escuros enrolaram?se nas suas capas de antlope, com as
ancas enfiadas nas pequenas covas. Duas hienas, sempre de
atalaia, soltaram as suas gargalhadas demonacas ao cair das
trevas, deslocando?se em seguida para um local menos guardado.

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Um leo rugiu  distncia, depois outro, e durante toda a
noite Gumsto planeou o seu xodo.
Tinha dois objectivos: interessar a velha Kharu mais
profundamente no xodo, envolvendo?a de forma que ela no
tivesse outra alternativa seno apoi?lo, e conduzir os seus
caadores na trilha daquele rinoceronte para uma ltima
refei o. Sob alguns aspectos, era mais fcil tratar do
rinoceronte do que de Kharu, que de madrugada apresentou seis
novas objeces em voz lamentosa:
??Onde arranjaremos ns lagartas em nmero suficiente, diz?me
l???resmungou ela.
Fitando o seu rosto disforme, Gumsto revelou o amor e o
respeito que nutria por aquela velha companheira. Dando?lhe
uma palmada na cara, respondeu:
?? a ti que compete encontrar as lagartas. Encontra?las
sempre.
E deixou?a para ir reunir os seus homens.
Os caadores apresentavam?se nus,  excepo de uma al ava de
finas setas, um arco e uma tanga,  qual podia ser ligado um
precioso receptculo onde eles guardavam as suas mortais
pontas de setas. Poucos caadores alguma vez partiram com
semelhante equipamento para combater uma fera to monstruosa.
Durante dois dias, alimentando?se apenas de fragmentos de
razes e quase sem beberem gua, os homens avanaram para
leste, e no terceiro dia viram  distncia a forma escura e
ameaadora do rinoceronte.
O prazer e o medo fizeram?nos encher o peito de ar, enquanto
Gumsto estudava as caractersticas da sua presa.
??Protege a pata esquerda dianteira??declarou. ??VeJam como a
assenta cautelosamente para evitar exercer presso sobre ela.
Vamos atacar a partir desse ponto.
No dia seguinte, os caadores alcanaram o rinoceronte, e
Gumsto disps os seus homens de forma que, fosse qual fosse a
direco para a qual o rinoceronte se voltasse, houvesse
sempre um caador dispondo de um alvo razovel. Uma vez todos
a postos, fez?lhes sinal para prepararem as setas. Nessa
altura verificou?se um milagre cultural, pois ao longo dos
sculos o cla aperfeioara uma arma de extraordinria
complexidade e eficcia. A sua flecha, que se distinguia de
quaisquer outras, consistia em trs seces distintas, mas
ligadas entre si. A primeira era um veio estreito, chanfrado
numa das extremidades para se ajustar  corda do arco. O
segredo da flecha residia na seco central, uma haste
delicada e mais pequena,

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A Aliana

que apresentava em cada uma das extremidades um aro de tendo
que podia ser contrado. Num dos aros enfiava o veio estreito,
no outro uma pequena ponta de osso de avestruz, muito aguada
e bem polida, na qual fora aplicado um veneno mortal.
Uma vez montada, a flecha era to frgil que por si s mal
mataria uma pequena ave; no entanto, fora to inteligentemente
concebida que, devidamente utilizada, poderia causar a morte
de um elefante
Representava um triunfo da imaginativa humana.
Quando as pontas foram colocadas??com extremo cuidado, pois um
homem que sofresse um arranho acidental morreria??, Gumsto
dirigiu com as mos sinais aos seus caadores para que
fechassem o cerco; quando, porm, eles o fizeram, detectou um
ltimo caminho pelo qual o rinoceronte poderia escapar se
visse os caadores. Habitualmente, colocaria no local um dos
seus homens experimentados como, todavia, eles eram precisos
noutros stios, voltou?se para o filho e disse?lhe com grande
apreenso:??No o deixes fugir por ali.
Desejou que Go actuasse  altura, mas teve as suas dvidas. O
rapaz era lento em aprender os truques da caa, e de vez em
quando ocorria a Gumsto o terrvel pensamento: E se ele no
chega a aprender? Quem chefiar ento este cla? Quem proteger
a vida das crianas nas longas marchas?
Gumsto tivera razo em ficar apreensivo, pois quando
finalmente se apercebeu da presena dos caadores o
rinoceronte galopou furiosamente na direco de Go, que se
revelou impotente para desviar a fera. Com um ronco
desdenhoso, esta rompeu o crculo dos caadores e galopou em
liberdade.
Os homens no hesitaram em condenar Go pela sua falta de
bravura, uma vez que estavam esfomeados e o rinoceronte em
fuga poderia ter alimentado todo o cla. Gumsto sentia?se
aterrorizado, no s pela deficiente actuao do filho naquela
caada, como pelo perigo grave que o cla enfrentava. Comeava
a sentir os efeitos da idade??a respirao mais difcil e uma
fraqueza em momentos inesperados??, e a segurana do seu povo
pesava?lhe sobre os ombros.
Com uma amarga irritao, Gumsto abandonou o rinoceronte e
concentrou?se num grupo de cabras?de?leque. Aproximou?se
silenciosamente de uma e espetou uma seta na parte inferior do
pescoo do animal. Aparentemente nada aconteceu, pois a ponta
da seta perfurou apenas a dura epiderme sob a qual o veneno se
disseminaria. E foi ento que a excelncia da seta se
manifestou, pois quando a cabra?de?leque, sentindo a ligeira
picada, encontrou uma rvore contra

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a qual se esfregou, a seta no foi desalojada, como
aconteceria se fosse de uma s pea. Em vez disso, separou?se
pelos aros, os veios caram e a ponta envenenada penetrou mais
profundamente na ferida.
O animal no morreu imediatamente, pois o efeito da flecha
venenosa era mais debilitante do que cataclsmico. Durante as
primeiras horas quase nem se apercebeu do que se passava, pois
sentia apenas um prurido, mas  medida que o veneno produzia
lentamente o seu efeito as foras diminuram?lhe e surgiram as
tonturas.
Ao entardecer, Gumsto previu: Est quase a cair. E tinha
razo, pois nesse momento a cabra?de?leque j quase se no
movia. Mesmo quando viu os caadores aproximar?se, no teve
foras para se afastar. Arquejou, cambaleou e os joelhos
comearam a dobrar?se?lhe. Numa arremetida confusa, os homens
saltaram sobre o animal empunhando pedras.
O esquartejamento representava uma tarefa meticulosa, pois
Gumsto tinha de calcular exactamente a poro de carne
envenenada que deveria ser rejeitada. Nem sequer as hienas a
comeriam. A primeira preocupao dos caadores era aproveitar
o sangue; para eles, qualquer lquido era precioso. O fgado e
as vsceras foram comidos no local, mas as peas de carne no
podiam ser consumidas enquanto no fossem levadas para o
acampamento e ritualmente divididas, de forma que cada membro
do cla recebesse o seu quinho.
Gumsto no se sentia orgulhoso do seu feito. Em vez de levar
um enorme rinoceronte, apresentava apenas uma pequena
cabra?de?leque; o seu povo ia continuar a ter fome, mas o pior
era que, durante a batida, fora ele o nico a prever em que
direco se deslocariam os animais, o que fazia antever um
futuro catastrfico. O cla, que nada sabia de agricultura nem
de economia domstica, vivia apenas da carne que as suas setas
venenosas matavam, e se essas setas no fossem devidamente
usadas, ver?se?ia reduzido a consumir apenas alimentos
marginais: tubrculos, bolbos, frutos selvagens, roedores,
rpteis e todas as larvas de insectos que as mulheres
encontrassem. Impunha?se preparar rapidamente um chefe
caador.
Normalmente, o filho de um chefe adquiria as artes de seu pai,
mas tal no sucedia com Go. Gumsto lembrava?se do
comportamento do filho na primeira grande caada que haviam
realizado juntos. Enquanto os outros rapazes esquartejavam a
carcaa, Go entretinha?se a cortar as extremidades dos
chifres, comportamento que fez Gumsto prever eventuais
problemas futuros.
??Ests a coleccion?los para guardar cores???perguntara.

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A Aliana

??Estou. Preciso de sete.
??Go, o nosso cla sempre teve homens como tu, que nos mostram
em pinturas os espritos dos animais que procuramos. Ns
apreciamos o trabalho deles. Mas essa actividade deve surgir
depois de se ter aprendido a seguir uma pista e a matar, e no
antes.
Por onde quer que os Sans tivessem deambulado durante os
ltimos dois mil anos, sempre haviam deixado, em rochas e em
cavernas, vestgios da sua passagem: grandes animais
perseguidos por homens coraJosos, e grande parte da sorte que
bafejava os caadores sans provinha da cuidadosa ateno aos
espritos dos animais. Porm, sobrepondo?se  orao e 
obedincia aos espritos dos animais, o bando precisava de
comer, e era preocupante ver um rapaz de dezasseis anos
faltoso nas artes da obteno de alimentos
Depois de os homens terem regressado da caada e de a carne
ter sido distribuda, Gumsto disse a Kharu:
??Go precisa de uma mulher.
??Ele que a arranje.??Kharu era filha de um famoso caador e
no aceitava de ningum ideias infundadas.
??Que deve ele fazer?
Kharu increpou o marido, gritando:
??E obrigao tua, intil! No o ensinaste a caar. E nenhum
homem tem direito a uma mulher enquanto no caar um antlope
De olhos fixos em Noka, Gumsto pesou cautelosamente as
palavras que iria pronunciar. Noka, uma rapariga alta, quase
com um metro e quarenta, estava deitada por terra, com os
dentes brancos a destacarem?se nas suas feies acastanhadas,
de traos correctos
??Estava a pensar em Noka??observou Gumsto finalmente.
??Bela rapariga??replicou Kharu.??Go podia casar com ela se
soubesse caar.??Depois chamou:??Noka! Vem c'
Noka rolou sobre si, olhou para Kharu, ergueu?se
vagarosamente e percorreu com lentido os poucos metros at s
instalaes

??Votos da melhor sade??disse, como se acabasse de chegar de
uma jornada de quilmetros.
??Ainda sofres???perguntou Kharu.
??No, Kharu, querida amiga, limito?me a viver. ??E
acocorou?se, com as ndegas quase a tocarem no cho.
??O meu filho Go precisa de uma mulher.
??Eu nunca seria a mulher indicada para Go??objectou a jovem.

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??E porque no???perguntou Kharu.
??Porque sou como tu, Kharu, a filha de um grande caador. E
fui a mulher de um caador to bom como Gumsto. Nunca podia
casar com Go, um homem que ainda no matou o seu cefo.
Para esta terrvel recusa Noka escolhera uma palavra pesada:
< cefo . O cla sempre coexistira com o antlope, que Lhe
satisfazia as necessidades fsicas e espirituais. Os Sans
dividiam este tipo de animais em cerca de vinte categorias,
cada uma das quais com o seu terreno prprio e os seus hbitos
individuais. Qualquer caador ignorante das variedades de
antlope era?o tambm da vida.
Havia a pequena e elegante cabra?das?pedras, do tamanho de uma
ave de grandes dimenses, a pequena impala com listras negras
nos quartos traseiros e a graciosa cabra?de?leque, capaz de se
erguer nos ares como se tivesse asas. Havia o duiker, de
curtos chifres vermelhos, e um nmero imenso de animais de
mdio porte, cada um com um tipo diferente de chifres, cada um
com uma colorao distinta: a punja, o guelengue, o damalisco
e o golungo.
Os caadores perseguiam incessantemente este prolficos
animais de mdio porte, que Lhes forneciam carne em
abundncia. Mas havia quatro tipos de antlopes de maior
envergadura que fascinavam os Sans, pois s um deles bastaria
para alimentar todo um cla: o gnu, que percorria a savana aos
milhes; o inhala, com chifres em forma de lira, o enorme
cudo, com listras brancas e os chifres selvaticamente
retorcidos, e o mais raro de todos, a gloriosa palanca negra,
com os seus enormes chifres curvados para trs. Os caadores
ficavam por vezes paralisados quando por acaso viam uma. Um
animal belo e maravilhoso, a palanca s raramente aparecia,
como uma Viso, e os homens recordavam muitas vezes  volta
das fogueiras dos seus acampamentos onde e quando haviam visto
a primeira. E poucas vezes eram mortas palancas, que viviam
refugiadas nos bosquetes mais espessos e raras vezes vinham
dessedentar?se a lagos expostos .
Restava o antlope que os caadores apreciavam mais do que
qualquer outro: o cefo, um animal notvel com chifres que se
retorciam trs ou quatro vezes desde a fronte at 
extremidade, entre os quaiS se  erguia um tufo de plos
negros, uma papada macia e uma distintiva listra branca
separando os quartos dianteiros do resto do corpo Este
majestoso animal fornecia aos caadores no s alimento para o
corpo, como coragem para o esprito, imbuindo?se ainda de
significado para a alma. Um cefo era a prova em movimento da

lC)
A Aliana

existncia dos deuses, pois quem mais poderia ter criado um
animal to perfeito? O cefo dava uma certa estrutura 
existncia dos Sans, para o caarem os homens tinham de ser
espertos e estar bem organizados. Servia tambm de sumrio
espiritual para um povo a que faltavam coros e catedrais; os
seus movimentos condensavam o Universo e constituam uma
bitola para medir o comportamento humano.
Por isso, Noka, fiel s tradies do seu povo, podia rir?se
da velha Kharu e rejeitar a ideia de um casamento com Go.
??Deixa que ele mostre do que  capaz. Deixa?o matar o seu
cefo.

TORNAVA?SE agora bvio para Kharu que, se no conseguisse que
seu filho Go se qualificasse como caador, Noka no o
aceitaria. Por ISso, a velha achou aconselhvel encorajar
outra caada, para o que, contudo, precisava de arranjar um
abundante fornecimento de veneno para as setas. E para
assegurar a continuidade, em segurana, do seu cla, sabia que
tinha de iniciar outras mulheres na prtica da recolha de
venenos, embora nenhuma tivesse at ento demonstrado qualquer
habilidade especial. Era claro que Noka seria aquela de quem
o cla iria depender no futuro, pelo que competia a Kharu
ensin?la .
??Anda??resmungou na manha seguinte??, temos de arranjar
veneno.??E as duas mulheres partiram  sua procura.
Caminharam quase meio?dia, seguindo para norte, duas mulheres
sozinhas na savana, sob o risco constante do encontro com um
leo ou um rinoceronte.
??Vamos procurar lagartas??explicou a velha Kharu enquanto
examinavam a terra rida??, mas s as que tiverem duas marcas
brancas.??De facto, no procuravam indivduos adultos, mas
apenas as larvas de determinados colepteros.
Era impossvel explicar como, ao longo de um perodo de mais
de dez mil anos, as mulheres sans tinham isolado a nica
espcie de coleptero capaz de produzir um veneno de
virulncia implacvel. Como se realizara tal descoberta?
Ningum se lembrava, pois ocorrera havia multo tempo. Porm,
quando os homens no sabem nem ler nem escrever, quando no
tm nada que distraia os seus espritos
podem passar a vida em minuciosa observao, e a sabedoria
popular acumulada em milhares de anos pode, com o tempo,
resultar em profundos conhecimentos. Os Sans, povo a que
Gumsto pertencia.

 n

haviam tido tempo para estudar as larvas de milhares de
insectos diferentes, descobrindo finalmente as que produziam
um veneno mortal. A velha Kharu era o repositrio desta antiga
erudio.
??? Est ali !??gritou ela, detectando o insecto. E, observada
por Noka. inclinou?se sobre a terra, com o rosto a poucos
centmetros do solo.??Procura sempre as pequenas marcas que
ele deixa, que conduzem ao seu esconderiJo.
Com um pau, escavou a terra e retirou a inofensiva larva. Mais
tarde, depois de seca ao sol, pulverizada e misturada com
substncias gomosas obtidas de arbustos, a larva
converter?se?ia numa das tOXInas mais venenosas jamais
descobertas pela Humanidade, de aco lenta mas
inevitavelmente fatal.
Restavam agora duas tarefas antes que o cla em perigo
estivesse pronto para empreender a sua jornada herica: Gumsto
e os seus homens teriam de matar um cefo ritual para assegurar
a sobrevivncia, e Kharu precisava de procurar ovos de
avestruz.
Decidido a ajudar o filho a matar o seu cefo, Gumsto trabalhou
com ele durante a caada como nunca o fizera.
??Ao seguires uma pista tens de reparar em tudo, Go. Esta
pegada aqui indica que o animal se inclina ligeiramente para a
direita.
??E um cefo?
???No, mas  um antlope grande. Se o encontrarmos, j
ficamos satisfeitos.
No quinto dia da caada, Gumsto avistou um rasto de cefo, e a
grande caada comeou. Avidamente, ele e os seus homens
seguiram a pista de uma manada de duas dzias de animais, e
finalmente alcanaram?nos. Gumsto explicou ao filho qual dos
animais era o
alvo mais provvel, e avanaram cautelosamente.
As flechas delicadas voaram. A de Gumsto atingiu o alvo. O
cefo esfregou?se contra uma rvore, e o veneno obtido por
Kharu e Noka comeou a exercer o seu efeito subtil. Decorreu
um dia, depois dois dias, em seguida uma noite sem lua caiu
sobre a savana, e na escurido o grande animal envidou um
ltimo esforo para escapar, arrastando?se nas patas
enfraquecidas, subindo lentamente uma pequena colina sempre
seguido pelos caadores confiantes, que no se precipitavam no
ataque.
Ao alvorecer, o cefo oscilou de um lado para outro, j incapaz
de controlar os movimentos. Vacilou, recomps?se e atingiu o
cimo de uma elevao arenosa, voltando?se para enfrentar os
seus perseguidores. Quando viu Gumsto carregar na sua direco
empunhando uma

2
A Aliana

maa, saltou para a frente, a fim de repelir o ataque; mas o
corpo cedeu?lhe e o animal caiu desamparado. E assim ficou,
at que as pedras comearam a atingir?lhe a cabea e ele rolou
sobre a areia.
Dominado pelo entusiasmo, Gumsto desejou soltar qualquer grito
que expressasse a alegria religiosa que experimentava por ter
morto aquele nobre animal, mas tinha a garganta ressequida e
limitou?se a inclinar?se e a tocar no cefo cado. Quando o
fez, notou que Go chorava pela morte do animal, e com um
salto selvagem agarrou as mos do filho e danou com ele ao
lado do cefo.
??Hoje foste um bom caador!??gritou Gumsto, convidando os
outros homens a reunirem?se?lhe na dana, o que eles fizeram,
em comemorao da morte do cefo e da decente participao de
Go. Enquanto danavam, um dos homens, que ficara de lado,
comeou a entoar uma cano de louvor por aquele nobre animal:

Cabea baixa, papada desviada, olhos negros sangrando,
501 a erguer?se. esquecida a noite nas clareiras ... Ele
permanece de p, de p.
Cabea escura, linha branca percorrendo os flancos, chifres
aguados
Alma de um mundo que morre, olhos que me perfuram a alma ..
Ele cai, ele cai.
E eu fico s. com o Sol que se pe.

UMA vez que no sabiam nunca quando matariam outro animal os
Sans empanturravam?se violentamente quando caavam um. Comiam,
dormiam, comiam, caam em letargia, comiam mais??aps o que
ocorria neles uma surpreendente transformao: as rugas
profundas que Lhes sulcavam os corpos comeavam a desaparecer,
as suas peles tomavam?se macias e os contomos dos seus corpos
arredondavam?se de novo, e mesmo as velhas de trinta e dois
anos como Kharu, engordavam e ficavam belas, como o haviam
sido antes.
Uma vez o cefo consumido, Kharu, com Noka a seu lado,
dirigiu?se para sul, onde as avestruzes nidificavam. No eram
as enormes aves que a interessavam; ela procurava os ovos,
especialmente os velhos, que tinham secado ao sol e cujo
contedo h muito se evaporara. Depois de recolherem uma
vintena, as duas?mulheres embrulharam?nos cuidadosamente nas
capas que usavam, suspenderam?nos as costas e regressaram ao
acampamento, onde os homens apreciaram, aliviados, a frutuosa
recolha.

22

?? Estamos quase prontos para partir??declarou Kharu. Porm,
antes que o cla se atrevesse a empreender a marcha, ela e
Noka tinham de tratar dos ovos. Levaram?nos at  beira do
lago de guas salobras, onde, com uma aguada ponta de pedra,
Kharu abriu um orifcio na extremidade de cada ovo. Depois,
Noka submergiu?os no lago at os encher. Uma vez todos os
ovos cheios de gua, ftida embora, Kharu examinou?os,
procurando detectar qualquer fenda, e transmitiu instrues a
Noka para esta tapar os orifcios com rolhos de ervas
entranadas.??Isto  suficiente para aguentar o cla durante
duas subidas da lua nova.
Quando chegou o momento de reunir os viajantes, faltava Go.
Um jovem caador informou:
??Est l em cima.
No cimo da encosta ngreme de uma colina, numa espcie de
gruta encontraram Go junto de uma fogueira. Cingia?lhe a
cintura um cinto de pele do rinoceronte do qual pendiam sete
pontas de chifres de antlope contendo as suas cores.
Perfurara a superfcie inclinada de uma rocha, na qual gravara
em traos arrojados uma reproduo do rinoceronte que deixara
fugir. Uma linha da boca ao chifre representava a cabea do
animal, e outra linha recta reproduzia o enorme corpo do
mamfero, do chifre at  cauda. Era, porm, na representao
dos quartos traseiros que o artista fora mais feliz, pois com
um trao rpido desenhara tanto a l`omma da anca como o seu
movimento ao correr pela savana. As cores que usara para
reproduzir o animal no seu rpido movimento atravs do capim
contrastavam vibrantemente com a tonalidade escura da rocha.
At Gumsto, olhando a pintura j pronta do animal, teve de
admitir que o seu filho transformara o momento da derrota,
quando o rinoceronte se escapara, num registo entusistico do
que fora um dia
frustrante. Mas avisou o filho:
??Apanhaste?o com as tuas tintas. Agora tens de o apanhar com
as tuas setas.
Por que motivo se preocupavam tanto os Sans em representar os
animais que matavam para se alimentarem? Seria para libertar a
alma da fera, permitindo?lhe nascer de novo? Ou seria para
expiarem a culpa de terem matado?  impossvel dizer; tudo
quanto se sabe  que em milhares de locais, por toda a frica
Austral, esses caadores pintaram os seus animais com um amor
que nunca seria excedido. Quem quer que visse o rinoceronte de
Go sentiria o corao do jovem pulsar de prazer, pois aquele
animal palpitava de vida. A re
2
A Aliana

produo era um produto do homem na sua maior pureza, quando a
expresso artstica mais elevada era to necessria e natural
como
caa.
??Partimos de manha ?? anunciou Gumsto, e durante toda a noite
permaneceu ao lado do lago que confortara o seu povo. Observou
os animais chegarem e partirem, e sentiu?se satisfeito quando
verificou que as zebras e os antlopes se mantinham juntos,
cada um deles no seu cla, obedientes a uma disciplina geral
que Lhes permitia sobreviver aos ataques dos lees que
rondavam.
Ao alvorecer, como que transmitindo aos viajantes ordem de
partida, um bando de flamingos cor?de?rosa ergueu?se da
extremidade do lago e voou pelos ares descrevendo arcos,
retrocedendo ao atingir a extremidade oposta do lago e
regressando ao ponto de partida em curvas graciosas. E as aves
prosseguiram nas suas evolues, como a lanadeira no tear
tecendo um pano cor?de?rosa e dourado. Frequentemente,
mergulhavam como se fossem pousar, mas logo levantavam voo
rapidamente, formando graciosos desenhos de tapearia, com os
crculos cor?de?rosa?claros das suas asas a derramarem?se
pelos ares num colorido vvido, as suas longas pernas
vermelhas pairando atrs
os seus pescoos brancos projectados para a frente.
Observados por Gumsto, descreveram um ltimo crculo e depois
voaram para norte. Tambm eles abandonavam o lago.
Os vinte e cinco membros do cla enfileiraram?se atrs de Kharu
a quem competia fornecer gua aos companheiros. A mulher
levava um pau para escavar o cho e transportava aos ombros
uma pele na qual envolvera quatro ovos de avestruz cheios de
gua. Cada uma das outras mulheres levava o mesmo nmero de
ovos, enquanto a raparigas apenas carregavam dois.
O cla seguiria para oeste durante cinco dias, at um local
onde dois anos antes Kharu enterrara, sob uns arbustos
espinhosos, nove ovos para uma emergncia. Uma vez que iam
abandonar aquela rea queria recuperar os ovos e lev?los
consigo.
A medida que avanavam por tenras onde existia apenas um
reduzido nmero de lagos e nascentes, ela tomava?se tambm a
chefe espiritual do grupo, pois conhecia os lugares
misteriosos onde poderia ocultar?se gua do cacimbo.
Frequentemente, notava uma rvore de aparncia ligeiramente
diferente, dirigia?se a ela e encontrava um reservatrio de
gua doce no ponto em que os ramos se uniam ao tronco. Ou
ento, caminhando pela tenra ressequida, descobria um rebento
to seco e mirrado que parecia morto. Escavava com o pau at
encontrar uma raiz globular que, arrancada e comprimida,
produzia gua.
Kharu imps uma regra inviolvel ao advertir:
??? .',To usem os ovos de avestruz. Escavem  procura de
razes. Bebam?nas .
O  ovos de avestruz tinham de ser reservados para aqueles dias
assustadores em que no encontrassem razes. Kharu continuava
a ensinar a Noka as regras para a sobrevivncia; no final da
sua jornada, a jovem seria competente para conduzir o seu
prprio bando atravs de desertos.
Decorridos cinco dias, Kharu gritou:
??L esto os arbustos
Correu para eles, retirou os nove ovos de avestruz escondidos
e verificou que a gua ainda era potvel. Com um suspiro de
gratido, declarou:
??Agora podemos entrar no deserto.
Era Gumsto quem avanava agora  cabea da fila, pois o cla
penetrava num terreno que nunca pisara e era frequentemente
necessrio tomar decises rpidas. Constituam um grupo
curioso caminhando corajosamente pela tenra rida, com trs
particularidades que surpreenderiam todos aqueles que mais
tarde estabeleceram contacto com eles: o seu cabelo no
crescia como  habitual, mas surgia em pequenos tufos
retorcidos entre os quais se viam pores considerveis de
couro cabeludo calvo; as mulheres tinham ndegas extremamente
volumosas, algumas to projectadas para trs que os bebs as
podiam montar. Este fenmeno, que seria mais tarde denominado
esteatopigia, era to pronunciado que observadores estranhos
duvidavam frequentemente da evidncia dos seus prprios olhos;
a sua linguagem era nica, pois, alm dos cerca de cem sons
distintivos a partir dos quais as lnguas do Mundo se
formaram, os Sans possuam cinco sons de estalidos formados
com os lbios, a lngua e o palato. Um desses estalidos soava
como um beijo ruidoso, outro como um sinal de incitamento
feito a um cavalo, outro ainda como um pigarreio. Assim,
Gumsto usava o complemento normal de consoantes e vogais
acrescido dos cinco estalidos, o que tomava a sua fala um
palavreado explosivo.
A medida que as luas mudavam, o cla passou a rumar de oeste
para sul, embrenhando?se cada vez mais no deserto. No era uma
extenso interminvel de areia branca, como os desertos da
frica do Norte se tomariam mais tarde: era uma mistura brutal
e sucessiva de

7
A Aliana

isoladas sentinelas rochosas, a cujas superfcies manchadas de
vermelho pelo sol se agarravam arbustos espinhosos. De noite,
viam?se animais de pequeno porte movendo?se apressadamente; os
antlopes de maior envergadura e os seus predadores
evolucionavam de dia numa incessante procura de gua.
Aventurar?se por esta extenso cruel de tardes de sol ardente
e noites glidas seria arriscado mesmo para quem dispusesse de
gua e alimentos adequados; empreender a sua travessia como
aqueles bosqumanos era herico.
Uma tarde, Kharu, que perscrutava constantemente os arredores
com olhos esfomeados, soltou um grito e con?eu pelo deserto
como um antlope. Descobrira uma tartaruga. Quando a capturou,
por entre os aplausos do cla, ergueu timidamente o acepipe
sobre a sua cabea. Atravs da frico rpida de dois paus,
acendeu?se rapidamente uma fogueira. Assim que as chamas se
elevaram, a tartaruga foi colocada de patas para o ar, por
entre as labaredas e em breve fumegava emitindo um assobio. O
vapor que se desprendia fez soltar a carapaa e, quando a
tartaruga arrefeceu, Kharu dividiu a sua carne e os seus sucos
pelos vinte e cinco. No obstante a exiguidade de cada
quinho, o alimento surtiu um extraordinrio efeito animador.
O problema da gua continuava a ser grave. Os viajantes tinham
sido forados a recorrer aos ovos de avestruz at restarem
apenas nove, mas Kharu sabia, de aventuras passadas, que
aquela gua tinha de ser conservada para os ltimos extremos,
e estavam ainda longe dessa eventualidade. Com a sua vara,
escavava razes que podiam conter uma reduzida quantidade de
lquido e fazia os companheiros mastig?las at humedecerem as
bocas. Procurava qualquer arbusto em que o cacimbo pudesse
ter?se acumulado e dedicava uma ateno constante a quaisquer
indcios que revelassem a presena de algum fio de gua
correndo sob a areia rochosa.
Quando localizava um desses lugares, abria com as mos uma
cova to funda quanto possvel, atravs da qual empurrava uma
cana comprida. Se os seus clculos se revelassem correctos,
podia chupar gota a gota, pequenas quantidades de gua.
Depois, deixava as gotas escorrer por outra cana, que segurava
enfiada ao canto da boca, para um ovo de avestruz, do qual os
seus companheiros beberiam mais tarde.
Ao fim de dois dias sem uma gota de gua, tomou?se bvia a
necessidade de recorrer aos nove ovos, e, de acordo com uma
antiga tradio, foram utilizados primeiro os sete
transportados pelas outras mulheres, reservando?se os dela
para os chamados dias de morte.

Mas chegou a tarde em que Kharu teve de utilizar um dos dois
nicos ovos que restavam. Disse ento a Gumsto:
??Temos de dar tudo por tudo para tentar obter gua e carne. E
tens de permitir que seja Go a matar, porque ele no pode
chefiar este cla sem uma mulher.
Gumsto assentiu. Chamou o filho de parte e disse?lhe
gravemente:
??Tenho a certeza de que aquelas colinas a oeste tm cefos e
gua. Mas tambm tm lees. Ests preparado?
Quando Go assentiu, Gumsto dirigiu a coluna para oeste.
Sobrevivendo precariamente com pequenos goles de gua do
ltimo ovo de Kharu, rumaram em direco  cadeia de colinas,
mantidos sob observao: descrevendo crculos interminveis
sob o sol abrasador, um bando de abutres seguia o pequeno
grupo, aguardando impacientemente. Parecia?lhes quase
impossvel que aqueles solitrios vagabundos conseguissem
salvar?se. Detectando as evolues dos abutres, as hienas
agitaram?se em vrios pontos do deserto e aproximaram?se para
obterem o seu quinho, sabendo que algum ser vivo estava
prestes a perecer.
Desta vez a velha Kharu gorou os seus desgnios. Foi ela quem
distribuiu a ltima gua do seu derradeiro ovo, e foi ela, e
no o marido, quem primeiro viu os cefos.
Foi uma caada frustrante. Morto de sede e de fome, o reduzido
bando viu o cefo escapar majestosamente de cilada em cilada.
As artes combinadas de Gumsto e do filho foram neutralizadas
pela esperteza dos animais. Na segunda noite, os homens,
exaustos, ouviram um rugido agourento, e Go pronunciou as
palavras fatais:
??Temos de recorrer aos lees.
Esta estratgia era habitualmente evitada, pois envolvia
riscos to graves que nenhum dos caadores a desejava
utilizar. No obstante saber que, em questes de caa, as
decises deviam ser sempre deixadas aos homens, quando viu que
ningum apoiava o filho a velha Kharu quebrou a tradio
lanando?se no meio dos caadores e declarando com firmeza:
??Go tem razo. Morreremos se no recorrermos aos lees.
Gumsto olhou com orgulho a velha mulher castigada pelo tempo,
sabendo quanta coragem Lhe fora necessria para se intrometer
naquela reunio.
??Vamos recorrer aos lees??afirmou.
Este plano requeria o esforo combinado de todos, inclusive
das crianas Embora fossem grandes as probabilidades de um ou
vrios
A Aliana

sans perderem a vida, quando estava em jogo a continuidade do
grupo no havia alternativa.
??Vamos??disse Gumsto calmamente, e, numa formao em
meia?lua, todos se arrastaram em direco aos cefos. Go
afastou?se do grupo para localizar o ponto exacto onde' os
lees dormitavam Uma vez esta posio assinalada, Gumsto e
outro caador comearam a avanar ruidosamente, a fim de que
os cefos os ouvissem e se pusessem em fuga. Tal como haviam
planeado, os grandes animais tornaram?se nervosos e fugiram,
correndo directamente para as garras das feras fulvas. Uma
leoa rasgou a garganta do cefo de maiores dimenses,
mordeu?lhe o pescoo e lanou?o por terra.
Chegara agora o momento da audcia e da execuo precisa
Gumsto e Go mantinham o seu povo oculto. Todos recolhiam
silenciosamente maas de madeira e pedras para o momento
decisivo. Observaram os lees a alimentar?se, e at os lbios
dos mais corajosos ficaram secos.
??Agora!??gritou Gumsto, e todos se precipitaram em frente
gritando como loucos, brandindo as maas e lanando pedras
para afastarem os lees da sua presa. Embora pudessem ter
facilmente morto dois ou trs sans, ao verem tantos a
precipitar?se contra eles os lees assustaram?se e comearam a
afastar?se do local. Foi nessa altura que Gumsto saltou
directamente sobre os lees de menor envergadura, batendo?lhes
na cabea com a sua maa.
No momento em que a sua vida ficou em risco, foi salvo pela
apario sbita de Go a seu lado, rugindo e agitando uma maa
e forando os lees a retirar?se, rosnando.
Quando, porm, o cefo foi capturado pelos Sans, ao som das
gargalhadas das hienas, no foi Gumsto nem Go quem assumiu o
comando da operao. Com as mos ensanguentadas, Kharu
inspeccionou as vsceras expostas at encontrar a poro mais
preciosa da carcaa, a pana, a primeira cavidade estomacal de
todos os ruminantes. O seu velho rosto franziu?se num sorriso
quando a sentiu pesada pois fora nessa zona do estmago que o
cefo morto acumulara erva que mais tarde digeriria, e com ela
uma grande quantidade de gua para a tomar macla.
Kharu espremeu a erva acumulada, que expeliu lquido
suficiente para encher os seus ovos. De certo modo, aquele
lquido era prefervel a agua, pois era adstringente, amargo e
purificador. A mulher repartiu algumas gotas por todos,
mitigando?lhes a sede. O bando sobreviveria com aquele
miraculoso fl

No fim da suculenta refeio, Kharu disse:
??Como Go encontrou o cefo e afugentou os lees, vamos
proclam?lo caador e dar?lhe uma mulher. Noka, anda c.
Um dos homens, caador exmio, protestou, alegando que Go no
matara de facto o cefo, pelo que no se qualificara. A
consternao foi geral. Porm, Kharu acotovelou violentamente
o marido, e Gumsto avanou. Tomando o filho pela mo,
colocou?se em frente do cla e disse com orgulho:
??Este rapaz afugentou quatro lees que se preparavam para me
matar. E um caador.??E colocou a mo do filho na de Noka.
??Ah?wee!??gritou Kharu com um salto.??Vamos danar.
Soou uma cabaa, as mos bateram, marcando o ritmo, e o grupo
danou. revoluteando com alegria, celebrando a sua vitria
sobre os le es e a perspectiva reconfortante de em breve Noka
e Go terem filhos para perpetuar o cla. Outros antlopes
seriam apanhados, outros poos seriam encontrados para encher
os ovos; as crianas cresceriam at serem adultos, e o seu
nomadismo no cessaria nunca. Eram um povo sem lar, vivendo da
caa e da recolha de alimentos, sem responsabilidades fixas, a
no ser a conservao dos alimentos e da gua para os dias de
perigo, e quando as luas devidas tivessem vindo e passado,
aqueles homens e mulheres que danavam teriam passado tambm,
e outros atravessariam as estreis imensides e danariam as
suas danas atravs das longas noites.
As festividades tinham de ser breves, pois o cla precisava de
seguir para reas mais seguras; mas, ao avanarem, Kharu notou
algo que a perturbou: Gumsto comeava a atrasar?se, cedendo a
Go a sua habitual posio na dianteira. Perguntou?lhe o que
se passava.
??E a minha perna.
??O qu???A simplicidade da pergunta ocultava o terror que
sentia, pois uma perna magoada representava o mais grave
acidente que podia acontecer numa viagem.
??Quando atacmos os lees ...
??Feriram?te com as garras?
??Feriram.
Ele sentou?se, encostado a uma rvore, enquanto Kharu
examinava a ferida. Pela forma como ele se retraiu quando ela
tocou determinadas zonas, ficou a saber que a situao era
grave.
??Daqui a dois dias observamos outra vez essa
ferida??declarou, mas notou que ele coxeava ao caminhar,
arrastando a perna  esquerda  e reparou que, no alto, os
abutres o seguiam.
c

Sempre que o cla ganhava avano, ela mantinha?se a seu lado, e
uma vez, quando a dor se tomou insuportvel e ele mordeu os
lbios para conter as lgrimas, ela conduziu?o at um local de
descanso, onde se detiveram, falando ambos do passado.
??Kharu, foram bons tempos, naquelas terras junto ao lago. Os
rinocerontes, as manadas de gnus, as zebras ...??Gumsto
relatava os seus triunfos desses dias em que o bando tinha com
que se alimentar.
??Foste um caador to grande como o meu pai??reconheceu ela.
Depois, ajudou?o a alcanar o bando, que avanava para sul;
quando, porm, se tomou bvia a sua incapacidade para voltar a
comandar uma caada, ela disse a Go:??Agora tens de ser tu a
encontrar carne.
O acidente de Gumsto produziu um resultado inesperado que
simultaneamente Lhe agradou e o deixou perplexo. Quando o
bando fez uma paragem de alguns dias, tanto para voltar a
encher os ovos de avestruz como para conceder a Gumsto tempo
para recuperar, Go deixou o acampamento e arranjou uma grande
laje de pedra lisa, na qual trabalhou com uma furiosa energia
durante as horas do dia. Quando, ajudado por Kharu, Gumsto se
deslocou at junto da laje, no estava preparado para a
maravilha que esta revelava.
Go desenhara trinta e trs cefos numa imensa vastido, cada
um dos quais em traos to perfeitos como qualquer dos que
previamente desenhara, mas executados com tanta energia que
pareciam seres vivos correndo pela savana rochosa. Saltavam,
agitavam?se, alvoroavam?se e precipitavam?se para alvos
invisveis, numa confuso de chifres e cascos que assombraria
o Mundo quando fosse descoberta.
Depois, Gumsto notou, no canto inferior direito do mural, a
representao feita por seu filho de um caador san, um homem
de estatura insignificante perante os animais gigantescos, mas
enfrentando?os com a sua frgil seta, e viu que aquele homem
era ele. Aquele era o sumrio da sua vida, a recordao de
todos os cefos que ele matara para assegurar a sobrevivncia
do seu povo.
Por trs vezes pediu ao filho que o levasse de novo junto da
pintura  para poder estud?la e viver outra vez com os animais
que tanto haviam significado, e quando se via to pequeno no
canto inferior sentia que aquele era o seu modo de estar na
vida, a qual era por definio difcil e angustiante. Estar na
savana com uma minscula ponta de seta a significar a
diferena entre morte e vida, lanar?se entre os cefos, os
mais poderosos de todos os antlopes, e combat

3 1
A Aliana

?los  medida que eles apareciam, era essa a natureza do
homem??e fora o seu filho quem Lhe revelara aquela verdade.

QUANDO compreenderam que os dias de Gumsto haviam atingido o
seu termo, pois ele tinha agora quarenta e cinco anos, uma
idade muito avanada para aquele povo, os membros do cla
verificaram que se aproximava o dia em que j no poderiam
esperar por ele. Os seus atrasos constantes tornavam?se um
embarao intolervel. Durante dois dias a velha Kharu,
arrimada ao bordo, serviu?lhe de muleta, permitindo?lhe
apoiar?se nela??dois velhos tentando manter o passo. Mas no
terceiro dia tomou?se evidente que era necessrio abandon?lo.
Kharu alcanou os outros e pediu um ovo de avestruz cheio e um
osso com alguma carne. Estes mantimentos foram fornecidos por
Go, nas foi Noka quem retrocedeu para os levar ao local onde
Gumsto se sentara, encostado ao tronco de uma rvore
espinhosa.
??Trazemos?te o adeus??disse ela.
??Temos de partir agora??disse Kharu, e Gumsto no conseguiu
perceber se ela chorava, pois as suas lgrimas caam em rugas
to profundas que desapareciam rapidamente.
??Tens de apanhar os outros??avisou Gumsto a sua mulher.
Kharu permaneceu apoiada ao seu bordo, evocou durante uns
momentos os dias que ambos tinham passado juntos, depois
empurrou o osso para mais perto dele e afastou?se.
Por um momento, Gumsto ergueu os olhos para os abutres que se
reuniam, mas depois baixou?os para seguir a coluna que
desaparecia, sentindo?se grato por saber que ela se dirigia
para uma terra melhor. Go era um caador. Noka estava a
aprender onde se escondiam as larvas do veneno e os saborosos
tubrculos. Com Kharu a gui?los durante algum tempo, tudo
correria bem. Os seus ltimos pensamentos, antes de os
predadores se aproximarem, foram para aquela zebra  beira do
lago que insistira em se afastar do seu cla; os lees
tinham?na matado.
Kharu, avanando com determinao, em breve ultrapassou Noka;
depois, alcanou o troo principal da coluna e retomou o seu
lugar  cabea da fila. Nele se manteve, apoiando?se ao seu
bordo e conduzindo o bando no para oeste, como vinha
recentemente a suceder, mas mais para sudoeste, como se
soubesse instintivamente que naquela direco se situava o
Cabo??com o seu inesgotvel abastecimento de gua potvel,
animais em liberdade e vinhas selvagens cujos produtos
suculentos eles podiam colher.

Sebe de ameixieiras
1 XX l

evento miraculoso que aconteceu V no cabo chamado da Boa
Esperana

no tem paralelo na Histria.
Em 1488, o navegador portugus Bartolomeu Dias dobrou este
cabo, propondo?se seguir at  India; porm, a iminncia de um
motim entre a sua tripulao, que os ventos furiosos e os
oceanos procelosos haviam aterrorizado, obrigou?o a regressar
 ptria. Foram esses ventos que mais tarde deram origem 
lenda do holands voador, que teria jurado ser capaz de
contornar a extremidade meridional de frica por entre uma
violenta tempestade e que, segundo a mesma lenda, a permanece
ainda, tentando vencer o Cabo.
Em 1497, o capito Vasco da Gama desembarcou perto do Cabo,
onde permaneceu oito dias, estabelecendo contacto com um
grande nmero de nativos de baixa estatura e tez acastanhada
que falavam por meio de estalidos.
No sculo seguinte, os Portugueses ultrapassaram a zona do
Cabo e internaram?se nas regies longnquas do oceano Indico:
chegaram a Sofala, um centro comercial situado na costa
oriental de frica, famoso pelo minrio de ouro; a Calecute,
que Lhes oferecia as sedas da India, e a Trincomalee, no
Ceilo, onde obtiveram canela??uma especiaria rara. Sob todos
os aspectos, dominaram aquele mundo de maravilhas e riquezas,
embarcando as especiarias para a Europa, onde as mesmas eram
vendidas com um enorme lucro, e deixando nos seus postos
avanados sacerdotes para cristianizar e funcionrios para
governar.
Em 1511, um dos maiores aventureiros portugueses, Afonso de
Albuquerque  internou?se no oceano Indico, estabelecendo em
Malaca, na Pennsula Malaia, uma grande fortaleza que serviria
como posio?chave s possesses portuguesas. Quem quer que
controlasse Malaca tinha acesso s maravilhosas ilhas situadas
a leste de Java como uma cadeia de jias, as fabulosas Ilhas
das Especiarias (ac
A Aliana

tualmente as Molucas, parte da Indonsia) Durante todo o
sculo XVI os navegadores portugueses transportaram desta rea
incontveis riquezas, e o lucro passou a ser obtido j no
atravs das montonas caravanas de camelos que partiam de
Constantinopla, mas sim do trfego martimo. No entanto, no
foi este surto de riqueza incalculvel man inesgotvel de um
tesouro fabuloso, que conduziu ao milagre do Cabo.
Nos primeiros anos do sculo XVII, duas outras pequenas naes
europeias decidiram conquistar parte do monoplio portugus.
Em 1600, a Inglaterra criou a, sua Companhia das Indias
Orientais, que rapidamente se firmou na India. Dois anos mais
tarde, os Holandeses criaram a sua contrapartida, a Vereenigde
Oostindische Compagnie??Companhia Unida das Indias Orientais.
Conhecida como a Companhia Jan, era dirigida por dezassete
negociantes holandeses de rostos severos, chamados os Senhores
Dezassete.
Os mares orientais tornaram?se ento um vasto campo de batalha
em que cada missionrio catlico era um agente de Portugal, e
cada clrigo protestante??predilant??, um defensor dos
interesses holandeses. No se tratava meramente de uma
rivalidade comercial e religiosa, mas sim de uma verdadeira
guerra. Em trs terrveis ocasies, nos primrdios do sculo
XVII, gigantescas frotas holandesas tentaram capturar a
fortaleza de Moambique, uma minscula ilha a trs milhas da
costa oriental de frica que guardava o vasto territrio
continental. Os cercos poderiam ter terminado numa vitria
fcil pois a ilha era defendida por apenas sessenta soldados
portugueses Os Holandeses conseguiram desembarcar quase dois
mil para os combater, mas os defensores do forte contavam?se
entre os seres humanos mais duros existentes  face da Terra.
Durante um dos cercos propuseram que o assunto fosse resolvido
pelo combate de cinquenta soldados holandeses contra vinte e
cinco portugueses, uma proporo honrando o carcter dos
exrcitos em disputa .
No obstante terem tentado o fogo, a abertura de trincheiras.
a construo de torres e assaltos de surpresa e apesar da sua
grande superioridade numrica, os Holandeses nunca conseguiram
penetrar nos muros da fortaleza. Quo diferente seria a
histria da frica do Sul se aqueles sessenta portugueses se
tivessem rendido em 1605 aos dois mil holandeses! Todos os
territrios a sul do rio Zambeze teriam sido submetidos ao
domnio holands, e com o desenrolar da  histria a frica do
Sul teria constitudo o foco dos interesses holandeses, e no
Java, onde este povo mantinha nessa altura apenas uma pequena
base de operaes. Mas os Holandeses nunca conseguiram
organizar a arremetida final que os teria conduzido a uma
vitria retumbante em frica.
Um facto de relevo difernciava os esforos colonizadores das
trs naes europeias: a forma pela qual esses esforos se
relacionavam com o governo central. O empreendimento portugus
era um amlgama confuso de patriotismo, catolicismo e lucro; o
governo de Lisboa decidia as operaes a realizar, a Igreja
governava os espritos daqueles que as executavam. Os Ingleses
pretendiam que a sua Companhia das Indias Orientais operasse
sem qualquer interferncia governamental, mas rapidamente
constataram a inviabilidade de tal propsito, pois se a
Companhia no regesse a sua conduta por padres morais, o bom
nome da nao seria posto em causa; assim, havia uma oscilao
constante entre a liberdade comercial e o controle moral. Os
Holandeses no tinham semelhantes escrpulos. Concederam
alvars a negociantes cujo propsito declarado era a obteno
de lucros atravs de investimento, preferivelmente quarenta
por cento ao ano, e nem o governo nem a Igreja tinham o
direito de interferir na sua conduta.
Rapidamente se tornou claro que essas trs atitudes to
radicalmente diferentes teriam de colidir, e em breve os
Ingleses combatiam os Holandeses a fim de obterem o controle
de Java, enquanto os Holandeses atacavam Portugal tentando
alcanar o controle de Malaca, e os trs lutavam com a Espanha
pelas Ilhas das Especiarias, que haviam sido retiradas aos
Portugueses em 1580. Os navios destas naes rivais dobravam
frequentemente o Cabo da Boa Esperana, onde permaneciam por
vezes semanas consecutivas, mas poucos esforos desenvolveram
para ocupar este lugar crucial ou o armar como base a partir
da qual atacassem o comrcio inimigo.
Que estas trs naes martimas se no tenham detido para
estabelecer uma base  inconcebvel, mas  a geografia que
fornece uma explicao para o facto. Uma nau portuguesa que
zarpasse de Lisboa rumava para sudoeste em direco s ilhas
de Cabo Verde, onde se reabastecia  e navegava quase at 
costa do Brasil antes de virar para sudeste para dobrar o Cabo
e seguir at um ancoradouro hospitaleiro na ilha de
Moambique. A partir da, dirigia?se para leste, rumo a Goa,
na costa ocidental da India, e para Malaca. Os navios
holandeses e ingleses tambm passavam pelas ilhas de Cabo
Verde, mas Compreendendo que os Portugueses os no acolheriam
de bom grado Continuavam para sul at  ilha de Santa Helena,
que ocupavam con
juntamente. Depois de zarparem desse porto, a viagem at 
India era rpida. Os Ingleses podiam ento dirigir?se para
entrepostos comerciais nas Ilhas das Especiarias, enquanto os
Holandeses podiam seguir para a sua base em Java. No havia de
facto motivo suficien

.Uf  rr

EGIPTO

frica

ANGOla

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Sol:lia

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 Cidade do Cai ol

C bo da
Hoa E  er n a
PRSI A          CHIN A

INDIA

     Calerule  PENINSULA
     CEILo MALAIA

     SAMATRA Mala

Balavia
ILHA DE MocAMBlQuE  JAVA BALI TI OR

MADoASCAR

OCEANO INDICO

temente poderoso para que qualquer destes povos interrompesse
asua jornada no Cabo.
Consequentemente, desde 1488, ano em que Dias o descobriu,
at 1652??um perodo de cento e sessenta e quatro anos
decisivos
A Aliana

na histria mundial??este maravilhoso promontrio, dominando a
, rotas comerciais e capaz de fornecer todos os alimentos
frescos e a gua doce necessrios s tripulaes, foi
neglignciado. Qualquer nao martima o poderia ter
reclamado; nenhuma o fez, porque nenhuma o considerou vital
para os seus propsitos.
Embora no tivesse sido reclamado, no permaneceu
desconhecido. Pode afirmar?se com segurana que durante este
tempo pelo menos uma grande nau aportava por ano ao Cabo, onde
permanecia frequentemente longos perodos. Os marinheiros
viviam em terra c os cronistas escreviam relatos do que
sucedia, pelo que existe um registo bastante mais
pormenorizado do Cabo no ocupado do que de outras reas
colonizadas por tropas iletradas. O carcter do povo de baixa
estatura e tez acastanhada que falava por meio de estalidos
assume particular relevo nesses escritos (Eles emitem sons
guturais e parecem soluar e suspirar), pelo que os
estudiosos de toda a Europa possuam amplos conhecimentos do
Cabo muito antes de os seus governos revelarem por ele um
interesse substncial. Na realidade, um empreendedor editor
londrino compilou uma obra em quatro volumes referente em
grande parte a viagens alm do Cabo, As Peregrinaes de
Purchas ', que entraram indirectamente na histria da
literatura por terem sido a principal fonte de The Rime of the
Ancienl Mariner, de Samuel Taylor Coleridge.
Duas simpticas tradies tornavam o Cabo agradvel aos
marinheiros: tornou?se um hbito, sempre que um navegador
sentia que se aproximava do Cabo, alertar a tripulao, aps o
que todos os marinheiros se esforavam por ver quem seria o
primeiro a anunciar montanha da Mesa!. O comandante
entregava ao vencedor uma moeda de prata, enquanto toda a
tripulao, tanto marinheiros como oficiais, se mantinha junto
 amurada observando esta extraordinria montanha. A montanha
da Mesa no era um pico, o seu topo era plano como o pavimento
de um grande palcio e as suas encostas eram ngremes. Esta
elevao possua uma peculiaridade que nunca deixava de
surpreender: frequentemente, em dias lmpidos em que o cume da
montanha se via nitidamente, um vento sbito, vindo do
Antrctico e soprando para norte, arrastava uma nuvem de denso
nevoeiro sobre a montanha.  o Diabo a pr a toalha na mesa
diziam os homens, e a montanha ficava oculta pela toalha cuja
orla pendia  sua volta.

3

' Sendo Samuel Purchas o autor da compilao. (N  do  .)

A segunda tradio era a da pedra dos correios. Em 1501, o
capito de uma caravela portuguesa que dobrava o Cabo veio a
terra com uma carta contendo instrues para auxiliar futuros
viajantes. Envolveu?a numa lona protegida com resina e
colocou?a sob uma rocha proeminente, em cuja superfcie gravou
a indicao de que algo de importante se encontrava sob ela.
Assim teve incio a tradio, e nos anos subsequentes havia
navegadores que se detinham no Cabo, procuravam pedras de
correio, recolhiam cartas que podiam ter sido deixadas uma
dcada atrs, cada uma das quais mencionava peri os passados
ou consignava esperanas no futuro, e levavam?nas para a
Europa ou para Java.
H poucas notcias de alguma vez estas cartas terem sido
destrudas por inimigos. Uma carta deixada no Cabo sob um
rochedo por uma nau que tivesse atravessado o oceano Indico
combatendo sucessivamente em todos os portos tornava?se
inviolvel, e os prprios soldados que haviam combatido aquela
mesma embarcao, caso desembarcassem para se reabastecer,
recolh?la?iam e lev?la?iam ao seu destino.
Qual foi, afinal, o milagre do Cabo? Que nenhuma nao marnha
o quisesse.

No dia de Ano Novo de 1637, um marinheiro de Plymouth, In
terra, tomou uma importante deciso. Tratava?se do capito Ni
las Saltwood, de quarenta e quatro anos, que se dirigiu nestes
termos a sua mulher:
??Henrietta, decidi arriscar as nossas economias e comprar a
rn.??Depois, levou?a at ao porto, onde se via ancorada uma
luena nau de dois mastros.
??Vai ser perigoso??declarou ele.??Quatro anos nas ilhas das
peciarias e Deus sabe onde mais. Mas se no nos arriscarmos
ago

??Se comprares a nau, como vais pagar as mercadorias?
??Com a nossa integridade??respondeu Saltwood, e, apenas
luiriU a Acorn, visitou com sua mulher os mercadores de
Plyuth, oferecendo?lhes participao na sua ousada aventura.
No vendia dinheiro, apenas as mercadorias com as quais se
propunha
r a sua fortuna e a deles. No dia 3 de Fevereiro, tinha o
navio
m carregado e estava pronto a zarpar.
Durante noventa dias a Acorn navegou para sul, por mares que
nunca percorrera. No nonagsimo primeiro dia atingiu Santa
Helena,

39
A Aliana

onde se abasteceu. Em seguida, e aps quatro dias de descanso
Acorn dirigiu?se de novo para sul.
No dia 23 de Maio de 1637, com mar e vento procelosos, a
pequena nau chegou ao largo da praia arenosa situada abaixo da
montanha da Mesa. quando os mares tempestuosos acalmaram, os
homens da Acorn foram a terra, desembarcando no Cabo
propriamente dito, onde uma das primeiras tarefas a que se
entregaram foi procurar na rea alguma pedra de correio.
Encontraram cinco pedras
cada uma das quais com o seu embrulho de cartas, algumas para
Amsterdo, outras para Java. Reembrulharam as primeiras em
lona e colocaram?nas de novo sob uma das pedras e levaram as
ltimas para bordo para serem entregues no Extremo Oriente.
Os marinheiros reunidos na praia preparavam?se para embarcar
para a longa viagem rumo a Java quando apareceu, vindo de
leste
um grupo de homens de tez acastanhada, de baixa estatura,
dirigido por um jovem de vinte e tal anos de expresso e
gestos vivos, que se ofereceu para fornecer aos navegantes
carneiros, aos quais se referiu por mmica, imitando
habilmente os animais, em troca de pedaos de ferro e cobre.
Perguntaram?lhe o nome, mas como no compreenderam a sua
linguagem de estalidos, um dos marinheiros sugeriu:
??Vamos chamar?lhe Jack.  um nome que serve!
E foi sob este nome que o levaram a bordo da Acorn e o
apresentaram ao comandante Saltwood, que disse:
??Podamos utilizar o trabalho de mais um homem. Levem?no para
um beliche  proa.
Jack era um homem de baixa estatura, com um metro e quarenta e
cinco, coberto apenas com uma tanga feita com pele de chacal;
numa pequena bolsa apertada em torno da cintura trazia alguns
objectos preciosos, entre os quais uma pulseira de marfim e
uma tosca faca de pedra. Ao fim de uma semana em que observou
um marinheiro a manejar a sovela e as agulhas no conserto das
velas, Jack confeccionara para si prprio um par de calas,
que usou durante o resto da longa viagem. Fez tambm umas
sandlias, um chapu e uma camisa solta, e foi com este traje
que apareceu  amurada da Acorn quando o comandante Saltwood
entrou cuidadosamente com a sua pequena nau no porto portugus
de Sofala.
??Vocs tiveram coragem em entrar aqui??comentou um mercador
portugus.??Se fossem holandeses, tnhamo?los afundado sem
demora.

??Vim negociar em ouro??declarou Saltwood, ao que o portugus
irrompeu numa gargalhada trocista.
?? esse o objectivo de toda a gente. Mas no h ouro. Para
. onde vo?
??Malaca. E depois ilhas das Especiarias.
??Essa agora!??exclamou o mercador. ??Se tentarem imiscuir?se
no comrcio das ilhas das Especiarias, os Portugueses
queimam?lhes a nau em Malaca. Mas, se so corajosos e desejam
real
. mente negociar, eu tenho uma coisa que interessa aos
Chineses.
??Tr?la??pediu Saltwood.
Com evidente orgulho, o portugus apresentou catorze objectos
curiosos, escuros, em forma de piramides, com cerca de vinte
centmetros quadrados de base.
??Que  isso???perguntou Saltwood.
??Chifres de rinoceronte.??E o mercador explicou que os homens
que tivessem atingido uma determinada idade e quisessem casar
com mulheres novas reduziam o chifre a p, que ingeriam com o
objectivo de garantirem a si mesmos a virilidade necessria.
??Onde  que os posso trocar???perguntou Saltwood.
??Em Java. Os Chineses frequentam Java.
Assim, o negcio foi concludo e a Acorn prosseguiu viagem.
Dia aps dia, na sua viagem de sonho, a pequena nau deslizava
k por mares de ondulao suave, aproando depois a algum porto
onde   comandante Saltwood desembarcava, conversava e ouvia.
Aps um dia de cauteloso estudo, fazia sinal aos seus homens,
que traziam para o mercado os seus fardos de mercadorias. E,
no final das negociaes, Saltwood tinha sempre algum novo
produto para encher os  :  cus pores.
i  : A parte da jornada que Jack mais apreciou registou?se
quando a corn passou pela grande fortaleza de Malaca e seguiu
para leste, por entre as ilhas do comrcio de especiarias. A
viu pela primeira vez pano tecido com ouro e a manufactura em
metal realizada nas ~ .s. Era um mundo de inacreditveis
riquezas.
??Pimenta! Isto  que d mesmo dinheiro??afirmaram?lhe os
marinheiros. E esmagaram os pequenos gros negros, cujo cheiro
o
uciou e fez espirrar.
??Noz?moscada, macis, canela!??repetiam os marinheiros, 
medida que as pesadas sacas eram trazidas para
bordo.??Aafro,
rdamomo, cssia!??prosseguiam. Mas era o cravo?da?ndia que
s atraa Jack, o qual, no obstante os guardas postados de
vigia 
A Aliana

preciosa carga, conseguiu roubar alguns gros, que quebrou com
os dentes e conservou debaixo da lngua, onde os mesmos Lhe
provocavam ardor e emitiam um agradvel aroma.
Como o Oriente era magnificente! Quando completou as suas
trocas, Saltwood emitiu a seguinte ordem, bem recebida pela
tripulao:
??Agora vamos para Java, onde os Chineses esperam pelos nossos
chifres de rinoceronte.
Durante dias a fio o pequeno navio  vela bordejou a costa de
Java. Encostados  amurada, os marinheiros contemplavam,
maravilhados, aquela ilha de sonho, onde as montanhas se
erguiam para tocar nas nuvens e a selva se arrastava at vir
mergulhar os seus dedos no mar.
Preocupado com dois srios problemas, o comandante Saltwood
no dispunha de tempo para desfrutar este espectculo.
Negociara to habilmente que o seu navio continha agora uma
fortuna verdadeiramente colossal, que devia ser protegida dos
piratas e que, alm do mais, s poderia realizar?se depois de
ele conseguir que a nau passasse em segurana pela fortaleza
de Malaca, atravessasse os mares dobrasse o Cabo da Boa
Esperana, arrostasse com as tempestades do equador e chegasse
a Plymouth. Foi com estas apreenses que ancorou em Java e foi
conduzido a terra num barco a remos, a fim de negociar com os
mercadores chineses.
Enquanto a Acorn permaneceu ancorada, esperando que se
formasse a frota seguinte para a viagem rumo  Europa, Jack
explorou Batvia, o centro comercial que os Holandeses haviam
criado em Java. Passeou no cais, aprendendo a identificar as
vrias embarcaes que faziam escala naquelas guas asiticas:
carracas eriadas de canhes, rpidas galeotas provenientes da
Holanda, os assombrosos paraus das ilhas e os altaneiros
navios mercantes.
Foi enquanto observava a descarga de um destes monstros que
Jack notou um holands alto e magro, de nome Karel van Doom
CUJO armazm ficava situado junto ao porto. Embora conclusse
que ele no podia ter mais de vinte e trs anos, Jack ficou
impressionado com a sua rgida dignidade e dirigiu?se?lhe num
ingls imperfeito.
??De onde s tu???perguntou o holands
??Sol?poente. Muitos dias.
A resposta era to insatisfatria que Van Doom chamou um
marinheiro da Acorn e perguntou?lhe:
??De onde  este tipo?

O homem respondeu:
??Apanhmo?lo no Cabo da Boa Esperana.
??Hum . .. !??murmurou Van Doom. Depois, voltou?se para o
' indgena e perguntou?lhe:
??O Cabo  um bom lugar?
Jack, sem perceber a pergunta, riu?se e preparava?se para se
retirar quando reparou num branco que teria aproximadamente a
sua
 estatura, um rapaz de treze anos que Van Doom tratava com
afecto.
??Filho???perguntou Jack.
 ?? o meu irmo Willem??respondeu Van Doom. E durante os dois
meses seguintes, enquanto a Acorn aguardava ao largo de Java,
Willem van Doorn e Jack brincaram juntos. Tinham a mesma
estatura e o mesmo desenvolvimento mental e formavam um par
atraente, um homem magro e baixo de tez acastanhada e pernas
arqueadas e um robusto rapaz holands de cabelo louro.
Um dia, o jovem Willem fez uma surpresa a Jack. Tendo notado
que o seu amigo no possua outras roupas alm das que usava,
arranjou um par de calas e uma camisa no armazm da Companhia
Jan. Quando os vestiu, Jack ficou com um aspecto ridculo,
pois as peas de vesturio haviam sido confeccionadas para
holandeses fortes, e no para anes.
??Eu sei coser??afirmou Jack em tom tranquilizador. E em pouco
tempo as roupas haviam sido alteradas.
Jack nsiava por oferecer tambm uma lembrana a Willem van
Doorn, mas no imaginava sequer o qu. Depois, lembrou?se do
bracelete de marfim que tinha na sua bolsa; quando, porm, o
deu a Willem, constatou que a pulseira era demasiado estreita
para entrar no pulso robusto do holands. Foi o severo Karel
quem resolveu o problema Ligou o aro de marfim a uma corrente
de prata do stock da Companhia e suspendeu?a ao pescoo de
Willem.
Nessa noite, o comandante Saltwood, mais rico do que jamais
sonhara devido aos lucros que obtivera com os chifres de
rinoceronte, informou a tripulao de que, uma vez que no
havia outras embarcaes prestes a partir para o Ocidente, a
Acorn seguiria at ao estreitO de Malaca, onde se reuniria a
uma frota de alguns navios ingleses que estava a formar?se na
India.
??Vai ser uma aventura sria??avisou ele. E a tripulao
passou a noite a preparar os seus mosquetes e lanas.
Foram necessrias  Acorn duas semanas para atravessar as
guas de Java, bordejar a costa de Samatra e passar pela
enorme quantidade
A Aliana

de ilhas que tomavam aquele mar prdigo tanto em beleza como
em riqueza, mas finalmente os marinheiros notaram que a terra
comeava a aproximar?se do navio, ladeando?o estreitamente, e
perceberam que se dirigiam directamente para a parte crtica
da sua viagem. A estibordo ficava Samatra, um ninho de
piratas. A bombordo erguia?se a macia fortaleza portuguesa de
Malaca, inexpugnvel, a cujas muralhas assomavam perto de
setenta enormes canhes. E  sua volta navegavam pequenas
embarcaes cheias de homens audaciosos que tentavam abordar a
Acorn e roubar?lhe a carga.
O combate, se ocorresse, seria equilibrado, pois a Acorn era
tripulada por marinheiros de Plymouth, netos daqueles
valorosos homens que com Sir Francis Drake tinham desbaratado
os navios espanhis da Armada Invencvel, os quais no tinham
qualquer inteno de se deixar abordar ou afundar.
A batalha comeou  meia?noite: grandes canhes disparavam do
forte, pequenos barcos lanavam setas incendiadas, numa
tentativa de pegar fogo ao navio ingls, e embarcaes maiores
procuravam abalro?lo para tentarem a abordagem. Mas os
Ingleses combateram como demnios, disparando as pistolas e
desferindo golpes com as suas lanas. De manha, j tinham
ultrapassado a fortaleza, agora distante, e encontravam?se em
segurana. Terminara a perigosa travessia.
Na India, o comandante Saltwood recebeu uma notcia que o
desiludiu enormemente: nesse ano nenhuma frota inglesa se
faria ao mar com destino ao seu pas. Consequentemente, mais
uma vez esse homem corajoso prosseguiu viagem sozinho.
Regressar a Inglaterra tomara?se agora uma obsesso, pelo que
rumou a Acorn nesse sentido.
Em Ceilo, sofreram uma tentativa de assalto por parte de
piratas; ao largo de Goa, tiveram de repelir aventureiros
portugueses. Em Moambique, foram perseguidos por duas
carracas decrpitas, que alimentavam a esperana remota de
poderem fazer uma presa, mas que abandonaram a perseguio
quando viram a Acorn afastar?se serenamente, de velas
enfunadas. Finalmente, ultrapassaram Sofala. Em seguida,
bordejaram a costa austral de frica, em direco a oeste, e
chegou a manha em que um marinheiro gritou: Estou a ver a
montanha da Mesa!, e o comandante Saltwood Lhe entregou uma
moeda de prata, dizendo: Demos mais um passo em direco a
casa. 
Quando chegaram  baa e prepararam a chalupa de desembarque,
Jack despediu?se dos seus amigos navegadores, erguendo?se nas
pontas dos ps para os abraar. Uma vez na praia, dirigiu?se
lentamente para o interior, detendo?se de vez em quando para
olhar o navio de cujas vitrias e tribulaes participara na
longa viagem at
 ao Oriente. Quando atingiu a sua aldeia, chupava um
cravo?da?ndia  trazido de Java e ofereceu um a cada amigo que
veio dar?lhe as boas?vindas.
  O comandante Saltwood completou a sua viagem de regresso no
i dia do solstcio do Vero de 1640, quando, aps trs anos de
uma arrojada aventura, a Acorn entrou no porto de Plymouth com
os pores atulhados de noz?moscada, cravo?da?ndia e canela. A
carga era to valiosa que fez a fortuna de Saltwood e dos seus
associados.

NESSE mesmo ano, 1640, os holandeses de rostos austeros que se
propunham governar o Oriente a partir de Java tinham sido
duramente assediados pelos portugueses de Malaca. Em pungentes
relatrios enviados aos Dezassete, em Amsterdo, tinham?se
queixado: Os inimigos catlicos em Malaca afundaram os nossos
navios pela ltima vez. A sua fortaleza tem de ser destruda.
Quando os Dezassete aprovaram planos para esmagar os
Portugueses, os holandeses de Java responderam
entusiasticamente. Foram postos fundos  disposio.
Construdos novos navios  E, como medida igualmente
importante, foram enviados embaixadores para os reinos
vizinhos com o objectivo de garantir que, quando os Holandeses
atacassem Malaca, o seu interesse no era territorial. < No
temos a inteno de tomar qualquer terra que pertena a
outros", diziam. Mas temos de pr cobro  pirataria
portuguesa. 
Entre os embaixadores escolhidos para esta delicada misso
contava?se Karel van Doom, na altura com vinte e cinco anos,
que adquirira j uma slida reputao como servidor leal da
Companhia. Era honesto, desprovido de qualquer sentido de
humor e possua conhecimentos financeiros.
Karel obteve esta promoo devido sobretudo a sua me, a
robusta viva de um oficial que fora morto enquanto expandia
as possesses da Companhia nas ilhas das Especiarias. O
oficial fora um
| homem dotado de uma grande energia; com arrogncia,
recorrendo a embustes e expropriaes, protegera a Companhia;
atravs de chicana, roubo e falsificao, desenvolvera ao
mesmo tempo os seus prprios interesses comerciais
clandestinos ??actividade severamente
| proibida??, e ao faz?lo acumulara uma considervel riqueza
particUlar  que tentava em vo colocar na Holanda por alturas
da sua
A Aliana

morte. Hendrickje, sua viva, viu?se ento com um complicado
patrimnio para administrar e possuidora de uma fortuna que s
podia gastar em Java.
Felizmente, Mevrouw van Doom prosperou nos trpicos. Ela e o
marido tinham construdo, numa das melhores zonas de Batvia
uma manso com jardins de extrema beleza juncados de
maravilhosas flores, onde, ao som de uma estridente orquestra
de gameles. muitas decises tinham sido tomadas referentes s
fortunas holandesas no Oriente.
Duas obsesses dominavam a existncia de Mevrouw van Doom:
negcios e religio. A sua devoo religiosa no continha, nem
podia conter, o menor vestgio de falsidade, atendendo 
histria da sua famlia. O seu av fora executado por
catlicos espanhis, e o seu pai dera tambm a vida em defesa
da Holanda e do calvinismo. Ela era um produto tpico do
calvinismo holands, esse severo protestantismo da Reforma.
De acordo com Jo o Calvino e os seus sucessores, um ser
humano, a partir do momento em que era concebido, era
registado no grande livro de registos de Deus como salvo ou
condenado, e apenas Deus, na Sua sabedoria, sabia quem devia e
quem no devia ser salvo. Por conseguinte, todas as crianas
tinham de ser baptizadas pois todas tinham uma esperana igual
de salvao. Alm disso, o calvinismo ensinava que a Bblia
era a nica fonte da lei de Deus e acentuava o facto de Deus
estabelecer frequentemente alianas com o seu povo
escolhido??situaes profusamente exemplificadas tanto no
Antigo como no Novo Testamento. Esta filosofia religiosa que
presidia a todos os actos praticados pelos Holandeses era para
Mevrouw van Doom mais real do que as estrelas no cu de Java.
Ainda em vida do marido, o casal recebera dos Dezassete uma
Bblia protestante impressa em holands, um tomo macio
publicado em 1630 por Henrick Laurentsz, de Amsterdo. Juntos,
tinham lido na sua prpria lngua as histrias empolgantes que
haviam alimentado o seu povo em tempos de perseguio
religiosa. O maior tesouro de Mevrouw van Doom era essa
Bblia.
Seguiam?se?lhe os seus dois filhos, Karel e Willem, cujas
fortunas ela administrava cautelosamente, pressionando os
directores locais da Companhia sempre que considerava Karel
merecedor de uma promoo. Propusera?o como embaixador junto
dos governos vizinhos de Malaca e sugerira tambm que Willem,
na altura com quinze anos, o acompanhasse nessa viagem.
46

Encontrava?se nessa ocasio ancorado no porto de Batvia um
navio mercante carregado de mercadorias destinadas  China, ao
Canboja e  Formosa. Foi nesse navio que embarcaram Karel,
Willem e os seus dezasseis criados.
O navio conduziu?os aos antigos portos do Oriente atravs de
guas que Marco Polo conhecera e passando por ilhas que no
voltariam a ser visitadas por brancos durante um sculo. Onde
quer que parassem, Karel van Doom assegurava aos chefes locais
que os Holandeses no nutriam quaisquer desgnios sobre o seu
territrio e que Ja il esperava a sua neutralidade quando se
verificasse o seu ataque a Malaca.
Em fins de Abril de 1640, quando os Van Dooms regressaram a
Batvia com as promessas de que nenhuns vizinhos interfeririam
nas suas operaes e tendo sido aparelhada uma armada de
navios de guerra, o governador?geral de Java decidiu chegada a
altura para o ataque. Virando?se para o embaixador
recm?chegado, dirigiu?se?lhe nestes termos:
??Karel, vs e Willem deveis acompanhar a armada. Vai ser um
iDmbate longo e perigoso. Assim que a fortaleza for ocupada,
estabelecei a ordem.
Quando foram iadas, as velas dos navios cobriram o mar como m
vu de renda branca. Os navios holandeses levaram treze dias a
atingir o estreito a sul da fortaleza portuguesa. Quando olhou
para as poderosas muralhas com nove metros de altura e sete de
espessura, o Dvem Willem van Doom exclamou em voz
entrecortada:
??Ningum as pode derrubar.
Tinha razo em sentir?se apreensivo, pois a fortaleza era
consideravelmente maior nessa altura do que quando os
Holandeses a haviam assaltado pela primeira vez. No interior
das muralhas erguiam?se cinco grandes igrejas, dois hospitais
e instalaes para quatro mil combatentes Das cinco torres,
sessenta e nove enormes canhes protegiam todos os acessos, e,
mais importante que todos os outros factores, a fortaleza era
comandada por um soldado que j suportara outros cercos e
estava decidido a vencer aquele.
Durante cinco terrveis meses conseguiu resistir. Mas
finalmente, m Janeiro de 1641, depois de terem interrompido as
hostilidades durante algum tempo para receberem reforos e
conselhos de Java, os Holandeses alcanaram a vitria e a
pedra fundamental do Imprio portugus do Oriente caiu.
Um dos mais entusisticos vencedores foi Willem, que descobriu

47
A Aliana

no recear o tiroteio nem as altaneiras muralhas. De facto,
ele encontrava?se entre os primeiros a entrar na cidadela
quando os canhes dos navios holandeses foram arrastados para
o interior, despedindo projcteis de ferro macio que causavam
uma terrvel destruio e morticnio .
Foi um triunfo sangrento, mas os Holandeses procederam com
magnanimidade. O comandante portugus foi saudado pela sua
bravura e recebeu um navio no qual transportasse a sua
famlia, os seus escravos e as suas posses para qualquer porto
 sua escolha; e os valorosos capites que haviam defendido as
torres foram autorizados a acompanh?lo com todos os seus
pertences.
E assim se dissolveu o vasto Imprio Portugus do Oriente. A
cidade de Macau, no limiar da China, foi mantida, bem como
parte de Timor, nas guas a norte da Austrlia, o reduzido
enclave de Goa na India, e o interior selvagem situado por
detrs de Moambique, que se estendia para oeste at ao
territrio de Angola. Tudo o resto se perdeu: Ceilo, Malaca e
as importantes Ilhas das Especiarias.
Os vencedores holandeses escreveram para os directores da
Companhia, em Batvia: < Malaca caiu e ser a partir de agora
considerada territrio e domnio da Companhia Holandesa das
Indias Orientais.  Uma vez que o mundo oriental era agora
dominado pelos Holandeses, chegara o momento indicado para
estabelecer um ponto de escala seguro entre Amsterdo e
Batvia onde os marinheiros pudessem recuperar do escorbuto. A
lgica ditava que esse ponto se localizasse no Cabo da Boa
Esperana, mas a sua fundao a foi puro acidente.
Duas vezes por ano, navios mercantes holandeses que
comerciavam por todo o Oriente reuniam?se em Batvia para
preparar a longa viagem de regresso a Amsterdo. Cada frota
permaneceria seis meses no mar, arrostando as vagas alterosas
do oceano Indico e as tempestades do Atlantico.
Ocasionalmente, perdia?se at um tero da frota mas sempre que
um navio parecia condenado iava uma bandeira de panico, ao
que os outros o rodeavam, esperando que o tempo amainasse para
transportarem a carga para os seus pores. Desta forma as
preciosas especiarias continuavam a sua jornada para a
Holanda.
A primeira frota zarpava por volta do Natal, e a segunda
esperava o tempo suficiente para obter do Japo e da China as
cargas atrasadas devido s mones. A partida pelo Natal era
particularmente popular entre os holandeses de Java, que nesta
altura do ano comeavam a sentir saudades dos seus sombrios
canais. O ano de 1646 no constituiu excepo: uma imensa
frota reuniu?se ao largo de Batvia, e na manha de 22 de
Dezembro as velas foram iadas.
No ltimo momento, trs naus de menor calado??a Haerlem, a
Schiedam e a Olifant?? foram retiradas, tendo recebido ordens
para esperarem trs semanas antes de seguirem, a fim de
levarem importantes mensagens de ltima hora e quaisquer
funcionrios da Companhia que desejassem partir aps as
celebraes natalcias.
O Natal desse ano foi uma quadra ruidosa, mas na espaosa casa
de Mevrouw van Doom apresentou?se com uma encantadora graa
holandesa. Na sua vasta sala de jantar, quinze ou vinte
convidados reuniram?se para compartilhar do rijsttafel dos
dezasseis rapazes?a mesa de arroz de Java. Ao som da msica,
escravos Javaneses em sarong trouxeram enormes pratos de arroz
fumegante, que cada um dos convivas empilhou no seu prato.
Depois, Mevrouw tocou uma estridente campainha chinesa, e da
cozinha situada no jardim surgiu uma fila de dezasseis
criados, cada um dos quais trazia dois pratos  altura da
cintura: pequenos pedaos de galinha, fatias de carneiro,
peixe seco, peixe fumado, oito condimentos raros, dez espcies
de frutas frescas, frutas secas, legumes e pelo menos outra
meia dzia de saborosas iguarias. Cada conviva empilhava estas
iguanas em tomo do arroz.
Quando os criados se retiraram, apareceram outros com jarros
de gin, dos quais eram servidas copiosas pores. Com esse
reforo, os comensais iniciaram a sua refeio. Este famoso
rijsttafel era em certa medida responsvel pelo facto de
muitos holandeses que tinham vivido existncias circunscritas
na Holanda calvinista se mostrarem relutantes em deixar
Batvia.
Ao banquete seguia?se um animado baile. Quando o dia atingiu o
seu termo, o governador?geral arranjou maneira de chamar 
parte Mevrouw van Doom para a aconselhar acerca dos filhos.
??Deviam seguir ambos para Amsterdo com o resto da
frota?disse?lhe.
??Desejais privar?me do meu apoio mais firme???perguntou ela.
??Karel nasceu na Holanda, o que representa uma
vantagem?replicou o governador.??Mas nunca serviu l, e os
Senhores Dezassete no conhecem os seus talentos.
??Karel prosperar onde quer que esteja??observou secamente a
me.??No precisa de atenes especiais de Amsterdo.
?? verdade que  um filho admirvel, mas o facto  que tem de
ser visto no quartel?general da Companhia. No h alternativa.
A Aliana

Mevrouw van Doom reconhecia a sensatez do conselho. A
Companhia Jan era uma curiosa instituio: dezassete homens
todo?poderosos que no conheciam directamente o Oriente em
primeira mo e que tomavam decises que influnciavam meio
mundo. Era seu deseJo que os filhos atingissem, em Java e
Ceilo, as posies que apenas os Dezassete podiam atribuir.
Era de facto altura de Karel aparecer na Holanda.
??Mas Willem???perguntou.?? demasiado jovem. De facto devia
ficar comigo.
O governador riu?se.
??Hendrickje, surpreendeis?me. Willem combateu com bravura em
Malaca.  um homem, no um rapaz.??E prosseguiu
gravemente:??Que Karel seja visto em Amsterdo  diplomacia.
Para Willem apresentar?se l  sobrevivncia. Todo o seu
futuro pode depender desta circunstncia.
??Que quereis dizer?
??Aquilo que sabeis melhor do que eu. Poucos rapazes nascido,
em Java podem esperar alcanar uma posio de poder dentro da
Companhia.
??Isso  ultrajante! ??exclamou Mevrouw van Doom. ??O meu
marido e eu viemos para c nos tempos piores. Ajudmos a
construir esta nova Batvia. E dizeis?me agora que, s porque
o nosso filho nasceu enquanto aqui estvamos ...
O governador no precisava de responder. Por muito que Mevrouw
van Doom se irritasse, era um facto que seu filho Willem se
encontrava numa posio de desvantagem que poderia ser fatal
para a sua carreira na Companhia, pois a colonizao holandesa
no Oriente produzira contradies que eram pura e simplesmente
impossveis de resolver. Os Holandeses eram calvinistas
honestos que encaravam a sua religio com toda a seriedade,
mas eram tambm um povo paradoxal. Acreditavam firmemente na
sobriedade, e no entanto bebiam at ficar inconscientes cinco
em cada sete dias. Acreditavam no comportamento sexual rgido,
muito mais rgido do que os Portugueses ou os Ingleses, e
estudavam as passagens da Bblia que condenavam a vida
luxuriosa. Mas a dificuldade residia no facto de tambm eles
serem um povo lascivo: poucos homens na Europa eram mais
facilmente atrados pelo sexo oposto do que os holandeses de
Amsterdo, que se arrastavam pelos bordis, procurando
raparigas trazidas do Brasil e de Bali; mas faziam?no sempre
depois de protestos de virtude e antes de oraes de
contrio.

50

Em Java, para onde vinham os jovens mais viris da Holanda, a
fim de servirem durante cinco a dez anos, e para onde vinha
apenas um reduzido nmero de mulheres, e dos mais baixos
estratos, o problema tornava?se particularmente difcil.
Hendrickje van Doom escrevera pelo menos a uma centena de
jovens de Amsterdo e Haarlem pedindo?lhes para virem como
mulheres desses magnficos rapazes que faziam fortunas, mas
no convencera nem uma.
A s respostas incluam frases como: A viagem  demasiado
longa. o clima  demasiado quente.  uma terra de selvagens."
Qualquer rapariga em idade de casar podia alegar um sem?nmero
de razes para se recusar a ir para Java, o que significava
que os Jovens tinham de viver sem esposas at poderem
regressar, ricos,  Holanda.
Sem esposas, mas no sem mulheres. As raparigas de Java eram
das mais atraentes do Mundo??belas, elegantes, tmidas,
insinuantes. S um holands de carcter muito forte seria
capaz de ouvir o seu predkant ao domingo na igreja e
manter?se afastado das soberbas mulheres dos bairros nativos
durante as seis noites seguintes. Assim, multiplicava?se o
nmero de mestios, e Java adquiria uma reputao ftida.
Esta mistura de raas representava o problema mais vexatrio
para os Dezassete. Enquanto os directores sofriam com a
miscigenao. emergiram duas correntes de pensamento
antagnicas: os esclarecidos. que consideravam vantajoso
encorajar os seus empregados a casar com mulheres do Oriente,
formando assim uma colnia permanente. e os de esprito pouco
aberto, que consideravam essa situao uma contaminao da sua
prpria raa. Prevaleceu o ponto de vista puritano, e os
Dezassete estabeleceram o firme princpio de que nenhuma
posio de chefia podia ser ocupada por um homem nascido nas
ilhas. A esses homens faltaria a fibra moral automaticamente
obtida durante uma educao na Holanda; a sua capacidade de
julgamento seria corroda pelos efeitos deletrios do Oriente.
??No h qualquer hiptese para um rapaz como Willem?disse o
governador a Mevrouw van Doom.??Se ele for agora para a
Holanda e entrar na Universidade de Leiden, pode limpar?se do
seu nascimento javans. Se permanecer aqui, condena?se a
posies de terceira ou mesmo de quarta categoria. O
complemento da frota faz?se <lo mar em Janeiro??continuou o
governador??, e eu posso arranjar passagem para os vossos dois
filhos a bordo da Haerlem.?E   te a hesitao de Mevrouw van
Doom, acrescentou:??No h futuro e.rn Java para eles.
Hendrickie

  1
A Aliana

Ela sabia que o governador tinha razo. Suspirando, dirigiu?se
ao vo da porta para contemplar as flores no seu jardim e
anuiu.
??Preparai ento a ida deles depois do Ano Novo.
Uma vez que a Haerlem, acompanhada pela Schiedam e a Olifant,
devia partir no dia 17 de Janeiro, alcanando a frota
principal algures nas proximidades de Santa Helena, os dois
irmos dispunham de duas semanas para despedidas. O jovem
Willem passou este tempo com os amigos, mas Karel
apresentou?se diariamente nos escritrios da Companhia.
Informou?se da no existncia de portugueses em Malaca, uma
vez que o estreito era holands. Tambm o Japo era agora uma
concesso exclusivamente holandesa. Os navios ingleses j no
eram autorizados a atracar nas Ilhas das Especiarias; e mesmo
os ocasionais navios mercantes franceses, de velas
esfarrapadas devido  longa viagem, tinham de obedecer aos
regulamentos holandeses .
??Ns governamos os mares! membro da Companhia Jan.
??No??contrariou o homem mais velho.??Os Ingleses esto a
comear a governar a India. E os Portugueses ainda controlam
Macau e o comercio da China.
??Deix?los ter o ch e o gengibre??admitiu Karel??, desde que
fiquemos ns com as especiarias.
Quando os irmos Van Doom se fizeram ao mar, os pores das
trs naus iam abarrotados com sacos de mercadorias das ilhas
orientais. Os navios seguiam sob uma aura de prosperidade,
transportando promissoras fortunas em especiarias. Levavam o
corao da Asia para o centro da Europa; cada navio
representava uma riqueza superior  que numerosas naes
pequenas movimentavam num ano inteiro.
No quarto dia de viagem, levantou?se uma tempestade, e a
visibilidade tomou?se quase nula. Durante trs dias o vento
soprou em rajadas violentas e quando as nuvens baixas se
ergueram a Haerlem estava s. O comandante disparou o canho,
esperando uma resposta, e quando no obteve nenhuma rumou para
Santa Helena, o ponto ,de encontro com a frota.
Levaria mais de dois meses a percorrer esta distncia, e, 
medida que a Haerlem navegava para oeste, tomou?se evidente
que eram divergentes as motivaes a que obedeciam os irmos
Van Doom ao dirigirem?se para a Holanda. Para Karel, que l
nascera, o retomo representava um regresso  sede do poder,
onde ele se devia firmar junto dos Dezassete, em preparao do
dia em que poderia tomar?se governador?geral de Java. Para
Willem, a situao equacionava?se em termos diferentes. O
jovem, que adorava o Oriente, recusava?se pura e simplesmente
a acreditar que um homem nascido em Amsterdo era por
inerncia superior a outro nascido em Batvia.
Quando interrogou Karel a este respeito, o seu austero irmo
franziu o sobrolho.
??Os holandeses de Java so na sua maioria escumalha. Alguma
vez pensarias em casar com uma rapariga de uma dessas
famlias?
Esta interrogao deixou perplexo o jovem Willem, que no s
pensara em casar com uma rapariga holandesa local, como tambm
em desposar a pequena balinesa que servia como criada de sua
me.
Na manha seguinte, por razes que no teria conseguido
explicar, rebuscou a sua bagagem, encontrou a pulseira de
marfim de Jack ainda presa  sua corrente de prata e, numa
atitude de desafio, suspendeu?a do pescoo. Quando notou o
adereo, Karel increpou?o em voz spera:
  ??Tira essa coisa idiota. Pareces um javans.
; ?? assim que eu quero parecer. ??E, a partir de ento,
raramente deixou de usar a pulseira.
A meados de Maro depararam?se?lhes ventos contrrios.
Apreensivo relativamente  sua proviso de gua, o comandante
planeou fazer escala no Cabo da Boa Esperana, onde poderia
abastecer?se de gua doce e onde a populao nativa Lhe
poderia tambm fornecer gado.
Ao alvorecer do dia 25 de Maro de 1647, Willem encontrava?se
. no topo dos mastros, esperando descortinar a montanha da
Mesa. Mas o tempo ficou enevoado e a neblina ocultou o cimo
plano. Um vento forte de sudeste obrigou o comandante da
Haerlem a navegar 
5 bolina. Quando a intensidade do vento aumentou, a Haerlem
foi empurrada em direco  praia.
Nessa altura, o vento mudou subitamente de direco e as velas
arrastaram a nau em direco  costa. Arriar velas!, , gritou
o comandante  mas era demasiado tarde; rajadas fortes tinham
feito encaLhar o navio. Os costados estremeceram. Os mastros
rangeram. Vagas poderosas fustigaram estrondosamente a nau. E,
quando a noite caiu, a Haerlem estava inevitavelmente
naufragada e provavelmente partir?se?ia ao meio antes do
amanhecer.
Os irmos Van Doom esperaram que o navio se afundasse, mas,
como o comandante mais tarde escreveu no seu dirio de bordo.
pela graa de Deus, nosso nico amparo, o poder das ondas
decres
A Aliana

ceu. A nau no se partiu ao meio. E quando amanheceu
verificmosque, embora a nossa situao fosse desesperada, nos
encontrvamos suficientemente perto da praia para salvar os
que se encontravam a bordo .
Na manha enevoada foi lanada ao mar uma chalupa. A embarcao
fez?se  praia, mas os homens da Haerlem viram com desanimo a
nau afundar?se na forte rebentao, afogando um marinheiro que
no sabia nadar.
??Temos de conseguir chegar a terra!??gritou Karel ao
comandante.
??No  possvel??respondeu o comandante.
Mas Karel considerou a possibilidade de amarrar dois barris um
ao outro e flutuar assim at  praia, e foi nessa espcie de
jangada que ele e Willem desembarcaram no Cabo da Boa
Esperana.
Quando a nvoa se ergueu, os Van Doorns viram a Olifant
ancorada na baa da Mesa. No dia seguinte,  frente da sua
tripulao, fizeram repetidas tentativas para alcanar a
Haerlem, prestes a afundar?se. A fora da rebentao
obrigou?os sempre a retroceder. Afortunadamente, os
comandantes de dois navios mercantes ingleses que fundearam na
baa concordaram em ajudar a transferir os volumes mais
pequenos da carga da Haerlem para a Olifant. E o facto  que
os Ingleses se entregaram a essa tarefa como se estivessem a
soldo de Amsterdo. Cem embalagens de macis, oitenta e dois
barris de canfora em bruto; oitenta fardos de canela de
qualidade seca e cinco grandes caixotes de quimonos japoneses
bordados a ouro e prata. Quando esta rdua tarefa terminou,
os comandantes ingleses ofereceram?se para transportar
quarenta homens da tripulao da Haerlem para Santa Helena,
onde eles se poderiam juntar  frota holandesa que seguiria
para Amsterdo.
Depois de estes bons samaritanos terem partido, os Holandeses
analisaram a situao em que se encontravam. A Haerlem teria
de ser abandonada, mas os seus pores inferiores ainda
continham uma riqueza tal que nem a Olifant nem a Schiedam,
caso esta aparecesse, a poderiam transportar para a Holanda.
Seria necessrio construir em terra uma fortificao
provisria onde armazenar a carga que restava. E um grupo de
homens permaneceria no Cabo para proteger o tesouro enquanto o
grosso da tripulao partiria a bordo da Olifant.
Ainda as fundaes para o forte tinham sido apenas esboadas
quando o grupo que nelas trabalhava ouviu tiros de canho, e a
Schiedam penetrou na baa. Por entre demonstraes de alegria,
as

 s tripulaes reuniram?se e em breve eram tantos os
marinheiros
,?que trabalhavam na construo do forte que o comandante teve
de
 :ordenar:??Afastem alguns. Esto a empatar os outros.
Finalmente, chegou a altura de realizar a exaustiva tarefa que
representava o rpido transporte para terra da carga da
Haerlem, no  fosse o navio destroado partir?se a meio. Os
Van Dooms trabalham na coberta, supervisionando os guinchos
que erguiam os preciosos fardos, e quando trs marinheiros
desceram aos pores para acondicionar em sacos gros de
pimenta que se haviam soltado, ordenou:??No deixem l em
baixo um nico saco.
Mas em breve os homens regressaram ao convs, ofegantes, pelo
que Karel desceu aos pores a fim de se inteirar do que os
fizera abandonar os seus postos. Descobriu que a gua salgada
impregnara pimenta, originando uma fermentao que libertava
um gs mortal. tossindo e comprimindo a garganta com as mos,
regressou  coberta, cambaleante.
??Abram as outras escotilhas!??gritou Karel. Quando, porm,
verificou que esta medida se revelava praticamente
infrutfera, ordenou que colocassem um canho do navio em
posio que permitisse disparar para dentro do poro
rebentando o costado da nau.
??Fogo!??gritou. E uma bala de canho arrancou metro e meio )
costado, permitindo a entrada de ar puro nos pores. Foram
disparados mais trs tiros que asseguraram a libertao do
gs. Quando o poro ficou transitvel, Karel foi o primeiro a
descer para salvar a
valiosa pimenta.
No dia 1 de Abril, a transferncia da carga do navio
naufragado
prosseguia com regularidade, e foi decidido que a Olifant e a
Schiedam deviam partir para a Holanda transportando tantos
homens quans possvel da tripulao da Haerlem. Dois
experimentados oficiais
marinheiros permaneceriam no forte, com um contingente de
sessenta homens, para protegerem a pimenta e a canela at 
chegada da prxima frota.
Os comandantes dos trs navios fitaram Karel, esperando que
ele
oferecesse para permanecer de guarda  carga; compreendendo,
porm, que a sua oportunidade estava na Holanda, o jovem no
se
ps p?la em risco com uma prolongada ausncia no Cabo.
consequentemente  no dia 12 de Abril, quando a Olifant e a
auedam partiram, foi o jovem Willem van Doom quem permaneceu
em terra.
??Acho que sou preciso no forte.
A Aliar a

Era uma espcie de afirmao de autoconfiana que velhos
combatentes sabiam respeitar, pelo que concordaram. Defendei
o forte!", gritaram?lhe quando as duas pequenas naus se
fizeram ao mar deixando pela primeira vez na Histria sozinho
no Cabo o primeiro grupo de holandeses.
Haviam decorrido apenas doze dias quando Willem surpreendeu os
comandantes do forte ao anunciar?lhes:
??Gostava de ser o primeiro a subir a montanha da Mesa.
Quando a permisso Lhe foi concedida, recrutou dois amigos.
Marcharam alegremente em direco  montanha, cerca de vinte
quilmetros para sul, e quando chegaram ao sop Willem
declarou:
??S paramos quando chegammos l acima.
Foi uma subida penosa, mas finalmente conseguiram alcanar o
vasto e gracioso planalto, do qual podiam examinar o seu
imprio. A sul e a oeste estendia?se o Atlantico vazio. A
norte apenas descortinaram dunas varridas pelo vento. Mas a
leste viram convidativos prados e colinas, por detrs dos
quais se erguia, a perder de vista, uma srie ininterrupta de
montanhas. Em silncio, os trs marinheiros observaram a terra
banhada pelo sol.

Os marinheiros em breve travaram conhecimento com os homens de
baixa estatura e cor bronzeada que ocupavam o Cabo. Eram um
grupo desprezvel, que pouco tinha de humano, escreveu um
dos cronistas, sujo, roubando e vivendo miseravelmente dos
mariscos que conseguia apanhar. Foram baptizados como
Vagabundos da Praia, e, para desapontamento dos marinheiros,
no tinham nada de valor para trocar, embora quisessem tudo
quanto viam. Depois, no dia I de Junho, ocorreu um incidente
to bizarro que todos aqueles que mais tarde fizeram relatos
do naufrgio o comentaram.

Neste dia, cerca das duas horas da tarde, aproximou?se. vindo
de leste, um grupo de cerca de vinte homens de baixa estatura
e tez acastanhada, muito diferentes daqueles patticos
indgenas a que chamvamos Vagabundos da Praia. Avanaram
indmitos, conduzindo  sua frente um rebanho de carneiros com
as caudas maiores que jamais vramos. Chammos?lhes Hotentotes
devido  sua falta de estalidos e comemos rapidamente a
tentar negociar com eles. Mostraram?se dispostos a trocar o
seu rebanho por pedaos de lato.
E aconteceu ento uma coisa extraordinria. Das suas filas
destacou?se um homem de cerca de trinta anos. de gestos vivos
e expresso inteligente, e, palavra de Deus, vestido como um
marinheiro ingls, inclusivamente com sapatos. O mais notvel
 que
falava um ingls correcto sem qualquer estalido. Uma vez que
nenhum de ns falava essa lngua, fui a correr buscar Willem
van
Doorn, que a aprendera em Java. Quando viu o homem em traje de
marinheiro, Van Doorn precipitou?se na sua direco, gritando
Jack! Jack, e abraaram?se numerosas vezes percorrendo com
os dedos o bracelete de marfim que vramos na corrente de
Willem.
Depois, danaram de alegria, aps o que se apartaram, falando,
numa linguagem que no conhecamos, de coisas que ignorvamos.

Durant  esse ano, Jack ajudou os Holandeses a negociarem com
os Hotentotes. Consequentemente, ele e Willem van Doorn
estavam muitas vezes juntos e, tal como antes, os dois
formavam um par surpreendente enquanto passeavam ao longo da
baa, caando e pescando. Willem, agora um adulto de vinte e
dois anos, dominava com a sua estatura o seu amigo. Em meados
de Julho, Jack props a Van Doorn acompanh?lo  aldeia onde
viviam os Hotentotes, que criavam carneiros. O comandante da
fortaleza suspeitou de uma armadilha.
??Podeis ser morto??avisou ele Willem.
??No me parece. ??E com esta simples afirmao o jovem Willem
van Doom tomou?se o primeiro holands a aventurar?se para
leste em direco quelas convidativas montanhas.
. Foi uma jornada de cerca de cinquenta quilmetros, atravs
de uma terra que patenteava indcios promissores de
fertilidade. Atravessaram zonas onde haviam existido aldeias e
onde a terra, tendo servido de pasto ao gado ficara rasa, como
notou Willem.
??Vocs tm gado???perguntou a Jack, indicando com as mos que
se referia a animais maiores do que carneiros.
??Temos.??Jack riu?se, usando os indicadores para formar
chifres na testa e depois mugindo como um boi.
??Tens que oS trazer para o forte!??exclamou Willem, preso de
excitao.
??No, no! ???recusou Jack com firmeza.??No trocamos.?
Explicou que de momento era Inverno naquela parte do Mundo,
que as vacas estavam prenhes e que era proibido trocar gado
antes do Vero Quando, porm, chegaram  aldeia e Willem viu
os lustrosos amimais criados pelos Hotentotes cresceu Lhe gua
na boca; planeou relatar este milagre aos companheiros do
forte assim que regressasse.
A sua estada de cinco dias na aldeia constituiu uma revelao.
Os Hotentotes estavam muito avanados em relao aos
primitivos Vagabundos da Praia, pois tinham sistemas metdicos
para criar carneiros e vacas e viviam em aldeias
substncialmente fortificadas. Willem comeou a prever a
possibilidade de criar uma colnia permanente no Cabo, onde
agricultores holandeses plantassem os legumes necessrios s
frotas da Companhia que por ali passavam e negociassem
carneiros e bois com os Hotentotes. Discutiu com Jack esta
possibilidade .
??Talvez vocs possam criar mais gado.
??No. Temos bastante.
??Mas se ns quisermos trocar? Podem dar?nos muito gado?
??No. S temos o suficiente.
??Mas se ns precisammos dele? Viste o navio ingls. Comida
pobre. Nenhuma carne.
??Ento os Ingleses criem carneiros. Os Ingleses criem gado.
Nessa altura, Willem no conseguiu os seus objectivos, mas nos
comeos de Agosto Jack conduziu ao forte cerca de cinquenta
hotentote  que levavam no s carneiros como tambm trs belos
bois que ele  acordaram em dispensar. Os oficiais ordenaram a
Jack que fornecesse gado vacum numa base regular, ao que este
objectou:
No temos bastante.
i'en ;mdo que, na opinio do indgena, as mercadorias por eles
oferecidas no eram suficientes, os Holandeses tentaram
explicar?lhe que  de ido ao naufrgio da Haerlem, haviam
perdido as mercadoria  com que habitualmente transaccionavam e
apenas possuam especiarias e tecidos caros no forte. Como
Jack parecia no perceber aquilo que Lhe era dito, Willem
arranjou um barco e levou seis hotentote  at ao casco que se
desintegrava para procurar quaisquer objectos que eles
pudessem querer em troca do seu gado.
foi uma viagem va. Tudo quanto restava a bordo do navio
naufragado eram armas pesadas, ancoras e madeiras partidas,
que no interessavam aos Hotentotes, os quais apenas
pretendiam metal.
. las quando os indgenas se preparavam para abandonar o
navio, Wlllem encontrou casualmente uma gaveta escondida
contendo um artigO de inestimvel valor. Fechou rapidamente a
gaveta e seguiu?os at a praia, mas nessa noite, quando todos
dormiam, remou em direcO ao navio e dirigiu?se ao camarote
do comandante, onde abriu de no O a gaveta. L estava ela, com
os seus espessos cantos e fecho, de lato.
A Aliana

Soltando cautelosamente os fechos, abriu a capa de couro e viu
as palavras preciosas: Bblia: A Sagrada Escritura traduzida
em holands, Henrick Laurentsz, livreiro. Amsterdo, 1630.
Era um exemplar da mesma Bblia que sua me tanto estimara, e
ele sabia que seria imprprio permitir que um livro to
sagrado se afundasse no mar. Assim, cobrindo?o com a camisa,
levou?o para o forte e ocultou?o entre os seus pertences.
Meses mais tarde, por alturas do Ano Novo, pediu emprestada
uma caneta e escreveu na primeira linha da pgina reservada
para registos de famlia: Livro de Willem van Doom, I de
Janeiro de 1648.

EM Agosto de 1647, trs navios da Companhia tinham fundeado
perto do forte, fornecendo correio, informaes e ferramentas.
Na noite anterior  sua partida para Java, o comandante do
Tiger, navio?chefe da flotilha, anunciou que seriam bem
recebidos a bordo quaisquer marinheiros que desejassem
regressar a essa ilha para outra comisso de
servio.??Partimos amanha ao meio?dia??declarou.
Toda essa noite Willem debateu o problema. Intuitivamente,
repelia a ideia de prosseguir viagem para a Holanda, terra com
a qual no sentia qualquer afinidade. E se no embarcasse
imediatamente no Tiger, poderia no voltar a ver Java. No
entanto, quando a alvorada tingiu de rosa a montanha da Mesa,
o jovem Willem van Doorn tomara uma deciso: obedeceria s
ordens de sua me e partiria para a Holanda com a frota de
Maro.
Quando o Tiger se afastou, pouca pena sentiu, pois
experimentava a curiosa sensao de no estar destinado a
seguir nem para Amsterdo nem para Batvia.  O que eu gostava
era de ficar aqui, pensou ele. Ver o que existe atrs
daquelas montanhas.
Nessa noite leu a Bblia durante muito tempo, e as suaves
palavras holandesas permaneceram?lhe gravadas a fogo no
esprito:

Moiss mandou?os observar a terra de Cana, e disse?lhes ...
subi a montanha: E vede a terra ... e o povo que nela habita,
se 
forte ou fraco, escasso ou numeroso. aquela terra  aquela em
que
habita, se  boa ou m.

Enquanto estudava outros textos referentes s reaces dos
Israelitas  nova terra para a qual tinham recebido ordem de
se mudarem, Willem sentia?se como se pertencesse a esse grupo
explorador; subira a montanha para observar a terra; viajara
para o interior para averiguar como o povo vivia e se a terra
era boa ou estril. Estava escrito que deveria fazer parte
daquela terra majestosa situada para l das montanhas. Mas
ignorava como Lhe seria possvel permanecer no Cabo, pois os
Holandeses estavam decididos a abandon?lo assim que chegasse
uma frota que se dirigisse para a Holanda.
Nos dias seguintes, Willem entregou?se  vida rotineira do
forte. Caou rinocerontes e abateu um hipoptamo. Dirigiu?se
com um ?grupo de homens at s proximidades da ilha de Robben,
onde mataram cerca de duas centenas de pinguins. E por mais
duas vezes Van Doorn chefiou um grupo que escalou a montanha
da Mesa.
Willem reviu Jack, mas desta vez em consequncia de uma
tragdia. Um grupo de seis marinheiros deslocara?se para norte
a fim de caar um rinoceronte ou um hipoptamo, pois qualquer
destes animais fornecia excelente carne. Como a terra que
exploravam era mais rida do que a rea situada a sul e a
leste, os homens tinham?se afastado demasiado, mas quando
regressaram eram apenas cinco.
??Fomos atacados pelos Hotentotes, e Van Loon foi morto por a
seta envenenada.??Os marinheiros traziam a seta, um objecto
notvel formado por trs seces ligadas entre si por
estreitos aros de ndo, concebido to engenhosamente que,
quando a ponta envenenada penetrava no corpo, permanecia nele
enquanto o resto da seta saltava.
??Ns tirmos?lhe a ponta??explicaram os homens??, e ele
sobreviveu trs dias, cada vez mais fraco, at que morreu.
Indignados, os oficiais juraram vingar?se dos Hotentotes.
Wilm, porm, recordou?se de uma informao que Jack Lhe
fornecera durante a sua estada na aldeia: Ns nunca caamos
no Norte.  a terra dos Sans. Van Doom neglignciara este
aviso, e agora um dos seus companheiros morrera. Decidiu
partir para leste para discutir essa morte com Jack, e levou a
seta consigo.
Assim que a viu, o hotentote afirmou:
??Sans. Os homens pequenos que vivem no mato. No devem ir
terra deles. ??Jack explicou a Willem o funcionamento da
a e declarou?lhe que tambm o seu povo receava esses indgenas
baixa estatura que no possuiam reses, nem carneiros, nem
alas.??So inimigos terrveis se vamos terra deles. Se ficamos
na nossa terra, deixam?nos em paz.??Era divertido para Willem
ouvir n hotentote referir?se aos inimigos como homens
pequenos, mas
:k convenceu?o de que os Sans eram de facto de estatura
consideravelmente inferior.
A Aliana

E assim foi evitada uma guerra aberta entre Hotentotes e
Holandeses, embora tambm no se falasse mais em permutas. Um
do, homens redigiu um relatrio no qual descrevia o Cabo como
uma regio inabitvel, provavelmente desprovida de qualquer
valor e incapaz de fornecer os abastecimentos de que as frotas
da Companhia necessitavam. Escreveu ele:

E prefervel continuarmos a aprovisionarmo?nos em Santa
Helena. De futuro no h qualquer razo para que os navios da
Companhia entrem nesta perigosa baa, uma vez que h trs
espcies de inimigos que ameaam qualquer colonizao: os
Vagabundos da Praia, os Hotentotes e esses selvagens de baixa
estatura que vivem no mato com as suas setas envenenadas.

Na altura em que este homem redigia o seu relatrio, um
oficial percorria o terreno cultivado da fortaleza e notava
que, com as sementes salvas do naufrgio da  aerlem, o seu
grupo de hortelo conseguira criar abboras, melancias,
couves, cenouras, nabos, cebolas e alhos. E os seus
carniceiros forneciam aos cozinheiros abundantes quantidades
de carne de cefo, punja, hipoptamo e pinguin da ilha de
Robben e carneiros roubados das pastagens dos Hotentotes.

No dia 16 de Setembro de 1647, a Pomba Branca, uma esplndida
galeota da Companhia, partira da Holanda com a inteno de
fazer a longa viagem de ida e volta at Java. Esta viagem
poderia prolongar?se por um prazo de dois anos, contando com o
tempo que podia ser gasto em deslocaes secundrias s ilhas
das Especiarias ou ao Japo. A Pomba Branca era uma galeota
pequena e rpida. comandada por um homem que, contrariamente a
muitos outros. considerava a higiene e a erradicao do
escorbuto to importante como uma boa navegao.
Quando o comandante chegou ao Cabo, em Janeiro de 1649, todos
os seus homens se conservavam sos graas ao sumo de limo 
couve de conserva. Depois de abastecer o seu navio de todos o
legumes e carne fresca disponvel, o holands nsiava por
prossegui
viagem at Java. Transmitiu ao pessoal do forte os
agradecimento. dos Dezassete, em especial pelo salvamento da
pimenta em gro.
??Ns apreciamos os agradecimentos??resmungou o oficial d
fortaleza??, mas quando  que samos daqui'?
??Quando a frota do Natal partir de Batvia, com certeza que o
1,  respondeu o comandante. Depois, perguntou se havia alguns
que quisessem regressar com ele a Java. Nenhum quis, m  eu
convite permaneceu no esprito de Willem.
   a  situao mudara. Ele j no se sentia dividido entre a
Holanda e i   Toda a sua ateno se concentrava agora
exclusivamente nula esto mais especfica: que poderia ele
fazer para garantir o seu regresso quele Cabo? Conclura que
o Cabo continha todos os
atn,      s de Java, acrescidos da realidade slida de um novo
conti?
nei,n     colonizar. O corao batia?lhe descompassadamente
quando como estabelecer ali um entreposto, conseguir um acordo
com os Hotentotes, explorar o mundo dos pequenos Sans
as  !      s e, acima de tudo, avanar para leste, para alm
dos mon?
te  .   cscuros que vira do topo da montanha da Mesa. Em
nenhum
outro lugar poderia servir Amsterdo e Batvia melhor do que
naquela zona que to profundamente o fascinava.
sentia?se dominado por uma confuso profunda enquanto a Branca
ultimava os preparativos da partida, pois no conseguia
decidir se devia ou no seguir com ela. Consultava sub?re
alci.!mente a Bblia encadernada a couro, tentando, como os
seus antepassados, descobrir quais os desgnios de Deus a seu
respeito. E umim: e,  luz bruxuleante de uma vela, leu uma
passagem que o elc. u, pois nela Deus ordenava ao Seu povo
escolhido que realizasse a misso especfica:

E Eu estabelecerei uma aliana entre Mim e ti . .. E
dar?te?ei, e
 tLol geraco depois de ti, a terra na qual s um estranho.
toda a
terra de Canaa, para uma posse eterna.

Deus oferecia aquela nova terra como sinal de aliana com o
Seu poVo escolhido, os Holandeses. Willem estava convencido de
que em breve os Dezassete em Amsterdo teriam de reconhecer a
responsabilidade que Deus Lhes colocava sobre os ombros.
Depois, ocuparei o Cabo, de acordo com os Seus desgnios??e
onde encontrar  homens que realizassem esse trabalho? Em Java,
evidentemente onde trabalhavam homens que conheciam aquelas
guas. Decidiu regressar rapidamente, a bordo da Pomba Branca,
para estar pronto quando a chamada viesse.
  a noite da vspera da partida, sentado no seu quarto, Van
pensava no processo de proteger a sua grande Bblia. Se a e?
i t para bordo, seria reconhecida como propriedade da Compa
A Aliana

nhia e confiscada; assim, pouco antes do amanhecer, quando
todo oforte estava silencioso, dirigiu?se apressadamente para
a montanha da Mesa, levando o seu tesouro. Tendo a Lua como
guia, descobriu uma cavema no fundo da qual escondeu a Bblia
sob um monee de pedras. A Bblia seria a sua magnetite, que o
faria voltar. Ao meio?dia, quando a Pomba Branca zarpou, ele
seguiu a bordo como passageiro.

No agradou a Mevrouw van Doom o regresso a Java do seu filho
mais novo. A viva receava que, devido a debilidade de
carcter, o rapaz tivesse decidido regressar apressadamente
para uma terra fcil que conhecia, em vez de se arriscar ao
clima glido e intelectual da Holanda.
Embora tivesse previsto as apreenses da me, Willem receava
parecer presunoso se Lhe apresentasse os seus verdadeiros
motivos: uma viso no topo de uma montanha, a amizade com um
selvagem chamado Jack, o ditame de uma Bblia enterrada. Sem
denunciar as suas intenes, comeou a redigir um longo
relatrio para os seus superiores em Batvia, na esperana de
que estes o enviassem ao Dezassete .
Intitulou?o Um Clculo Cauteloso, e nele apresentou a sua
avaliao sbria daquilo que os Holandeses poderiam conseguir
se instalassem uma base no Cabo da Boa Esperana. Estabeleceu
uma cuidadosa distino entre os Vagabundos da Praia, os
Hotentotes e os Bosqumanos e informou os negociantes que
dirigiam a Companhia das riquezas potnciais daquela nova
terra.

Todas as sementes que plantmos produziram bons legumes,
alguns maiores do que os que vemos na ptria. Marinheiros que
viram muitos pases afirmaram:   a comida mais agradvel que
jamais comi." Na minha viagem  aldeia nativa vi meles,
trepadeira  com uvas e outros frutos.

Compilou listas meticulosas dos produtos criados nas hortas da
Companhia, do nmero de cabeas de gado que os Hotentotes
possuam e das espcies de aves que era possvel caar na ilha
de Robben. Chamou a ateno para o facto de uma paragem no
Cabo para obter alimentos frescos ajudar a evitar a perda de
pelo menos mil vidas por ano devido ao escorbuto.
Calculou o nmero de navios que poderiam receber legumes fres?

64

cos no Cabo Aconselhou que se abandonasse a escala em Santa
Helena. prevenindo que, se os Holandeses se no retirassem
pacificamente. os Ingleses acabariam por os expulsar.
Foi um trabalho de mestre, prudente em todos os aspectos
importante .  o entanto, os funcionrios de Batvia no
revelaram qualquer interesse por um local to distante como o
Cabo, enquanto os Dez i sete consideraram uma ousadia que um
homem que pouco mais era que um marinheiro se imiscusse em
tais assuntos. rouw van Doom observava com desanimo o seu
filho mais novo (i c:ir numa rotina estpida como empregado de
jovens menos capazes e  que tinham sido educados na Holanda. A
vivacidade de Willenl .uruL_ou?se e os seus ombros comearam a
descair. O mais penoso da situao para sua mae era o facto de
ele comear a ser arrastado na rbita das poucas vivas
holandesas que permaneciam em Ban ia, que constituam um
grupo de mulheres gordas e lamentveis. No tardaria muito,
suspeitava a viva, que Willem casasse com uma ou outra.
Corria o ano de 1652. Mevrouw van Doom fazia os preparativos
para a sua festa do Ano Novo quando chegou um dia a Batvia a
notcia surpreendente de que fora fundado no Cabo da Boa
Esperana um posto de reabastecimento sob o comando de um
funcionrio da Companhia chamado Jan van Riebeeck. Willem, na
altura com vinte e seis anos, encontrava?se no jardim com sua
me quando ouviu a notcia; as mos comearam a tremer?lhe,
pois parecia?lhe que terminara um longo e rido perodo da sua
vida.
'  essa tarde, um ajudante?de?campo do governador?geral
procurou Willem.
??Van Doom??disse ele??, queramos saber se podeis recomendar
alguns homens para enviar para a nova colnia e colaborar na
rla  lO do novo posto.??Willem preparava?se para se oferecer
como voluntrio quando o ajudante?de?campo acrescentou:
??Homens mais novos, evidentemente, para os escales mais
baixos. Para os superiores escolhemos ns.
assim Willem van Doom, que j deixara de ser considerado ,.
ntcmente novo para um lugar aventuroso, dedicou?se  tarefa l
cionar o primeiro contingente de homens de Batvia para nova
colnia, que mais tarde seria chamada Kaapstad. Era tarefa
ingrata, pois nenhum dos homens desejava trocar o luxo
.( por aquela regio desrtica varrida pelos ventos. fez?se ao
mar e Willem foi deixado em terra; o homem


A Aliana

que mais estimulara a criao daquele novo posto era impedido
de nele participar. Passaram muitos meses, at que um dia
chegou uma mensagem: o comandante Van Riebeeck, do Cabo,
necessitava de alguns escravos de Java para utilizar na
cultura de legumes. () mesmo ajudante?de?campo que desiludira
as esperanas de Willem apresentava?lhe agora uma proposta
fascinante.
??Van Riebeeck est a comprar alguns escravos para o Cabo. Uma
vez que conheceis a terra, pensmos que podereis ser o homem
a tratar deste assunto.
Willem inclinou?se:
??Ser uma honra.??E, apenas o ajudante?de?campo se retirou.
correu para junto de sua me, gritando:??Vou para o Cabo.
??Quando???perguntou a me calmamente.
??Com a frota do Natal.
??To cedo!??Ela, que nsiara por ver chegar o dia em que o
seu filho anunciaria a sua partida para a Holanda, sentia?se
perturbada ao v?lo sentnciar?se para um lugar mais aviltante
que Java. Mas at o Cabo era prefervel  permanncia em Java
e a um eventual casamento com qualquer viva desprovida de
atractivos. Que fosse ento assim.
Na noite da partida, ela sentou?se com ele na sua espaosa de
recepo e disse?lhe:
??Quando pensares em mim, eu estarei aqui nesta casa. Nunca a
venderei. Se regressasse  Holanda, seria atormentada pela
recordao dos meus msicos a tocarem no jardim.
Mevrouw van Doorn parecia to completamente o epitome daqueles
duros holandeses que controlavam o Mundo??Java Brasil, a ilha
de Manhattan, a Formosa??que Willem sabia que ela no
necessitava de carinhos seus. Quando, porm, ela pegou na sua
Bblia holandesa e disse: Eu decorava passagens  noite,
quando possuir uma Bblia significava a morte s mos dos
Espanhis", ele sentiu?se dominado por um sentimento de amor e
confidenciou:
??Quando o nosso navio se fazia em pedaos, eu fui a bordo e
encontrei uma grande Bblia abandonada ao mar. E quando vi que
era igual  vossa, percebi que fora enviado para a salvar e
que, se a mostrasse a algum, me seria tirada. Por isso
enterrei?a numa caverna, e ela espera o meu regresso.
??Nunca ouvi razo melhor para se partir para algum
stio?declarou a me. E quando a frota do Natal partiu, no dia
20 de Dezembro de 1654, ela estava no cais para Lhe dizer
adeus.

FoRA acordado que os escravos destinados a Van Riebeeck no de
iam ser recrutados em Java, cujos nativos eram intratveis,
mas em Malaca, onde os submissos Malaios se ajustavam mais
facilmente  servido. Assim, o navio em que Willem seguia
ancorou naquele porto e ele foi a terra informar o comandante
do forte de que era:n requeridos quatro escravos. Um peloto
de soldados embrenhou?se nas florestas situadas por detrs da
cidade e regressou pouco tempo depois com dois homens de pele
bronzeada e duas mulheres. Antes do anoitecer, o navio de
Willem alcanara a frota e a longa viagem para o Cabo
iniciara?se.
Uma das escravas era uma jovem de nome Ateh. de dezassete anos
de idade, com a tez bronzeada da maioria das mulheres malaias
e de uma extrema beleza, que amuou quando os marinheiros a
confinaram  com os outros, numa seco gradeada sob o convs e
protestou quando os alimentos Lhes foram atirados. Exigiu gua
para se lavar e os marinheiros ouviram?na ordenar aos outros
que se comportassem devidamente. E havia sempre um momento do
dia, por mais sombrio que este tivesse sido, em que ela
cantava. Eram canes sem grande significado, divagaes de
crianas e de jovens apaixonadas. mas o poro escuro era menos
ttrico quando ela cantava.
A meio da viagem at o comandante reparara em Ateh, e foi ele
quem Lhe deu o nome pelo qual ela seria mais tarde conhecida.
??Ateh  pago, tens de ter um nome cristo. ??Folheando a
Bblia e cingindo?se ao Antigo Testamento, como era hbito dos
velhos calvinistas holandeses, encontrou uma passagem lrica
no Livro dos Juzes que parecia predestinada quela jovem:
Acorda, acorda, Dborah! Acorda, acorda, canta uma canso.
??Proftico!??exclamou ele, fechando reverentemente o livro.
??O nome dela ser Dborah.??E. a partir de ento, assim ela
foi chamada .
Era da responsabilidade de Willem manter os escravos vivos se
possvel, pois era habitual naquelas guas morrerem trinta por
cento em cada viagem. Consequentemente, Van Doorn descia
muitas vezes ao poro para se certificar de que eles estavam a
ser bem tratados, o que o levou a trocar frequentemente
impresses com Dborah. Esta,
que permanecia geralmente sentada a um canto, lamentando a sua
triste sorte, quando o via aproximar?se avanava at junto das
grades e comeava a cantar.
Por essa altura, a frota chegara  zona do oceano Indico em
que as temperaturas eram mais elevadas, e os escravos sofriam
com o
calor trrido. Faltavam alimentos, gua e ar, e um dia,  hora
de maior calor, Willem viu Dborah num estado de
semiprostrao Abriu a porta do gradeamento e transportou a
rapariga para fora onde o ar era mais fresco, ajoelhando a seu
lado enquanto ela voltava lentamente a si.
A leveza do corpo da jovem surpreendera?o; e ao contemplar?lhe
o rosto nas sombras do poro sentiu?se cativado pela perfeio
dos seus traos, pelos seus malares salientes, permanecendo
longamente com ela. Quando ela voltou a si, ele descobriu que
ela sabia falar a lngua nativa de Java??encantou?o ouvir a
sua voz suave e balbuciante??e comeou a gostar da voz dela,
quer cantasse, quer falasse.
Quase todos os dias pretextava uma desculpa para a soltar da
sua priso. Esta discriminao irritou tanto os marinheiros
holandeses como os outros escravos. Uma noite, terminado o
perodo de liberdade, ele sugeriu?lhe que no voltasse para a
priso e que ficasse com ele. Permaneceram juntos toda essa
longa e hmida noite, com as estrelas a danar na ponta do
mastro, e a partir desse dia todos souberam que eles se tinham
tornado amantes.
Dzias de holandeses que trabalhavam em Java tinham amantes.
Porm, o comandante, que recebera instrues de Mevrouw van
Doorn no sentido de olhar pelo filho, quando viu Willem levar
a srio a jovem escrava e soube que ele a mantinha no seu
quarto sentiu?se obrigado a avis?lo, como um pai o taria. Uma
manha, o velho comandante convocou?o ao seu camarote.
??Mr. Willem, fui informado de que a malaia vos deu volta
cabea.
??Penso que no, Sr. Comandante.
??Mr. Willem, lestes recentemente o Livro do
Gnesis???perguntou o comandante, abrindo a Bblia e lendo em
voz tonitruante o juramento imposto por Abrao a seu filho
Isaac, que nsiava por uma mulher.

E eufar?te?ei jurar pelo Senhor, Deus do cu e Deus da terra
que no tomars uma esposa ... entre as filhas dos Cananeus
..
Mas irs ao meu pas. e aos meus parentes, e tomars uma mu
lher.

No obstante Willem garantir ao comandante que a sua
ligaocom a escrava malaia no era sria, este no se deixou
desviar da sua linha de pensamento.

??Tem sido sempre o problema em Java, e em breve se tornar o
problema do Cabo. Onde  que um cavalheiro holands pode
arranjar uma mulher?
??Onde???repetiu Willem num eco.
??Sede paciente. No vos atireis s mulheres locais como o
fazem esses idiotas em Java. Nem a escravas??continuou,
apontando para baixo em direco ao poro.
??E devo esperar perpetuamente?
??No, porque quando desembarcardes com os vossos escravos no
Cabo esta frota prossegue viagem para a Holanda. E quando
chegarmos a Amsterdo, eu pedirei ao vosso irmo Karel para
vos arranjar uma mulher entre as holandesas. E tr?la?ei
quando voltar.
a visita ao comandante nada alterou. Willem continuou a manter
Dbora no seu alojamento e, tal como a Dborah original, ela
contimuou a cantar, insinuando?se cada vez mais no seu
corao.
aproximava?se o litoral da frica Oriental. Finalmente, uma
manh  o vigia gritou: Montanha da Mesab , e toda a
tripulao se voltou para contemplar o maravilhoso
espectculo.
Willem sentia?se emocionado. Tinham decorrido anos desde que
vira pela ltima vez a grande montanha de cume plano, e
imaginava as grandes mudanas que deviam ter ocorrido na sua
base. Reflectia Sobre elas quando Dborah veio colocar?se a
seu lado. Pousou a mo no seu brao e disse:
.  ??Vamos ter um beb.
Nesse momento, a montanha, a caverna  sua espera e o futuro
indiscernvel confundiram?se numa espcie de neblina dourada e
ele no conseguiu sequer comear a pensar no que devia fazer.
Quando foi levado para terra num barco a remos, Willem
encontrou uma colnia de propores consideravelmente menores
do que esperara: apenas cento e vinte e duas?pessoas habitavam
o local. Havia um pequeno forte com muralhas de adobe, no
interior das quais se amontoavam confusamente toscas
habitaes. Mas que local! Em  647, quando os marinheiros
naufragados haviam vivido na praia, o
meu quartel?general situava?se quinze quilmetros para norte,
e Wils  distncia pudera ver o delicioso vale no sop da
montanha
Mesa; agora encontrava?se  beira dessa frtil terra,
protegida por montanhas em trs dos seus lados, e acreditou
que, quando se instalassem
 no local colonos em nmero suficiente, ela se transformaria
numa das mais belas cidades do Mundo.
foi saudado pelo comandante Jan van Riebeeck, um homem
enrgico de baixa estatura de perto de quarenta anos que usava
umgrande bigode. Quando tinham decidido aproveitar o Cabo, os
Dezassete haviam transmitido a Van Riebeeck estas simples
instrues: Estabelecei um posto de reabastecimento que
satisfaa as necessidades dos nossos navios, mas fazei?o sem
custos para a Companhia! Essa norma, que iria vigorar nos
cento e cinquenta anos seguintes determinaria o tipo de
desenvolvimento da terra: o objectivo a atingir seria sempre a
realizao de uma operao mercantil, nunca a criao de uma
colnia livre. A norma em questo j explicava o que Willem
viu na curta caminhada at ao forte na companhia de Van
Riebeeck mas o jovem teve o bom?senso de no mencionar as suas
observaes. Isto  muito melhor do que Batvia", pensou ele,
mas onde esto as pessoas? E a terra atrs daqueles montes!
Aposto que ainda no foi sequer explorada.
??Vi o vosso irmo Karel em Amsterdo ??disse Van Riebeeck .
??Como est ele?
??Casado com uma jovem maravilhosa. A filha de Cles
Danckaerts.  muito rica.
??Sinto?me feliz por ele??declarou Willem. Na realidade, ele
mal recordava o irmo, e no podia de modo algum imaginar at
que ponto Karel mudara em oito anos desde que deixara os
destroos da Haerlem para seguir para a Holanda. Daquilo que o
comandante dizia, depreendia que ele devia estar a prosperar.
Willem mudou de assunto.
??Haver em breve mais pessoas aqui???perguntou.
Van Riebeeck deteve?se abruptamente, voltou?se e falou
sombriamente:
??Tendes de compreender uma coisa, Van Doom. Isto  um
entreposto comercial, no um Estado livre. Estamos aqui para
auxiliar a Companhia, e s aumentaremos a colnia quando ela
nos ordenar que o faamos. Enquanto vos permitirmos que
permaneais em terra, trabalhareis para a Companhia e
obedecer?lhe?eis.
Nas horas seguintes, Willem aprendeu a sua lio. Foi?lhe
indicado onde colocar a sua mala, onde fazer a cama, onde
comer e onde trabalhar. Verificou que um agricultor podia
cultivar uma leira de terra, mas nunca possu?la, e que tudo
quanto cultivava devia dar lucro  Companhia. E o mais grave
era que a reduzida colnia sofria o jugo de dois senhores
diferentes: de Amsterdo os Dezassete enunciavam os grandes
princpios, mas de Java vinham as ordens verdadeiras. O
governador?geral de Batvia era um imperador; o comandante do
Cabo apenas um funcionrio distante.
Trs dias depois, Van Riebeeck convocou Willem ao forte e
informou?o da misso que a Companhia Lhe destinara.
??O nosso objectivo  a vinha??declarou?lhe. Percebendo a
perplexidade de Van Doorn, o comandante tomou?o pelo brao,
conduziu?o at ao parapeito de uma janela da qual se viam os
vales que se estendiam junto ao sop da montanha da Mesa e
disse?lhe com grande entusiasmo:??Este solo pode produzir o
que quer que seja. Mas s vezes as nossas tentativas fracassam
por falta de conhecimentos. ??Retraiu?se  lembrana de um
malogro recente. ??Desde o princpio que eu quis uvas. Em vez
de estacas de vinha trouxe comigo sementes, mas o nosso
jardineiro plantou?as como se fossem de trigo. Lanou?as 
terra, lavrou?a e seis meses depois coLheu ervas inteis e
daninhas.
??Como devem ser cultivadas?
??Cada p de vinha deve ser plantado separadamente. Depois,
fazem?se podas. ??Pacientemente, Van Riebeeck explicou todo o
intrincado processo atravs do qual minsculos ps importados
da Europa se transformavam finalmente em barris de vinho a
enviar para Java.
??E porque vos preocupais com a vinha???perguntou Willem,
sabendo que a fruta e os legumes se desenvolviam bem.
??Java est a pedir?nos vinho??respondeu o comandante
asperamente. Conduzindo Willem de novo para o seu tosco
gabinete, apontou para um grande mapa que assinalava a rota de
navegao entre Amsterdo e Batvia.??Todos os navios que
passam por estas guas querem vinho. Mas o vinho da Holanda
estraga?se durante a viagem e chega?nos transformado em
vinagre. A vossa tarefa  produzir vinho aqui.
. Assim, Willem van Doorn, na altura com trinta anos de idade,
recebeu um pedao de terra pertencente  Companhia e nove
cestos cheios de pequenos ps de vinha importados do Reno.
. ??Produzi vinho??ordenou?lhe Van Riebeeck peremptoriamente.
Para um homem que nunca o fizera, produzir vinho apresentava
dificuldades, mas Van Riebeeck ensinou a Willem como plantar
as ciosas vinhas, prend?las com fios a estacas e como
pod?las
quando necessrio. Willem obteve conhecimentos sobre
fertilizantes e irrigao, e aprendeu sobretudo a conhecer os
ventos de sueste que sopravam incessantemente em algumas
estaes, transformando as terras altas da montanha numa
sepultura para plantas em crescimento.
Compreendeu que Lhe fora atribuda uma misso no compensadora
e com grandes probabilidades de malogro, mas que Lhe concedia
uma vantagem que ele tinha em grande conta: todos os outros
habitantes do Cabo viviam no interior das muralhas da
fortaleza, em alojamentos desagradveis e apertados, enquanto
ele gozava da liberdade de viver na sua prpria cabana, ao
lado das suas vinhas.
Mas a sua liberdade acentuava a escravido em que vivia
Dborah. Muitas vezes  noite, quando queria estar com ela,
ele estava na cabana e ela no forte, fechada na cadeia. Van
Riebeeck notara que ela estava grvida, mas esse facto no o
perturbou, pois, como qualquer prudente possuidor de escravos,
contava com o seu aumento natural. E, uma vez que Dborah se
revelava o mais esperto dos seus escravos, ele presumia que os
seus filhos seriam valiosos. Desagradava?lhe, porm, saber que
o pai do nascituro era Van Doorn. Chamou Willem ao seu
gabinete.
??Ns precisamos de mulheres??disse a Willem.??Mas mulheres
holandesas respeitveis, no escravas.
??Deborah  uma ptima pessoa.
??J percebi isso. Mas  malaia. E muulmana. E a Bblia diz .
. .
??Eu sei. O comandante leu?me essa passagem. No tomars uma
esposa ... entre as filhas dos Cananeus ... Mas irs ao meu
pas ... e tomars uma mulher.
??Excelente conselho.??Van Riebeeck ergueu?se da sua
secretria e durante alguns momentos percorreu o aposento a
passos largos. Depois, erguendo as mos ao cu,
perguntou:??Mas que havemos ns de fazer? Na ltima contagem
verificmos que tnhamos aqui cento e catorze homens e s nove
mulheres. Nove mulheres brancas, quero eu dizer. Que h?de um
homem fazer?
O seu desejo era proibir Van Doom de visitar a escrava, mas
sabia que exigir semelhante promessa dele naquelas instalaes
no seria sensato. Em vez disso, avisou?o:
??Afastai do vosso esprito a ideia de casamento, Van Doorn. O
que acontece em Batvia no ser encorajado aqui. A criana
ser um bastardo e um escravo da Companhia.
Willem, suspeitando de que a norma que nessa altura vigorava
como lei sofreria mais tarde alteraes, curvou?se sem
pronunciar uma palavra. Mas sentia um desejo intenso de tomar
Dborah sua

72

mulher. embora a sua experincia em Java Lhe tivesse
demonstrado que esse gnero de casamentos redundava
frequentemente em fracasso. Tambm sabia de excepcionais
casamentos mistos em que mulheres javanesas haviam criado
lares calmos e felizes, nos quais os maridos renunciavam a
todos os sonhos de jamais regressarem  sociedade mais severa
da Holanda.
Para sua surpresa, Dborah no parecia preocupar?se com o
futuro, como se j Lhe bastasse o problema da gravidez. O seu
rosto belo e plcido no revelava sinais de ansiedade. e
quando ele abordava questes relacionadas com a sua situao
ela sorria.
??Estou destinada a ser uma escrava. Nunca mais volto a ver a
minha aldeia??dizia ela. E ele supunha que aquela era uma
reaco honesta. que ela no apreciava a liberdade tanto como
ele.
??? Quero cuidar de ti??afirmava ele.
?? Algum o far??respondia ela. E quando a emoo dele se
avivava. induzindo?o a rapt?la do forte, ela ria, declarando
que, quando chegasse a altura, o comandante Van Riebeeck Lhe
arranjaria um homem.
??Serei eu esse homem.
? Talvez vs, talvez outro.
A medida que se aproximava a altura do nascimento da criana
Willem visitava Dborah to frequentemente quanto possvel.
Por vezes, ela acompanhava?o at  vinha. Estava habituada a
culturas e um dia disse?lhe:
??Willem, estas vinhas esto a morrer.
??Porqu? Porque  que morrem?
??As filas esto dispostas na direco errada. O vento
bate?lhes com demasiada fora.??E mostrou?lhe como, se
plantasse as vinhas na mesma direco em que os ventos
sopravam, e no perpendiCularmente a eles, s as primeiras
plantas seriam afectadas, ao mesmo tempo que todas as vinhas
ficariam uniformemente expostas ao sol.
Dborah estava na vinha um dia em que Van Riebeeck veio
inspeccionar as vinhas alemas; tambm ele notou que as plantas
estavam a morrer.
no  daqui que vamos ter vinho??observou o comandante
sombriamente. Mas assegurou a Willem que outros ps de vinha
estavam a caminho, importados de Frana. Estava decidido a
produzir
n  a a Companhia a todo o custo.
; a do parto de Dborah, Willem sentia?se emocionado pela
 n  a da paternidade iminente, facto que teve um efeito
inespe?

7
A Aliana

rado. Quis recuperar a sua Bblia a fim de nela registar o
nascimento do filho, como se atravs desse gesto pudesse
confirmar a presena dos Van Doom em frica. Consequentemente,
na tarde seguinte ao nascimento do seu filho Adam dirigiu?se 
velha caverna e recuperou a Bblia.
Alguns dias mais tarde, o comandante Van Riebeeck apareceu na
vinha. No fez qualquer referncia ao nascimento do rapaz, mas
pediu a ajuda de Willem num difcil problema.
?? esse hotentote, Jack. Disseram?me que o conheceis.
??Jack! ??exclamou Willem com evidente ternura. ??Onde est
ele?
??Onde est de facto???E o comandante desfiou uma histria de
fraudes, vacas roubadas, promessas feitas mas nunca cumprida i
e suspeita conivncia com os temveis Bosqumanos, que se
haviam deslocado para o Sul atrados pelos carneiros e vacas
da Companhia.
??Tenho a certeza de que posso falar com Jack??afirmou U
illem.
O comandante ignorou?o.
??Quando chegmos, fizemos um acordo segundo o qual ele
serviria como nosso intrprete em troca de ferramentas e
outros objectos de metal. Mas ele era como um fantasma ao
lusco?fusco. Tanto estava aqui como no momento seguinte tinha
desaparecido. E era totalmente desprovido de qualquer sentido
de propriedade. Aquilo que via tirava. E agora no conseguimos
encontr?lo.
??Eu consigo.
Ao ouvir esta proposta confiante, o comandante replicou:
??Deveis ser cauteloso. J houve mortes, no sei se sabeis.
??Os nossos homens mataram hotentotes???perguntou Willem,
estupefacto .
??Houve provocaes. E outro soldado foi morto. Era este
gnero de coisas que Jack devia impedir.
??Eu vou falar?lhe??declarou Willem abruptamente.
Assim, Van Riebeeck arranjou trs atiradores de confiana para
acompanharem Van Doom numa explorao pelas aldeias que Jack e
o seu povo tinham ocupado quando a Haerlem se afundara.
Willem recusou os atiradores.
??No irei com um exrcito??declarou.
Foi esse o comeo das suas dificuldades com a Companhia. As
hierarquias superiores recusavam?se a admitir que um holands
sem proteco se atrevesse a penetrar no interior ou que
sobrevivesse caso

74

o tivesse, mas Willem estava to seguro de que encontraria
Jack e aplainaria as divergncias com ele que insistiu. No
final da discusso, foi?lhe ordenado que aceitasse os trs
atiradores, ao que ele se resignou ps violentos protestos.
  illcm tivera razo. Quando detectaram os homens armados que
se aproximavam, os Hotentotes refugiaram?se nos montes,
levando carros e bois  sua frente. Nos nove dias de buscas,
Van Doom no encontrou um nico hotentote; quando, porm, os
quatro homens iniciaram a jornada de regresso, um dos
atiradores observou: Acho que estamos a ser seguidos.
?? Tem de ser Jack??afirmou Willem. E quando chegaram a um:Z
e!i ?ao da qual se via a colnia do Cabo, o ponto em que um
inimigo prudente retrocederia, disse aos trs atiradores:??Sei
que  O meu amigo. Vou ter com ele.
esta deciso provocou violentos protestos, mas ele mostrou?se.
 IreI sem armas, para que ele possa ver quem .??E partiu, as
mos lateralmente cadas ao longo do corpo, dirigindo se
directamente para um pequeno montculo atrs do qual sabia que
o observador aguardava. ??Jack!??chamou em ingls. ??Sou eu.
Willem van Doorn.
lentamente, uma forma humana emergiu por detrs do montculo
sem qualquer arma e envergando um fato de marinheiro ingls.
Durante alguns momentos os dois homens entreolharam?se sem
pronunciarem uma palavra. Depois, Van Doom avanou e Jack
precipitou?se para ele.
Os dois velhos amigos abraaram?se; em seguida, sentaram?se
SObre uma pedra para falarem. Willem perguntou:
? Como  que comearam a acontecer esses desagradveis
incidentes?
era muito difcil explicar. De ambos os lados houvera
promessas que no tinham sido cumpridas, ameaas que nunca
deviam ter sido
prot`eridas e mal?entendidos insignificantes que se haviam
avolumado at gerarem conflitos. Houvera mortes; haveria mais,
e qualquer possibilidade de reconciliao parecia perdida.
??No acredito??declarou Willem. O seu afecto pela escrava
Dborah intensificara a convico das suas atitudes,
facilitando?lhe encarar aquele hotentote como um aliado.??Ns,
Holandeses, vamoS ficar aqui, Jack. Para sempre. Mais tarde
viro muitos mais dos nOSSOS. Teremos de viver sempre como
inimigos?

75
A Aliana

??Sim. Vocs roubam o nosso gado.
??Disseram?me que tu roubas as nossas ferramentas. E os nossos
carneiros europeus.??E havia ainda outra acusao, to grave
que Willem tinha de a explorar. ??Vocs mataram o soldado
branco?
??Foram os Sans??respondeu Jack, indicando por sinais a seta
tripartida dos Bosqumanos.
??No queres vir at ao forte comigo, por favor???pediu
Willem.
??No.
Aps uma despedida penosa entre o pequeno indgena de tez
acastanhada e o branco de elevada estatura, Willem regressou
ao local onde era aguardado pelos trs atiradores.

NUMA bela manha de Fevereiro de 1657, nove atiradores e
marinheiros reuniram?se  porta do gabinete de Van Riebeeck, e
todos os habitantes do forte interromperam as suas tarefas e
se aproximaram para ouvir uma comunicao que iria alterar a
histria de frica:

Suas Excelncias em Amsterdo, os Dezassete, desejando sempre
proceder de acordo com os interesses da Companhia,
graciosamente decidiram que vs, os nove, podeis receber
campos para l
da montanha da Mesa e cultiv?los sob a vossa orientao, mas
que
no vos podeis afastar do forte mais do que oito quilmetros.
Willem van Doorn ouviu com inveja as condies impostas pelos
senhores, enunciadas por Van Riebeeck. Os homens libertos
receberiam tanta terra quanta pudessem arar, desbravar ou de
qualquer outra forma preparar no prazo de trs anos. As suas
colheitas seriam adquiridas pela Companhia a preos fixados
pela mesma. Podiam pescar nos rios, mas s para seu prprio
consumo. Estavam proibidos de comprar bois ou carneiros aos
Hotentotes; deviam comprar  Companhia, a quem devia ser
entregue uma dcima parte dos seus vitelos e cordeiros. E
seguiam?se outras normas igualmente pormenorizadas, bem como
castigos:??Se quebrarem alguma regra, tudo quanto possurem
ser confiscado.
Os homens assentiram, e Van Riebeeck concluiu:
??Deveis sempre recordar que os Senhores Dezassete vos esto
dando esta terra, no para vos conceder um favor, mas na
esperana de que consigais lucro para a Companhia.

76

Ao ouvir as restries, Willem murmurou para consigo prprio:
HEI? diz que so livres, mas segundo as regras no o so.
 querendo solenizar aquele significativo momento, Van Riebeeck
pediu aos homens para inclinarem as cabeas.
Sob o olhar atento de Deus, sois agora burgueses
livres?dechnxul. E, para santificar este estado, leu da Bblia
aquela gloriosa cur. iml ao da aliana de Deus com o povo
escolhido que tanto exci  l a i illem:

 ? ( u df fr?te?ei  e  tua geraf a?o depois de li, a terra na
qual s
f!  , ranllo, toda a terra de Canaa, f7ara uma t osse eterna.

( "nl aquela b_no, os nove homens tomaram?se os primeiros
blan  hvres na frica Austral, os progenitores de qualquer
nao que sub equentemente viesse a desenvolver?se.
Subitamente, o silncio foi quebrado com aclamaes ao
comandante, aps o que os homens libertos partiram para
demarcar as suas futuras herdades. Um hotentote que observara
a cerimnia esgueirou?se nessa tarde a fim de comunicar ao seu
povo:??Est:30 a ocupar a nossa terra.
A alegria com que os nove cidados livres tinham ovacionado a
sua hi.elt.lo foi de curta durao, Tpois durante o primeiro
ano de est`or x)5 exaustivos ficaram a conhecer o modo como a
Companhia interpretava a noo de liberdade. Dois dos mais
aventurosos, alarmados pelo aumento das suas dvidas nos
armazns da Companhia, comearam a negociar clandestinamente
com os Hotentotes dentes de elefante. chifres de rinoceronte e
plumas de avestruz. Por esse acto foram severamente
castigados, mas Van Riebeeck concordou relutantemente em que
podiam negociar com vacas se nunca pagassem mais do que a
companhia pagava.
de noite, OS cidados resmungavam nas suas toscas choupanas.
?? isto a liberdade???perguntou um lavrador a Willem, que o
v;  a. ??Somos camponeses, trabalhamos oito dias por semana.
Hotentotes esto em melhor situao??observou outro.
! n  .Is suas manadas e toda aquela terra alm. Ns somos
livres para sermos escravos.
As relaes com os Hotentotes tinham?se deteriorado. Poucos
tra  n .Ulimais para serem trocados; quase nenhum queria
trabalhar para cidados burgueses. A maior parte mantinha os
rebanhos nas proximidades da colnia, observando sombriamente
o gado dos Holandeses que invadia os seus domnios.
A Aliana

??Em Java nenhum homem trabalharia assim??queixou?se um
burgus.??Acho que me vou esconder no primeiro navio que
partir para a Holanda.
E foi precisamente o que vrios fizeram, pelo que passou a
haver guardas em todos os barcos que fundeavam na baa da
Mesa.

UMA manha, corria o ano de 1658, o vigia que se encontrava no
topo do forte acordou todos aos gritos de: Navio  vista!
Era um navio holands cujo comandante desembarcou com notcias
que encantaram Van Riebeeck.
??Ao largo de Angola??anunciou ele??encontrmos um navio
mercante portugus que se dirigia para o Brasil. Aps um curto
combate, capturmo?lo. A sua carga inclua apenas algum ouro e
prata, mas dzias de ptimos escravos.
Van Riebeeck no acreditava no que ouvia. Durante anos
implorara aos seus superiores em Java que Lhe enviassem
escravos para trabalhar no Cabo, e agora o comandante
dizia?lhe: Encontrmos duzentos e cinquenta na nau
portuguesa, mas setenta e seis morreram nos nossos pores.
Quando os virdes, comandante, h um latago que havereis de
querer para o vosso servio.
Quando a chalupa do navio que foi buscar os escravos
regressou, de p  proa, fortemente algemado, vinha o primeiro
negro fricano que Willem e os companheiros jamais haviam
visto; todos os outros escravos tinham sido comprados em
Madagscar, India ou Malsia.
Esse negro, alto e de ombros largos, tinha um porte nobre.
Apenas o viu, Van Riebeeck decidiu confiar?lhe uma misso
importante. Ele parecia destinado a ser o chefe dos milhares
de futuros escravos que em breve viriam para a comunidade.
??Como se chama ele???perguntou Van Riebeeck.
??Jango??respondeu um marinheiro.
Van Riebeeck ordenou, no dialecto portugus usado por todos os
que trabalhavam nos mares orientais:
??Jango, vem comigo.
E quando o gigantesco negro, arrastando as correntes, seguiu o
comandante em direco ao forte, Willem pensou com um
sentimento de admirao: E majestoso!
Durante os dias que se seguiram o comandante Van Riebeeck
esteve ocupado a destinar tarefas aos seus novos escravos,
reservando onze dos melhores para o servio pessoal de sua
mulher. Com a chegada de todos aqueles negros, considerou
aconselhvel definir a situao dos escravos que j se
encontravam no Cabo. Chamou Willem ao seu gabinete e
perguntou?lhe:
. ??Van Doom, que vamos fazer a respeito dessa rapariga,
Dborah?
??Leopold van Valck deseja casar com a sua rapariga malaia, e
eu quero casar com Dborah.
??Seria uma atitude altamente desaconselhvel. Sois o irmo de
i um importante funcionrio da Companhia.
??Ela vai ter outro filho.
??Diabos! ??O comandante percorreu o aposento de um extremo ao
outro.??Porque no haveis vs, homens, de saber
controlar?vos'???Como trouxera consigo a mulher, Van Riebeeck
no sentia
a falta de companhia feminina. Acreditava que homens como Van
Drn e Van Valck deviam esperar pacientemente at alguma
holandesa considerada conveniente chegar da Holanda, mesmo que
tal pudessse demorar nove ou dez anos.
??Tenho trinta e trs anos??observou Willem.??E acho que vou
casar?me agora.
??E casareis??afirmou Van Riebeeck. E retirou de uma gaveta a
secretria a cpia de uma carta que enviara cerca de dez meses
tes aos Dezassete, em Amsterdo, pedindo?lhes que arranjassem
P,te robustas holandesas que viessem para o Sul no prximo
navio. 3rnecera os nomes dos pretendentes a maridos, e 
cabea da lista gurava: Willem van Doom, idade trinta e dois,
nascido em Java, rmo de Karel van Doom, desta Companhia, de
confiana, saud1, vinhateiro no Cabo.
??Portanto, penso que a vossa mulher vem a caminho??disse o
mandante.
??Eu preferia casar com Deborah??redarguiu Willem com aquela
frontalidade que caracterizava tudo quanto fazia. E quando an
Riebeeck observou que seria altamente ofensivo para qualquer
mulher crista holandesa ser enviada para to longe e depois
preterida por uma escrava muulmana, Willem declarou:??Mas eu
estou praticamente casado com Dborah.
Van Riebeeck ergueu?se com firmeza, dirigiu?se  janela e
apontou para baixo, em direco ao ptio da fortaleza.
??O cavalo??disse.
??No vejo nenhum cavalo??disse Willem num tom expressamente
irritante.
??O cavalo de pau!??gritou Van Riebeeck.
A Aliana

L estava ele, um cavalo de pau do gnero do que os
carpinteiros usavam para serrar, mas colocado sobre pernas to
altas que no era possvel utiliz?lo em trabalhos de
carpintaria. Willem ouvira falar com frequncia daquele cruel
instrumento.
Batendo as mos, o comandante transmitiu as suas instrues um
criado:
??Diz ao capito que comece.
E l em baixo, um prisioneiro que transgredira qualquer regra
aa Companhia foi conduzido em direco ao cavalo. Ligaram?lhe
a cada um dos tornozelos um saco com gros de chumbo. Em
seguida, iaram?no, abriram?lhe as pernas e deixaram?no cair
sobre o cavalo. A velocidade da queda do corpo do homem,
acrescida do peso do chumbo que bamboleava suspenso dos seus
tornozelos, foi de uma violncia tal que o corpo da vtima
quase se partiu a meio, e o transgressor soltou um grito
lancinante.
??Deixem?no ficar a dois dias??ordenou Van Riebeeck  sua
ordenana. E em seguida voltou?se para Willem. ?? assim que
castigamos os trabalhadores que desobedecem s ordens da
Companhia. Willem, estou a ordenar?vos que caseis com a jovem
que mandei vir.
Van Doorn ficou sem fala ante o horror do sucedido; mais
tarde, porm, quando os guardas dormiam, rastejou at  zona
do castigo deu de beber ao prisioneiro e soergueu?o
ligeiramente da cruel madeira, sustendo?o nos seus braos
durante a noite. Quando o Sol raiou, o homem desmaiou, e
manteve?se inconsciente at ao anoitecer. Nessa noite, foi
colocado um soldado de guarda  vtima, pelo que Van Doom foi
impedido de Lhe prestar qualquer auxlio.
Depois de reflectir alguns dias no problema de Willem e
Dborah, Van Riebeeck encontrou finalmente uma soluo que
deixou Van Doorn horrorizado. O comandante mandou colocar
Jango na cama ao lado da de Dborah.
??Vo ver?se um ao outro dias seguidos, e eu deixo de ter
problemas com Van Doom??disse Van Riebeeck.
Porm, aproveitando um momento de distraco dos guardas,
Willem penetrou nos alojamentos dos escravos, situados sob o
celeiro, sentou?se junto de Dborah, do pequeno Adam e de
Jango e, em portugus mal falado, os trs adultos discutiram a
sua situao. Jango ouviu e depois disse:
??Eu compreendo. O teu novo filho, quando vier. Eu cuido.
Willem apertou?lhe a mo e depois acrescentou:

??Jango, no faas nada que aborrea os oficiais.??E enquanto
prevenia Jango acerca do cavalo e de outros castigos aplicados
a rebeldes, Dborah murmurava uma cano de embalar, como se o
seu beb j tivesse nascido.
Finalmente, Willem declarou com uma f que impressionou Jango:
??Quando o predikant chegar com a frota, sei que conseguirei
autorizao para casar com Dborah. Jango, protege?a at eu o
fazer. _ O gigantesco negro agitou as correntes e assentiu.
No eram apenas os escravos que criavam problemas a Van
Riebeeck. Tambm os Hotentotes no Lhe concediam descanso, um
dia sorridentes e amigveis, no dia seguinte sombrios e
conflituosos. E quando um empreendedor nativo de tez escura se
introduziu nas instalaes da Companhia e roubou um carneiro
do redil, os temperamentos inflamaram?se de ambos os lados.
Roubou?se gado bovino, rremessaram?se zagaias e dispararam?se
mosquetes. E a situao agravou?se quando muitos dos novos
escravos fugiram, causando um enorme prejuzo  Companhia.
No ltimo recontro foram mortos quatro homens, e finalmente
prevaleceu a razo. Mensageiros hotentotes dirigiram?se ao
forte e pediram para falar a Van Doorn. Este foi finalmente
encontrado a brincar com o filho.
?? essa a gente desse gatuno do Jack???perguntou o comandante
a Willem, apontando para o local onde se encontravam os
Hotentotes empunhando uma bandeira branca.
??No vejo o Jack??disse Willem.
??Vamos l conversar??disse Van Riebeeck.??Ide busc?los.
E assim, Willem, desarmado, saiu do forte e foi ter com os
Hotentotes.
??Digam a Jack que me venha falar.
??Ele quer saber se  seguro.
??Claro que .
Quando Jack recebeu o salvo?conduto, lembrou?se de Java e da
naneira como agiam os homens importantes. Envergando o seu
destado fato de marinheiro e montando o seu melhor boi, enfiou
o seu chapu de penas na cabea e dirigiu?se para o forte.
As negociaes de paz, como Van Riebeeck designaria
pomposamente as conversaes com os Hotentotes no relatrio
que enviou aos Dezassete, foram prolongadas.
??Levaram toda a nossa melhor terra??disse Jack.
??S tommos aquilo de que precisvamos.
A Aliana

??Se eu fosse  vossa casa, na Holanda, podia fazer o mesmo
Van Riebeeck ignorou esta pergunta.
??Porque  que no nos trazem os nossos escravos quando eles
fogem?
??Ns cuidamos de gado, no de pessoas.
??Ento porque  que roubam o nosso gado?
Jack respondeu:
??Precisamos de comida. Costumvamos vir a este vale apanhar
ameixas.
??Podem encontrar outras ameixas.
??Esto muito longe.
E a discusso prosseguiu nestes termos, at Van Riebeeck dizer
com voz cansada:
??Vamos escrever um papel garantindo que os deixaremos sempre
em paz.
Nessa noite, o comandante sentou?se sozinho em frente do seu
dirio. Tal como fizera todos os dias desde a sua chegada ao
Cabo
escreveu uma cuidadosa anotao, que seria lida tanto em
Amsterdo como em Java:

Teve de se Lhes dizer que, uma vez que haviam perdido a terra,
no tinham outra alternativa seno admitir que ela j Lhes no
pertncia, tanto mais que no foi possvel convenc?los a
devolver gado roubado que ilegalmente nos haviam tirado
durante a nossa guerra defensiva, que vencemos pela espada, e
que tnhamos a inteno de conservar a terra.

E em seguida o Cabo olvidou escravos e Hotentotes, pois numa
clara manha de Dezembro a colnia acordou com uma viso
empolgante. Durante a noite tinham entrado na baa os navios
de uma grande frota mercante??seis embarcaes, comandadas
pelo Groo e Hoorn, um magnfico navio que seguia com destino a
Java. Altivo e orgulhoso, trazia a bordo um distinto
passageiro, o ilustre comissrio Karel van Doorn, emissrio
pessoal dos Dezassete, com poderes para investigar as
condies do Cabo e transmitir quaisquer novas instrues que
considerasse prudentes. Depois, seguiria viagem para Java,
onde se tornaria governador?geral.
O comissrio Van Doorn desceu cuidadosamente do barco que o
trouxe a terra. Trajava de preto, com uma grande gola branca,
calas com nervuras e sapatos de cabedal claro. Usava um
chapu de abas largas. trazia um leno de renda e apoiava?se
negligentemente a uma bengala de casto de prata. Tinha o
cabelo em canudos e a barba bem aparada. Era alto, empertigado
e elegante, e apenas desembarcou voltou?se para oferecer o
brao a uma dama ainda mais elegantemente vestida do que ele,
que fez Willem recordar a sua me, pois parecia ter o mesmo
sentido inato de autoridade.
Karel, evidentemente, no viu o irmo: a sua ateno
encontrava?se exclusivamente dirigida para Van Riebeeck, como
principal funcionrio da Companhia. Willem ficou ignorado
entre a pequena multido, enquanto o squito avanava para o
forte. Mesmo a Karel no pediu para ver o irmo, pois, como
comissrio, entendia necessario impor a sua autoridade 
colnia to prontamente quanto possvel .
?? Quais so os vossos principais problemas???perguntou a Van
Riebeeck assim que a porta do gabinete se fechou.
??Quatro, Mijnheer Van Doom??explicou Van Riebeeck.?Primeiro,
no temos um predikant desde a fundao da colnia. So
necessrios casamentos e baptizados.
??O Dr. Grotius vem a bordo do Groote Hoorn??replicou
Karel.??Desembarcar dentro de pouco tempo e celebrar os
casamentos e baptizados necessrios.
??Os escravos esto constantemente a fugir. Temo?los
guardados. Castigamo?los quando os recuperamos. E, no
obstante, eles procuram a liberdade.
??Tem de se pr cobro a essa situao, e severamente. A
Companhia no compra escravos para os ver desaparecer.
??Mas como os impediremos?
??Cada homem, cada mulher, tem de assumir a responsabilidade
dos escravos sob o seu controle. E qual  o terceiro problema?
??Precisamos desesperadamente de mulheres. Mijnheer, os
trabalhadores no podem viver aqui sozinhos ... eternamente.
??Conheciam as condies quando foram contratados. Um lugar
para dormir. Boa alimentao. E quando regressassem  Holanda,
dinheiro suficiente para se casarem.
??J tenho pensado que muitos dos nossos homens podero nunca
mais voltar  Holanda.
??Tm de voltar. No h futuro aqui para os homens da
Companhia.
??E  este o quarto problema. Tenho detectado uma certa
agitao entre os burgueses livres.
A Aliana

??Revolta? Contra a Companhia???Karel ergueu?se e percorreu o
gabinete a passos largos.??Isso no ser tolerado.
??No  revolta!??atalhou rapidamente Van Riebeeck.??Os homens
queixam?se dos preos que pagamos pelo seu milho, das despesas
que tm ...??Interrompeu?se ao ver o olhar que Van Doom Lhe
lanava. ??Por vezes, parecem tentados a fazer incurses para
leste ... por conta prpria, no em servio da Companhia. Como
se o corao negro de frica os chamasse.
Karel van Doorn voltou a sentar se. Por trs vezes, os
Dezassete, em Amsterdo  tinham detectado, nos volumosos
relatrios de Van Riebeeck. indcios de que os burgueses
livres do Cabo estavam a comear a olhar para alm dos
permetros que Lhes haviam sido impostos na altura das
concesses originais. Nesse momento, inclinando?se para a
frente para que as suas palavras fossem mais incisivas, Karel
declarou:
??Comandante. vs e os vossos homens tendes de compreender que
fosteis enviados para aqui no para colonizar um continente,
mas para fazer funcionar um estabelecimento comercial.
??Eu compreendo?o'??assegurou Van Riebeeck.??No gastamos nem
um flonm neste entreposto.
??E tambm no ganham nem um flonm. ??Van Doorn no amenizou o
seu olhar severo.??Quando o Gr ole Hoorn se fizer ao mar,
desejamos levar a bordo uma proviso de legumes, carneiro
carne de vaca e vinho. E prevejo j que no poderemos contar
com nenhum desses produtos.
??Esperai at verdes os nossos legumes.
??E o vinho ?
??As vinhas pouco produzem, Mijnheer. So os ventos, como
sabeis. Mas plantmos uma cerca protectora e se os Senhores
nos puderem enviar umas vinhas mais fortes...
??Eu trago as comigo.
Van Riebeeck ficou radiante com este inesperado presente, mas
foi trazido de novo  realidade pelas palavras seguintes de
Van Doorn:
??Tenho a certeza de que no tereis carneiro nem vaca.
??Os Hotentotes permutam connosco muito poucos animais. Na
realidade, eu por vezes surpreendo?me com os desgnios do
Senhor ao permitir que um povo to indigno possua tantos
animais em to boas condies.
Karel permaneceu silencioso durante um momento. Depois, disse:

??Portanto, tendes legumes, mas mais nada.
Van Riebeeck riu se nervosamente.
??Ficareis surpreendido, Mijnheer, com o que ns conseguimos.
??Em seguida, prosseguiu apressadamente:
quinto problema, Mijnheer, mas  pessoal.
??Qual ???perguntou Karel.
??As minhas cartas. As minhas trs cartas a respeito da minha
transferncia para Java. Quando aceitei esta tarefa, e posso
assegurar?vos que no tem sido fcil, foi na presuno de que,
se realizasse .aqui um bom trabalho durante um ano, seria
promovido para Java. No final desse ano pedi a transferncia,
ao que os Senhores respon deram que eu era necessrio no Cabo.
Permaneci ento mais um ano e solicitei de novo a
transferncia. Obtive a mesma resposta. Fiquei um terceiro
ano, e este  o stimo.??Fez uma pausa, olhou directamente
para o comissrio e disse:??Sabeis, Mijnheer, que este no 
lugar para deixar um homem durante seis anos. Por favor, MIJn
heer, eu ambiciono desesperadamente ir para Java.
??Sobre esse assunto os Senhores deram?me instrues espec
I ficas.
De uma caixa de couro Van Doorn retirou um mao de papis, que
folheou at encontrar o que procurava. Desdenhosamente,
empurrou?o na direco de Van Riebeeck, que ficou depois a
obser var, enquanto este lia em voz alta:
??Os vossos esforos no Cabo tm sido notados, bem como o
vosso repetido pedido de transferncia para Java. Por
enquanto, as VOSsas aptides so necessrias no local onde
estais. ??Em voz
; cava, Van Riebeeck perguntou:??Por quantos anos?
??At que produzais carne e vinho suficientes para os nossos
navios. Lembrai?vos, comandante, vs e os vossos homens no
estais aqui para construir uma cidade para vosso prazer, mas
para fazer
uma explorao agrcola que abastea os nossos navios. Tudo
quanto vejo  minha volta testemunha o facto de que estais a
desperdiar as
vossas energias na prossecuo do primeiro objectivo e a
escamotear o segundo!??Com isto, pegou noutro documento e
comeou a ler os despachos e as decises dos Dezassete, nenhum
dos quais vira Jamais a frica Austral, mas que tinham lido,
todos eles, os relatrios enviados por Van Riebeeck:

Hendrick Wouters no  autorizado a ter um porco. Leopold
van Valck no deve plantar o seu milho no campo para alem do
rio
A Aliana

E as instrues sucediam?se: o ferrador s podia ferrar os
cavalos usados em servio da Companhia; o confortador dos
doentes era in centivado a conduzir culto religioso aos
domingos, mas devia limitar?se a sermes preparados por
predikants devidamente ordenados na Holanda; era proibido
entoar canes em voz alta depois das oito horas da noite e
cantar ao domingo, e os quatro marinheiros que haviam sido
apanhados a danar com escravas na noite de Ano Novo, elas e
eles nus, deviam ser castigados por imoralidade.
??E necessrio aniquilar os frvolos??declarou Van Doorn, e s
depois perguntou:??O meu irmo est a trabalhar bem?
??Temo lo na vinha.
??Dissestes que as vinhas pouco produzem.
?? verdade, Mijnheer, mas no por culpa dele. Chegaram?nos em
mau estado. Foram embaladas na Alemanha. Impropriamente
??As que vos trago vm de Frana??disse Van Doorn com
firmeza.??Posso assegurar?vos que foram bem
embaladas.??Depois, sorrindo finalmente a Van Riebeeck,
disse:??Gostava de ver o meu irmo. No digais nada, mas eu
trago?lhe uma surpresa.
Willem ficara pacientemente  espera do outro lado da porta,
um homem de trinta e tres anos sentado de braos cruzados,
como um rapaz num reformatorio.
??O comandante chama?vos ?? disse um criado. Willem ergueu?se
de um salto e entrou no gabinete. O aspecto do seu irmo era
resplandecente.
??Como ests, Willem?
??Muito satisfeito por estar aqui. E muito satisfeito por te
ver, Karel.
??Agora sou comissrio. Em Java serei em breve o
governador?geral .
??Como est a me?
??Est ptima, creio eu. Quero que conheas a minha mulher.
??E, enquanto falava, uma expresso de um misto de compaixo e
de divertimento perpassou?lhe pelo semblante, e Karel estendeu
a mo para pegar no brao do irmo.
Dirigiram?se a uma zona do forte que fora especialmente limpa
e mobilada para reunies durante a visita. Sentada numa bela
cadeira de mogno, estava a nobre dama que Willem vira
desembarcar horas antes .
??Esta  a tua irma, Kornelia??disse Karel, e a mulher
inclinou a cabea, com o mesmo sorriso enigmtico que
perpassara pelo

rosto de Karel momentos antes.??E este??continuou Karel?? o
Dr. Grotius, que vai realizar os casamentos e os baptizados.
o predicant era um homem anguloso de cerca de cinquenta anos,
de aspecto assustador e com uma pesada aura de integridade.
Vestia de negro   excepo de uma gola branca de enormes
dimenses. Saudou Willem com uma sombria inclinao de cabea.
O casamento que o Dr. Grotius celebrou nessa tarde no
ofereceu qualquer dificuldade, pois a escrava malaia que
casava com Leopold van  7alck compreendia o catecismo cristo
e estava disposta a abjurar do paganismo do islo. Nem
constituiu qualquer problema baptizar as crianas brancas que
haviam nascido no Cabo. Quando, porm. a escrava Dborah
ofereceu o seu filho de pele escura, Adam, para ser baptizado,
o Dr. Grotius repreendeu?a, dizendo:
As crianas nascidas fora do matrimnio no podem ser
baptizadas. Isso insulta a santidade do sacramento.
. essa altura, Van Riebeeck, que at ento se mostrara
subserviente, interveio:
??Mestre, ns vivemos  beira do deserto. Somos poucos e
solitrios. Aps seis anos, no somos mais que cento e
sessenta e seis, e nove mulheres apenas. Precisamos dos filhos
dos escravos. Por faVOr, baptizai?os a todos.
??As tradies da Bblia??trovejou Grotius??no devem ser
ignoradas s porque este lugar  desrtico. Aqui as leis devem
sercumpridas mais estritamente ainda do que numa cidade
civilizada.?No foi possvel demov?lo e a cerimnia foi
interrompida numa confuso.
Cinco participantes reagiram de formas radicalmente
diferentes.
Dr. Grotius precipitou?se para o navio, por no querer
permanecer num forte onde tais profanaes se realizavam.
Dborah no revelou qualquer espcie de preocupao: o seu
rosto plcido permaneceu mpassvel ante a tempestade que
causara. No fora ideia sua baptizar o filho fora Willem quem
insistira na realizao do acto. Wilem, perturbado, chegou a
pensar em revelar o facto de o filho ser seu e de ter sido ele
quem insistira no baptismo. Jan van Riebeeck  stava decidido a
que a criana fosse baptizada, para bem da sua pequena
colnia. E o comissrio Karel van Doom, pressentindo que, mais
cedo ou mais tarde, seria chamado a resolver aquele impasse,
sentia?se indeciso, sob o ponto de vista moral, sobre a
soluo a apresentar Ansioso por se tornar um bom patriarca
cristo, quando os outros se retiraram ficou a rezar.
A Aliana

Nessa noite, durante a ceia, o comissrio Van Doom, Van
Riebeeck e Willem discutiram as medidas a tomar. Van Riebeeck
fez um forte apelo para que o seu pedido fosse aceite.
??Somos uma compagnie, Mijnheer van Doom, e no uma igreja.
Sois vs e eu quem deve determinar o que se faz aqui no Cabo,
e. no o Dr. Grotius. Em Java, como sabeis, baptizamos os
filhos de escravos e educamo?los como bons cristos. Eles
ajudam?nos a dirigir a Companhia.
??Eu no desejaria contradizer o predikant . . .
??Tendes de o fazer!??explodiu Van Riebeeck. ??A Bblia diz .
. .
E foi subsequentemente a estas palavras que Willem acabou por
levar os outros  sua cabana para consultarem a Bblia
escondida que ele salvara da Haerlem. Abrindo os fechos de
metal, virou a pesada capa e mostrou o livro ao irmo, que
folheou reverentemente as pginas, percorrendo com os olhos
aquelas grandiosas passagens em que Abrao estabelece as leis
que regero o seu povo, recentemente instalado numa nova
terra, tal como os Van Doom e Van Riebeeck tinham de enunciar
princpios a que obedecessem os seus seguidores naquele vasto
territrio novo. Qual o procedimento acertado? Quais as
medidas a tomar?
A luz de uma vela, procuraram em vo uma orientao nessas
passagens. Sentiam?se  deriva.
Ento Willem percorreu os captulos do Gnesis e, aps algum
tempo, encontrou aquelas passagens em que o prprio Deus, e
no Abrao, transmite instrues aos habitantes temporrios de
uma terra estranha, estabelecendo as normas que devem seguir
para preservarem a sua identidade

Esta  a minha aliana, a que obedecereis, entre Mim e li e a
tua gerao depois de ti; todas as crianas masculinas entre
vs sero circuncisadas ... Aquele que nascer na tua casa e
aquele que for comprado com o teu dinheiro devem ser
circuncisados... E Abrao tomou ... todos os que haviam
nascido na sua casa e todos os que haviam sido comprados com o
seu dinheiro, todos os vares entre os homens da casa de
Abrao; e circuncisou a carne do seu prepcio nesse mesmo dia,
tal como Deus lhe ordenara.

?? o que ns procurvamos! ??exclamou Willem. Os dois homens
responsveis pela minscula colnia inclinaram?se sobre o seu
ombro e leram o excerto, procurando encontrar justificao
para quaisquer medidas que pudessem ter de propor.
Van Riebeeck estava encantado.
?? muito claro. A aliana deles consistiu na circunciso, e
Deus ordenou que os escravos fossem circuncisados. A nossa
aliana  o baptismo, e Ele ordena que os nossos escravos
sejam baptizados. ??Sentiu?se to aliviado que
exclamou:??Comissrio, temos de ir imediatamente ao navio e
fazer com que o Dr. Grotius baptize a criana!??Quando Karel
van Doom protestou, alegando a hora tardia, Van Riebeeck
apontou o dedo para a Bblia e replicou:??No ordenou Deus que
o fizessem no mesmo dia?
Cuidadosamente, Karel estudou a Bblia e, quando leu as
palavras nesse mesmo dia, sentiu?se obrigado a fazer baptizar
essa criana antes da meia?noite.
??Penso que devemos agradecer a orientao do Senhor??disse, e
os trs homens ajoelharam em orao.
Transportando lanternas atravs da noite, levaram a Bblia at
 borda de gua, acordaram o barqueiro e seguiram para o
Groote Hoorn, onde convocaram o Dr. Grotius.
??Mestre??disse Karel quando o predikante apareceu em camisa
de noite.??Deus falou!??E abriram o livro  sua frente.
O Dr. Grotius estudou as passagens da Bblia durante longo
tempo. Finalmente, voltou?se para os visitantes e?disse:
??Mijnheeren, eu estava enganado. Podemos orar???Assim,
ajoelharam pela segunda vez, enquanto o Dr. Grotius, com a
Bblia firmemente apertada entre as mos, agradecia a Deus a
Sua interveno e pedia uma orientao constante. Mas quando o
comandante Van Riebeeck sugeriu ao predikant que regressassem
a terra a fim de baptizar a criana ainda nesse dia, o Dr.
Grotius retrucou, quase triunfantemente ??Esse dia j passou.
Celebraremos o baptizado antes de este dia terminar.
Com essa frase fechou a Bblia; porm, ao faz?lo,
deparou?se?Lhe a pgina em que Willem escrevera: Filho, Adam
van Doom. Nascido a 1 de Novembro de 1655.
??Tendes um filho???perguntou o Dr. Grotius a Willem.
??Tenho??respondeu Willem com sinceridade.
Seguiu?se um penoso silncio, aps o que o predikanl
perguntou:
??Aquela criana negra para ser baptizada no se chamava Adam
A Aliana

A admisso de que o irmo de um distinto mercador que servia
como comissrio dos Dezassete tivera relaes com uma escrava
era chocante.
??Oh, meu Deus!??exclamou Karel. ??Colou a cara  do irmo e
perguntou:??s casado?
??Eu queria ...
??Eu no o consenti??declarou Van Riebeeck.
Com fervor, Karel apertou as mos do comandante, dizendo?lhe:
??Fostes muito prudente.
??Mas Dborah ...??comeou Willem.
Karel chamou?o de lado e disse?lhe em tom altivo:
??Eu queria que isto fosse uma surpresa. ??Com um gesto
grandiloquente, apontou na direco do camarote contguo.??A
tua futura mulher est ali a dormir ... esperando conhecer?te
amanha de manha.
??A minha mulher???perguntou Willem.
??Sim, prima de Komelia. E uma jovem de uma excelente famlia
que veio expressamente de Amsterdo.??E, no entusiasmo do
momento, Karel precipitou?se para o corredor e bateu  porta
do camarote:??Katje! Anda c.
Em vez de Katje, apareceu Komelia, alta e imponente no seu
traje de dormir.
??Que barulho  este?
??Volta para a cama.??Karel afastou?a.??Quero a Katje.?E, no
momento seguinte, surgiu uma rapariga baixa, pouco favorecida
por estar meio a dormir, com cabelo encaracolado e rosto
congestionado.
??Que ???perguntou ela em tom enfastiado.
??Anda conhecer o Willem.
??Assim como est, no??disse Komelia de dentro.
??Anda!??insistiu Karel, e conduziu a rapariga, por entre
protestos, para o camarote do predikant, onde ela, com olhos
avermelhados e o nariz a fungar, conheceu o marido que Lhe era
destinado.
??Willem van Doom, esta  a tua noiva, Katje Danckaerts.
Sendo embora uma pobre camponesa, Katje era prima direita de
Komelia, e como tal algum a quem era devido respeito. Um ano
atrs, quando Komelia perguntara: Que havemos de fazer com a
Katje?, o marido respondera: Vamos lev?la connosco para o
Cabo. Willem precisa de uma mulher."
E assim fora acordado. Naquele momento, a jovem sem graa, de

90

vinte e cinco anos entrava no camarote onde vrios
desconhecidos se comprimiam, seguida por Komelia, que queria
saber o que se passava.
??Volta para o teu quarto!??gritou?lhe Karel, tentando impedir
que sua mulher soubesse do escandalo. Mas ela abrira caminho e
encontrava?se na altura ao lado de Katje.
??Que  que te esto a fazer, Katje???perguntou docemente.
??Estou a conhecer Willem??gemeu a jovem.
Komelia examinou os homens e percebeu imediatamente que estes
tentavam remediar qualquer situao, a fim de alcanarem um
objectivo determinado. Notando que Willem parecia
particularmente inepto, disse a Katje:
??Bem, se ests a travar conhecimento com o teu marido, 
melhor faz?lo como deve ser.??E empurrou a prima para a
frente.
Willem avanou desajeitadamente para saudar a jovem, mas esta
recuou, dizendo:
??Eu no me quero casar.
Apenas acabara de pronunciar esta frase quando sentiu a mo
firme de Komelia a meio das costas, empurrando?a to
violentamente para a frente que quase caiu nos braos de
Willem. Nesse breve instante, ele olhou?a e pensou: Como 
diferente de Dborah. Mas. ao agarr?la, sentiu a sua
feminilidade e compreendeu que seria responsvel por toda a
sua vida.
??Serei um bom marido??afirmou.
??Espero bem que sim??murmurou Karel.
A sensata Komelia disse ento categoricamente:
??Agora quero saber o que  que vs, homens, estveis fazendo.
O Dr. Grotius, compreendendo que era intil prosseguir com a
dissimulao, mostrou?lhe a reveladora anotao da Bblia. Ela
leu?a
cuidadosamente, depois chamou Katje para junto de si e
mostrou?lhe a pgina.
??Parece que o teu marido tem outra mulher. Mas isso nada
significa??declarou, fechando a Bblia.
??Ela est outra vez grvida??disse Willem num mpeto
espontaneo.
??Isso tambm nada significa??repetiu Komelia.
??Ele no est casado com essa escrava??tranquilizou Van
Riebeeck.
E Karel acrescentou:
??Mas sero casados agora.??Quando todos o olharam,
estupefactos, ele acrescentou, pouco  vontade:??Isto ,
Willem e Katje.

91
A Aliana

??Certamente o sero??afirmou Komelia, e foi ela quem props
que a cerimnia do casamento se realizasse imediatamente, 
uma hora da madrugada. Quando o predikant objectou que seria
ilegal celebrar qualquer casamento antes de os banhos terem
sido lidos trs vezes, Komelia replicou:
??Ento, lede?os.
Consequentemente, Karel gritou:
??Katje Danckaerts, solteira, de Amsterdo, e Willem van Doom,
solteiro, de Batvia.??Depois, repetiu duas vezes as mesmas
palavras.
??De Kaapstad??corrigiu Willem.
??Casai?os??ordenou Karel rispidamente ao predikant. Assim, a
Bblia foi aberta e,  luz bruxuleante de um candelabro,
enquanto Katje e Willem mantinham as mos sobre as pginas
abertas, foram pronunciadas as frases ardentes do sacramento.
Quando a cerimnia terminou, Willem surpreendeu todos ao p dir
uma pena. Assim que Lha entregaram, ele voltou a pgina qu.
tanto escandalo causara e, num espao decorado com cupidos e
tli
pas, onde os casamentos deviam ser inscritos, escreveu: Katjc
Danckaerts, Amsterdo, Willem van Doom, Kaapstad, 21 de
Dezembro de 1658.

ATRAVS do misterioso sistema de comunicaes que sempre
existiu em zonas fronteirias como o Cabo, os Hotentotes
souberam que chegara um novo comissrio para resolver alguns
assuntos, irmo mais velho do homem que cultivava a vinha. A
notcia, que pouca relevncia tinha para a maioria dos negros,
foi importante para Jack, pois significava que ele podia fazer
a sua proposta a algum capaz de a aceitar. Consequentemente,
o indgena envergou o seu traje de marinheiro, limpou a poeira
dos pesados sapatos de pele de boi que ele prprio
confeccionara, colocou o chapu e dirigiu?se para o forte.
Na muralha, um vigia descobriu Jack a aproximar?se por entre a
poeira. Hotentotes!, avisou.
O comandante Van Riebeeck correu para a muralha e constatou
que se tratava do seu velho oponente, Jack, arrastando os ps
em direco ao forte.
??Chama o comissrio??ordenou  sua ordenana.
Quando chegou a terra no barco a remos e viu o recm?chegado,
Karel exclamou:
??Mas  o Jack!
A Ali

??Como  que o conheceis???perguntou Van Riebeeck.
??Estivemos juntos em Batvia.??E apressou?se a ir ao encontro
do nativo.
Os dois saudaram?se com inegvel calor.
??Vou ser eu o governador de Java??disse Karel ao velho amigo
do seu irmo.
??Canela, noz?moscada, dentes de alho??recitou Jack, evocando
os dias em que conhecera os irmos Van Doom no armazm da
Companhia. Karel riu e seguiram juntos para o forte, para onde
Willem van Doom foi tambm convocado.
Depois, Jack fez a sua proposta:
??Tempo agora que vs, homens, trabalhar juntos com os
Hotentotes.
??Optimo??comentou Karel, rigidamente sentado na sua grande
cadeira.??Se vocs nos venderem gado, ns ...
??Isso no??objectou Jack.??Ns precisamos nosso gado.?Falava
um ingls misturado com numerosas palavras portuguesas e
alguns vocbulos holandeses recentemente adquiridos??essa
grande mescla que estava a caminho de se transformar numa
lngua nica.
??Ento o qu???perguntou Karel.
??Eu dizer ns vir aqui. Viver com vocs. Ter aqui pastagens,
cabanas, pastar vosso gado, nosso gado.
Willem observou:
??Ningum pastoreia melhor do que um hotentote.
Karel lanou ao immo um olhar carregado de desdm.
??Viver aqui?... Queres dizer ... Hotentotes a viver no forte?
??Eles aprendem ofcios muito rapidamente, Karel. Aqueles que
se tornassem carpinteiros podiam viver no forte. Ou padeiros
ou sapateiros. Olha, foi o Jack quem fez os seus sapatos.
Karel olhou para os sapatos. Eram objectos grandes, disformes,
que consubstnciavam o seu ponto de vista acerca dos
Hotentotes: capazes de imitar alguns aspectos exteriores da
civilizao, mas indignos de ser seriamente considerados. Sem
responder directamente  proposta de Jack, abordou o problema
dos escravos fugitivos.
??O que tu podes fazer para ns  organizar o teu povo para
apanhar os nossos fugitivos. Ns damo?vos pesos de metal por
cada escravo que trouxerem de volta.
Jack pensou: Quando caamos, caamos animais, e no homens.
Somos pastores e guardadores de gado, e podamos ajudar?vos
muito  Mas no disse nada

94

?? Quanto a mudarem?se para as vizinhanas do forte??continuou
Karel com uma risada depreciativa??, receio que isso no venha
nunca a acontecer.
??Senhor. Vocs, homens brancos, precisar de ns. Talvez hoje
no? Mas o tempo vem que precisaro de ns.
? Ns precisamos de vocs agora??declarou Karel com uma certa
generosidade.??Precisamos que nos ajudem com os escravos.
Precisamos do vosso gado.
??Vocs precisar de ns, senhor. De viver com vocs. Para
fazer muitas coisas.
???Chega. ??Karel van Doom ergueu?se com impacincia, inclinou
a cabea para o seu amigo de outrora e retirou?se. Regressou
ao navio, onde escreveu duas recomendaes que se tornaram lei
no Cabo:

No deve haver nenhum contacto social com os Hotentotes. O
fcil acesso que alguns tm  rea da fortaleza deve terminar.
Em todas as circunstncias devem envidar?se esforos para
preservar as Irs distines: os Holandeses no comando, os
escravos importados no seu servio e os Hotentotes, sem
contacto com uns nem com outros. Os Hotentotes no devem ser
utilizados como escravos e em nenhuma circunstncia devem ser
recebidos em qualquer famlia. Sugiro a construo de uma
cerca em torno de toda a propriedade da Companhia. Podera no
ser suficientemente forte para repelir invasores, mas servira
o salutar propsito de recordar  nossa gente que  diferente
dos Hotentotes, e lembrar forosamente aos Hotentotes que
nunca podero ser nossos iguais. Tambm reforar no nosso
povo a noo de que a sua misso  abastecer os navios da
Companhia, e no explorar territrios desconhecidos. Se no
existir material disponvel para a cerca, pode ser considerada
a hiptese de uma sebe espinhosa, que manter os nossos homens
dentro e
Hotentotes fora.
J  grave neste momento, e poder representar um gravssimo
perigo potncial no futuro, o facto de os nossos holandeses
comearem a usar a bastarda lngua portuguesa, adoptada pelos
escravos e vagabundos e pequenos mercadores em todos os mares
orientais. Durante a minha estada aqui notei a introduo de
muitas palavras que no so usadas na Holanda. Algumas eram de
Madagscar, outras de Ceilo, muitas malaias, mas a maioria
portuguesa. Se este processo continuar, a nossa lngua
holandesa perder?se?, submersa

9
A Alian a
numa vaga estrangeira, em nosso detrimento e abastardamento da
expresso. Os servidores da Companhia no Cabo devem dirigir?se
aos seus escravos em holands, e todas as transaces devem
ser
conduzidas em holands.

Quando estas novas regras foram anunciadas no forte, o
comissrio Van Doom considerou realizado o papel que as suas
responsabilidades Lhe exigiam e transmitiu instrues ao
comandante do navio para preparar a embarcao para a longa
viagem para Java.
Na noite anterior  partida do comissrio, Van Riebeeck e sua
mulher, Maria, ofereceram uma festa de Ano Novo com msica
tocada pelos escravos malaios. Os alimentos eram todos
provenientes do Cabo: bacalhau salgado, uma perna de carneiro,
couve?flor, couve, milho, beterraba e abbora. O vinho,
obviamente, provinha do navio, retirado de cascos
transportados de Frana para Java. Porm como Karel disse
amavelmente na altura do brinde: < Dentro de pouco tempo at o
vinho ser daqui.  E inclinou a cabea em direco ao irmo.
??Agora a sobremesa!??gritou Van Riebeeck, que o capitoso
vinho tomara purpreo. Batendo as palmas, mandou vir o prato
especial preparado para aquela noite. Da cozinha surgiu
Dborah, grvida, trazendo nas mos um grande recipiente de
loua de um castanho?dourado, de paredes direitas e sem asas.
Olhando para Willem de rosto inexpressivo, esperou que este
Lhe dirigisse um sinal. Com uma ligeira inclinao de cabea,
ele indicou?lhe que devia colocar o recipiente em frente de
Komelia. Quando ela o fez, todos constataram com prazer que o
contedo era um apetitoso pudim de po, de crosta tostada, com
passas, casca de limo e laranja.
??Foi o nosso Willem quem o fez??declarou Van Riebeeck
orgulhosamente, por entre os aplausos dos convivas.
??De que  feito, Willem???perguntou Komelia.
??Poupmos pedaos de po, de bolo e de bolacha??disse Willem.
??Tem ovos, nata, manteiga e toda a espcie de frutas que
arranjmos. E no fim, claro ... ??Hesitou.??Tu no deves
apreciar, Komelia, pois no viveste em Java, mas depois de
acrescentar o acar e o sumo de limo juntei um pouco de
canela em p e bastante noz?moscada. Para nos recordar de
Java.
Uma vez esvaziado o ltimo jrro de vinho, travaram?se duas
ltimas conversas. Eram na verdade monlogos, pois quem falava
no era interrompido pelos ouvintes. Karel van Doom dizia para
o comandante Van Riebeeck:

9f

ndes de lutar muito duramente, Jan, para impor as regras da C
,;m!lia. Fazei com que as pessoas falem holands. Rodeai com
Uil  c a a propriedade da Companhia. Castigai os vossos
escravos. Cma  nu is gado bovino e comeai a produzir vinho.
Porque, se re sol\t Idl s o problema do abastecimento dos
nossos navios, posso asst zul lr vos que os Senhores Dezassete
vos recompensaro com a Vo  transferncia para Java.??E em
seguida acrescentou pausadamente:??As especiarias com que
Willem temperou o pudim no vos fizeram lembrar que no h
nada no Mundo como Java? Simultaneamente, Komelia van Doom
dizia  sua prima: ? Katje, ajuda o Willem a criar as uvas.
Porque se ele o conseguir no tardar a ser promovido. Depois,
podes vir para Java.?Numa exploso de afecto, abraou a sua
desgraciosa prima e confessou: ?? No te trouxemos para o
paraso, Katje. Mas ele  um marido. a tua cabana 
temporria. Se o fizeres trabalhar, ele em breve estar em
Java.

A  s da partida de Karel, as novas vinhas procedentes de
Frana tinham sido bem plantadas. Willem sabia agora como
colocar as filas na direco devida, e num relatrio que
enviou aos Dezassete, Karel elogiou o irmo pelo seu trabalho
de viticultura. E previu que < em breve o Cabo estar a enviar
cascos de vinho para Java, .
O derradeiro pargrafo de Karel seria frequentemente citado,
tanto em Amsterdo como em Batvia. Referia se aos escravos
fugi tivo

Nem a fome  nem a sede  nem a seta assassina do bosqumano,
nem a lana do hotentote, nem o deserto rido. nem a
intransponvel montanha, desencorajam o escravo de procurar a
sua liberdade. Ordenei por conseguinte aos funcionrios do
Cabo que aplicassem uma srie de castigos atravs dos quais os
escravos ficassem bem cientes de que so propriedade da
Companhia e de que tm de obedecer s suas leis. A primeira
tentativa de fuga, a perda de uma orelha. A tentativa
seguinte, marca a fogo na testa e perda da outra orelha. A
terceira tentativa, perda do nariz. E  quarta  a forca.

Depois de o Groote  oorn retomar a viagem para Java, foi
decidido que Willem devia ter mais assistncia na produo do
vinho, pelo que o escravo Jango foi retirado do seu servio no
forte para aJudar na vinha.

97
A Aliana

Jango revelou rapidamente grande aptido para tratar de
vinhas. Willem recomendou que fossem retiradas as correntes ao
seu escravo, para que ele se possa mover mais livremente pela
vinha
Van Riebeeck acedeu, relutante.
??Podeis vir a ter problemas??avisou ele, mas Willem respondeu
que tinha a certeza de que se podia confiar em Jango.
Em parte, tinha razo. Sem correntes, Jango trabalhou
diligentemente; porm, assim que as novas vinhas foram
podadas, desapareceu. Decorreram dois dias at Willem
participar a sua ausncia no forte, onde a notcia causou
grande agitao. Van Riebeeck, que ficou furioso com Willem
por este ter demorado a dar o alarme, enviou raivosamente um
destacamento encarregado de descobrir o fugitivo.
Aps trs dias de buscas, Jango e outros trs escravos que o
haviam acompanhado foram descobertos no sop de um pequeno
penhasco, esfomeados e tiritando de frio. Foram amarrados
juntos e obrigados a regressar ao forte, mas todos quantos se
reuniram para presnciar as esperadas mutilaes ficaram
desapontados, pois Van Riebeeck recusou se a cortar Lhes as
orelhas.  Eu no desfiguro os meus escravos, declarou. Os
seus ajudantes discutiram com ele, agarrando se tanto  nova
lei como  necessidade de um castigo drstico, mas o
comandante rejeitou obstinadamente o seu conselho. Os escravos
foram chicoteados, lanados para um canto da fortaleza que
servia de priso e mantidos sem alimentos durante trs dias.
Cinco dias depois de terem sido libertados, Jango voltou a
fugir e Willem foi convocado ao forte.
??Temos razes para acreditar que os escravos esto novamente
unidos aos Hotentotes??foi Lhe dito.??Ide falar a Jack e
avisai?o de que isto no pode continuar.
Consequentemente, Willem seguiu para leste a fim de
confernciar com Jack, enquanto o destacamento habitual de
caadores perseguia Jango. Willem encontrou Jack num local
distante, relutante em admitir a sua conivncia com os
escravos, relutante em prestar aos Holandeses qualquer
colaborao.
??Que queres tu afinal???perguntou Willem, exasperado, seu
velho amigo.
??O que disse no forte. Trabalhar juntos.
??Ouviste o meu irmo. Isso no poder nunca acontecer.
??Mais navios viro??insistiu Jack.??Mais gado ser
necessrio.

O franzir de sobrancelhas de Willem encerrou a conversao.
No havia esperana de que uma aliana como a que Jack
propunha alguma vez se efectivasse; os brancos e os negros
estavam destinados a viver vidas diferentes, uns como
senhores, outros como prias, e qualquer tentativa para
colmatar o abismo estava condenada devido ao carcter dos
intervenientes. Os homens brancos seriam impass veis e
obstinados como Willem, ou fteis e arrogantes como Karel, os
homens negros, orgulhosos e recalcitrantes como Jack.
Um estremecimento percorreu o rosto de Willem, a quem fora
dado antever fugazmente o futuro. Numa anteviso proftica da
his tria do Cabo??olhando para l da fortaleza e dos escravos
marca dos a fogo??, ele viu com uma lucidez trgica que Jack e
os Hoten totes seriam submersos pelos homens brancos e um dia
desaparece riam completamente. Lgrimas de compaixo assomaram
Lhe aos olhos, e ele quis abraar aquele homem de baixa
estatura com o qual partilhara tantas aventuras estranhas;
porm, Jack afastara?se. NO seu esfarrapado uniforme ingls e
com os seus enormes sapatos por ele prprio confeccionados,
caminhava s, em direco s montanhas, para nunca mais
apresentar aos Holandeses as suas propostas.
Quando Willem regressou ao forte, soube que Jango fora
recapturado e que pesadas correntes de ferro Lhe prendiam de
novo as per nas. A partir de ento, ele trabalharia
vagarosamente na vinha, arras tando atrs de si um peso
monstruoso.

NA sua cabana, Willem ouvia Katje desfiar uma srie
ininterrupta de queixas. Duas eram constantes: Porque  que
no podemos mudar?nos para o forte, em vez de vivermos nesta
cabana? e Daqui a quanto tempo podemos ir ter com Kornelia e
com o teu irmo a lava?
Pacientemente, ele respondia Lhe:  Tu no gostavas de viver no
forte com toda aquela gente. E temos de provar que se pode
produzir vinho aqui antes que nos permitam ir para Java.
Iludia?a na segunda questo  pois no tinha qualquer desejo de
regressar a Java; encontrara o seu lar em frica e estava
decidido a ficar.
Katje no se deixava convencer pela argumentao de Willem,
mas apreciou o facto de ele ter construdo um pequeno anexo 
cabana para ela ter espao para o filho que esperava. Van
Doorn trabaLhava com persistncia nas novas vinhas. Regava
pacientemente os novOs ps e tecia os abrigos de palha que os
protegiam do vento. Quando as vinhas produziram uma colheita
substncial de plidas
A Aliana

uvas brancas, ele apanhou?as, colocou?as quase reverentemente
na prensa e viu com satisfao o mosto incolor correr pelo
bocal.
Possuindo apenas uma ideia vaga de como fazer vinho, Willem e
Katje produziram finalmente algo de semelhante. Quando,
orgulhosamente, o levaram at ao forte, Van Riebeeck provou o
e escreveu no relatrio que enviou aos Dezassete:

Hoj , Deus seja louvado, foi produzido vinho das uvas do Ca
bo. Do nosso mosto virgem, resultante da presso das jovens
uvas
moscatis que nos haveis enviado, foram obtidos trinta e cinco
litros de vinho. Os anos bons comearam,

Porm, no ano seguinte, quando foi exportado para Java, o
vinho recebeu uma fria recepo. Mais vinagre do que vinho,
os nossos holandeses recusaram?no, os nossos escravos no o
puderam beber, e mesmo os porcos Lhe viraram as costas. Como
os marinheiros a bordo dos navios o rejeitaram tambm, o vinho
do Cabo no ajudou a reduzir o escorbuto.
Em consequncia deste malogro, Willem caiu em maior desgraa
no forte; o seu fracasso no fabrico de vinho prejudicava as
hipteses de Van Riebeeck??bem como as suas??de ser
transferido para Java. Katje discutia com ele, mas no havia
ningum com quem ele pudesse aprender a tcnica de fabricar o
vinho, e o produto obtido em 1661 das prensagens era to
intragvel como o da primeira co
Lheita .
Embora Willem tivesse labutado conscienciosamente na vinha, a
Companhia continuava a controlar completamente o seu trabalho.
Van Doom solicitou autorizao ao comandante para se proclamar
burgus livre, pedido que Van Riebeeck recusou, pois a sua
prpria libertao daquela semipriso dependia em larga escala
do xito de Wille m .
??Sois necessrio onde estais??declarou?lhe Van Riebeeck.
??Ento retirai as correntes ao Jango. Ele pode ajudar me nas
vinhas .
??E ele no voltar a fugir?
??Ele agora tem mulher.
Willem pronunciou estas palavras com lstima, pois naqueles
dias em que Katje o censurava mais amargamente ele no podia
dei xar de imaginar o que a sua vida teria sido se a Companhia
Lhe tivesse permitido casar com Dborah. Nas deslocaes que
fazia ao forte via?a com os seus dois filhos, Adam e Crisme,
desempenhando as suas tarefas com uma delicadeza plcida, aps
o que regressava a sua cabana e sonhava com os dias felizes
que ambos haviam passado juntos durante a longa viagem de
Malaca.
Ento um dia soube que Dborah estava novamente grvida, desta
vez com um filho de Jango, e, num acto de compaixo para com
ela, insistiu em que as correntes de Jango fossem retiradas.
No dia seguinte, Jango, Dborah e as duas crianas fugiram,
dirigindo?se para norte, para o perigoso territrio dos
Bosqumanos e das suas setas venenosas. Van Riebeeck, furioso
por se ter deixado convencer desacorrentar Jango, ordenou a um
destacamento de soldados que o trouxessem a qualquer custo, e
durante sete dias foi este o tema cen
I de todas as conversas no forte.
A apreenso de Willem excedia a de todos os outros. Ele queria
que Dborah sobrevivesse. Ele queria que os seus filhos se
tornassem homens para conhecerem aquela terra. E,
curiosamente, desejava que jango conquistasse a liberdade que
to corajosamente procurara ao longo de todos os anos do seu
cativeiro. Na realidade, sentia?se solidrio com aquele
escravo que cuidara das vinhas to conscienciosamente,
arrastando as correntes atrs de si. Tambm Willem procurava a
liberdade, a fuga dos confins amargos do forte e da sua
mentlidade estreita. Queria passar para l dos planaltos, em
direco aos montes verdejantes que pela primeira vez vira da
crista da montanha da Mesa, catorze longos anos antes.  nsiava
por espaos abertos, por vastides, e durante a noite rezava
para que Jango e
dborah no fossem apanhados.
Apanharam?nos!, exultou Katje uma manha, ao regressar do
v.te. E, contra sua vontade, Willem consentiu que ela o
levasse at porto na altura em que os fugitivos eram
reconduzidos ao forte. Jango mostrava?se calmamente
desafiador. Dborah, cuja gravidez ainda se no notava,
mantinha a cabea erguida, e o seu rosto no re e  raiva nem
derrota. Van Riebeeck actuou como anteriormente e proibiu os
soldados de mutilarem os escravos da forma que o Comissrio
Karel van Doom autorizara. No seu regime, no haveria mutih
e5 de orelhas, nem marcas a fogo, nem cortes de narizes. As
corrente  voltaram a ser colocadas, tanto em Jango como em
Dborah, mas foi tudo. Fisicamente, Van Riebeeck era um homem
de menOr estatura do que qualquer dos que serviam sob as suas
ordens; montlrllerlte. era o melhor funcionrio que a
Companhia jamais enviara para o Cabo.
A Aliana                                 :

Quanto mais Willem observava o comandante, em melhor opinio
tinha a sua capacidade. Mas um dos ditos de Van Riebeeck
surpreendeu?o. Quero uma cerca plantada em torno de todo o
nosso estabelecimento. Recebi ordens para separar a colnia de
toda essa
terra vazia. Com um gesto largo, ele indicava toda a frica.
??Manteremos os escravos no interior e os Hotentotes no
exterior. Protegeremos o nosso gado e faremos deste pequeno
territrio o nosso paraiso holands.
Insistiu com Willem e os burgueses para que procurassem o tipo
de arbusto ou rvore mais indicado para ser utilizado na
construo da sebe. Finalmente, encontraram a soluo ideal.
??Esta ameixieira tem espinhos rijos. No h nada que penetre
atravs de uma cerca destas quando as rvores crescerem.
E assim foi plantada uma sebe de ameixieiras espinhosas para
separar o Cabo da frica.

EM 1662, chegou a notcia de que o comandante Van Riebeeck
fora finalmente transferido para Java. O seu substituto era um
alemo, homem doentio e irritvel que servira em Curaau, na
Formosa, em Canto e na maior parte das Ilhas das Especiarias.
Durante os dias de Interregno, e antes de assumir o comando,
enquanto Van Riebeeck fazia as suas despedidas, o seu
substituto portou?se com circunspeco. Era casado com uma
alema, que aprendera as complexidades das normas da Companhia,
e em conjunto haviam estudado as condies vigentes no Cabo.
Consequentemente, estavam bem preparados para assumir o poder
assim que o seu predecessor partisse. Era seu objectivo
primordial punir e pr cobro  prejudicial e dispendiosa fuga
de escravos.
No dia em que Van Riebeeck partiu, um escravo que fugira para
uma aldeia hotentote foi recapturado e conduzido para a
fortaleza. O; novo comandante ordenou que Lhe cortassem a
orelha esquerda e Lhe
marcassem a fogo ambas as faces.
Alguns dias depois, foi apanhado outro escravo a comer uma
couve criada em hortas da Companhia; foi imediatamente
chicoteado e marcado a fogo, aps o que Lhe cortaram ambas as
orelhas e Lhe amarraram s pernas pesadas correntes. Quando
castigos semelhanteS foram aplicados a outros negros
desobedientes, Willem dirigiu?se sub?repticiamente ao forte
para falar com Jango e Dborah.
??Sei que continuam a procurar a liberdade. Por amor de Deus,
no se arrisquem.

Jango, sentado com os dois filhos de Willem nos joelhos, riu
tranquilamente.
  ??Quando a altura chegar, vamos.
P ??Mas com as tuas correntes apanham?te antes de o Sol se
pr.
?? claro que vamos??corroborou Dborah calmamente, e Willem
olhou?a, atnito. Aparentemente, ela passara a odiar a
escravido to profundamente quanto Jango, mas era terrvel
pensar que se arriscaria a ser mutilada para conquistar a
liberdade.
??Dborah! Pensa no que te podem fazer!??suplicou ele.
De olhar resoluto, rosto impassvel, ela colocou a mo na
dele.
??No permanecerei escrava??declarou.
Willem rezou para que eles reconsiderassem. Uma noite, porm,
aproveitando um momento de distraco dos guardas, Dborah,
Jango e as crianas partiram de novo. Quando foram
reconduzidos ao forte, o novo comandante ordenou que todos os
membros da pequena colnia se reunissem para ouvir a sentena.
??Jango, pela quarta vez tentaste fugir s tarefas que te
cabem, espoliando a Companhia da sua propriedade??comeou o
comandante. Willem sentia?se doente s de pensar no horrvel
castigo que iria ser aplicado.
??Jango, vo ser te cortados o nariz e as orelhas. Vais ser
marcado a fogo na testa e nas faces e andars acorrentado at
ao fim da tua vida. Adam e Crisme, vocs so escravos
??No!??gritou Willem.
O comandante voltou se para ver quem o interrompera. Um aju
dante segredou Lhe que aquele era o pai dos dois rapazes, o
que en raiveceu mais ainda o comandante.
??So escravos ??continuou ??e sero marcados a fogo na testa.
??No! ??gritou novamente Willem, resolvido a impedir que um
castigo to horrvel fosse imposto aos seus filhos, mas dois
soldados prenderam?no pelos braos e as sentenas foram
executadas.
Uma semana mais tarde, o novo comandante comeou a estudar
o caso de Willem van Doom. Soube que ele era o irmo mais novo
do poderoso Karel van Doorn, mas soube tambm que Karel tinha
pOUca considerao pelo seu irmo e o reconhecia como
conflituoso. Sabia que Willem pedira quatro vezes para se
tornar burgus livre, declarando que no tinha desejo de
trabalhar interminavelmente para a Companhia Era um homem que
estava a pedir disciplina, e o comandante estava decidido a
que ele a recebesse.
A Aliana

??Willem van Doorn??disse ele no julgamento pblico?tendes
sido uma influncia perniciosa. Haveis confraternizado com
escravos e precisais de severa disciplina. Para o cavalo, dois
dias.
??Oh, no!??suplicou Katje. Mas Willem foi agarrado e
amarrado, enquanto Lhe eram atados aos tornozelos dois pesados
sacos com gros de chumbo. O alto cavalo de pau estava
colocado num local bem visvel. Quatro homens iaram Willem,
enquanto dois ou
tros Lhe mantinham as pernas afastadas.
No momento em que ele foi assim suspenso, Jango e Dborah
foram conduzidos para o local a fim de presnciarem o
suplcio, e pela primeira vez Willem viu o rosto mutilado do
homem e a cara
sulcada por profundas cicatrizes, da mulher que amara.
??No!??gritou. E todos quantos o ouviram supuseram que ele
protestava contra a cruel punio que estava prestes a
receber.
??Agora!??ordenou o comandante, e deixaram no cair. A dor foi
to aguda que desmaiou.
Quando voltou a si, era noite e estava s, acorrentado ao
cavalo cujas arestas speras o feriam cruelmente entre as
pernas. Os terrveis pesos presos aos ps impediam no de se
mover e mudar de posio, e contra a sua vontade escapavam
se?lhe profundos gemidos.
Por duas vezes voltou a desmaiar nessa noite, em parte devido
s dores, em parte devido ao frio enregelante procedente da
baa. Quando recobrou os sentidos, comeou a ter calafrios, e
quando o Sol se ergueu, estava febril.
Residentes do forte vieram troar dele, convencidos de que
recebia o castigo merecido. Tinham Lhe unvejado a sua casa na
vinha, o facto de ele ter uma mulher e eles no e o seu
relacionamento com um irmo poderoso em Java.
Nessa tarde, quando se levantou o vento, a sua febre aumentou.
E quando o crepsculo caiu, e com ele a chuva vinda da baa, o
estado de Van Doorn era precrio. A sua mulher, que no sentia
vontade de o visitar enquanto os outros troavam dele,
arrastou se at ao cavalo e segredou:
??Como te sentes, Willem?
E ele respondeu, batendo os dentes:
??Hei de viver.
Suspeitando de que ele no viveria, Katje forou a sua entrada
no gabinete do comandante e disse?lhe:
??Estais a mat lo. Karel van Doom saber disto.
??Estais a ameaar?me?

??De facto, estou. Sou sobrinha de Claer Danckaerts, que  um
homem importante em Amsterdo. Libertai o meu marido.
O comandante conhecia suficientemente a poltica da Companhia
para calcular que influncias podiam ser movimentadas contra
ele se uma famlia holandesa declarasse guerra a um mercenrio
alemo; consequentemente, envergou um capote e saiu para a
tempestade.
Encontrou Willem inconsciente, o corpo a tremer de febre, e
deu uma ordem brusca:
??Tirem?no.
O ferido foi transportado para a sua cabana, onde Katje
conseguiu lentamente, faz?lo voltar a si.
??Ests em casa??murmurou.??J passou, Willem.??O seu amor
desajeitado e tenso como sempre seria, comeou nesse momento .
A provao no cavalo de pau provocou um impacte duradouro em
Willem van Doom. Em primeiro lugar, porque o deixou aleijado;
ele passou a caminhar sempre com o corpo ligeiramente
retorcido, pois a sua perna esquerda no funcionava como a
direita. E ficou afectado por uma profunda debilidade
brnquica, de que se ressentia todos os Invernos. Uma
consequncia ainda mais relevante, porm, representou o facto
de ele comear a frequentar a oficina do ferreiro no forte,
roubando peas de equipamento, que ocultava sob o abrigo onde
se guardavam os bacelos para enxertar as vinhas.
Uma noite, quando Jango regressava a casa arrastando as suas
correntes, Willem agarrou?lhe um brao. Sem pronunciar uma
palavra, afastou com o p uma cobertura de relva e mostrou?lhe
o seu esconderijo??um martelo pesado, um formo e uma barra
para ser vir de alavanca. Jango manteve se silencioso. mas os
seus olhos ex primiram gratido.
No era fcil olhar para Jango. Em vez de orelhas. tinha
feridas
protuberantes O seu rosto, sem nariz, perdera um carcter
definido. E a sua testa e as suas faces apresentavam trs
cicatrizes disformes. Mas os seus olhos brilhavam.
Os dois homens nunca trocaram confidncias. Jango recusou se a
transmitir a Willem os seus planos exactos ou como levaria a
cabo a sua escapada final. Os instrumentos para a sua
liberdade encontra
?vam se ocultos sob a relva e seriam utilizados na devida
altura, mas como e onde ele cortaria as suas correntes e as de
Dborah nenhum dos homens sabia.
0i At que uma tarde, meia hora antes do pr do Sol, Jango
A Aliana

dirigiu se lentamente, arrastando as suas correntes, ao abrigo
dos bacelos, retirou de sob a erva o martelo e o fommo e
embrulhou os num saco de lona. Com pancadas fortes, bem
abafadas, cortou as correntes que Lhe prendiam as pernas e
voltou depois a at las para parecerem intactas. Escondendo as
ferramentas sob a sua camisa suada, passou por Willem, como
sempre fazia ao terminar o dia; e, durante um breve momento,
os dois homens entreolharam se, um de rosto terrivelmente
desfigurado, o outro com o corao em tumulto. Era a ltima
vez que se veriam, e assomaram lgrimas aos olhos de Willem;
mas Jango recusou deixar?se dominar pela emoo. Apertando
contra si as ferramentas, afastou?se em direco ao forte.
??Ests muito nervoso??observou Katje ao ver o marido en trar,
coxeando, para jantar. Mais tarde, como ele tardasse em se
deitar e permanecesse acordado a ler a Bblia, disse
Lhe:??Willem, vem deitar te.
Ele nsiava desesperadamente por ir at ao forte, ver como Jan
go, Dborah e os rapazes executavam a fuga e onde seriam
cortadas as correntes dela, mas sabia que no podia levantar a
menor suspeita. No receava o castigo que Lhe poderia ser
aplicado se o comandante soubesse do papel que representava
naquela fuga, tinha apenas medo por Jango e Dborah e pelos
seus filhos.
Eles fugiram para as terras desrticas a nordeste do forte.
Jango, o negro de Angola; Dborah, de tez acastanhada, da
Malsia; o seu beb, Ateh, seminegro, semicastanho, e Adam e
Crisme, semicasta nhos, semibrancos. Quando j se encontravam
suficientemente afas tados da cerca de ameixieiras espinhosas,
Jango cortou as correntes da mulher, aps o que retirou as
suas; ela, porm, apanhou as, pen sando que poderiam
revelar?se teis para negociar com os Hotentotes ou os
Bosqumanos. Dessa vez conseguiram escapar.
Sobreviveram, e com o tempo os descendentes de Adam e Crisme e
milhares como eles no teriam de fugir, acorrentados, 
procura da liberdade. Teriam possibilidade de viver em lugares
como Cape Town, a Cidade do Cabo, onde acabariam por conhecer
uma servido maior, pois seriam estigmatizados como homens de
cor. Seriam acusados nos sermes dos predikants, visto serem o
testemunho vivo do facto de, nos primeiros dias, os brancos
terem coabitado com castanhos, pretos e amarelos. So a
maldio de Deus sobre ns pelos pecados que cometemos." A
terra do seu nascimento seria a ptria da sua mgoa, e no
teriam direito a qualquer lugar na sociedade, a nenhum futuro
em que acordassem.

EM 1664, uma das frotas que seguia para a Holanda trouxe ao
Cabo um inesperado viajante. Tratava se de Karel van Doom, que
trazia a excitante notcia de ter sido convocado a Amsterdo
para se tornar um dos Dezassete.
Entrou no forte com grande pompa, seguido por Komelia e pelos
seus dois filhos, vestidos com rendas e cetim. Realizaram se
celebra es, durante as quais o comandante confidenciou que
estava exausto daquele maldito Cabo e que esperava que Karel
fizesse todo o possvel por o transferir para Java.
??Van Riebeeck sentia o mesmo??disse Karel.??Este no 
certamente lugar para um homem com ambies. Mas em breve
ireis para Java.
O comandante suspirou e comeou a sonhar com o dia afortunado
em que regressaria  civilizao. Porm, uma pergunta de Karel
interrompeu Lhe os devaneios:
??Que  que se passa com o meu irmo?
Supondo que Karel se referia ao incidente do cavalo, o coman
dante respondeu Lhe:
??Como sabeis, eu tive compaixo dele e retirei?o.
??Refiro me ao facto de ele querer tomar se burgus livre.
??Nunca permitiramos que algum tomasse essa deciso por si
s??atalhou o comandante rapidamente.
??Mas no seria uma boa ideia tir lo daqui?
O comandante nunca descobriu por que motivo Karel props que
Willem fosse autorizado, at mesmo encorajado, a deixar o
forte. Devido a qualquer complicao de ordem familiar, era
vantajoso para Karel livrar se de Willem, e o meio mais
prtico de realizar esse objectivo era mand lo para as
zagaias dos Hotentotes. Foram apresentados mapas, que no
passavam de esboos quase totalmente inexactos, e Karel
desenhou uma rea a leste onde desaguava um rio que corria da
primeira cadeia de montanhas. Nesse local podia esta
belecer?se um rendoso posto fronteirio, se Willem
sobrevivesse  viagem inicial e s ameaas dos Bosqumanos e
Hotentotes.
Quando os preparativos ficaram concludos, os dois
funcionrios conVOcaram Willem, que, coxeando, se dirigiu ao
forte.
??Willem! Temos grandes novidades??anunciou Karel.
??Como est a me?
??Oh, morreu h dois anos.
??E a casa? O jardim?
??A Companhia ficou com ela. Pertncia Lhe, como sabes.
A Aliana

??Ela ... sofreu muito?
??No, morreu sem sofrimento. Ora aquilo que te queria di zer
.. Dizei?lhe vs, comandante.
O alemo disse:
??Vamos autorizar?vos a tomar?vos burgus livre. Para alm dos
planaltos. Aqui, vede no mapa.
??Era mais ou menos para onde eu decidira ir??declarou Willem
em voz baixa.
Os dois funcionrios decidiram ignorar esta evaso declarada 
sua autoridade .
??Vamos dar te sessenta r u rgen I??declarou Karel.
??No so necessrios sessenta morgen para produzir uvas.
Posso faz?lo com vinte.
??Vais t los! ??exclamou Karel. Um dos Dezassete oferecia a
um trabalhador sessenta m rg n (cinquenta e sete hectares) da
me Lhor terra, e o trabalhador levantava objeces. Aquele
Willem no tinha salvao: para Karel, a nica consequncia
agradvel daquela visita fora o saber que os dois filhos
bastardos do irmo tinham desa parecido algures no deserto.
O encontro entre Katje e sua prima Komelia foi igualmente frio
e a sagaz Katje avisou o marido:
??Eles praticaram qualquer acto incorrecto e tm vergonha de
nos ver.
Reflectiu no assunto durante algum tempo, at que uma noite,
ao jantar, fez estalar os dedos e exclamou:
??Willem, eles venderam a casa da tua me e guardaram o
dinheiro s para eles.
??Deixa?os l ficar em paz com o dinheiro??disse Willem cal
mamente.
Mas Katje era sobrinha de um mercador e irritava a pensar na
possibilidade de ela e o marido terem sido defraudados num bem
que legalmente Lhes pertncia. Nada podia fazer para obstar ao
sucedido
mas sabia que tinha razo. E tinha, de facto.
A despedida de Karel foi uma festa, com muitos e fastidiosos
discursos. O novo senhor entre os Dezassete, o primeiro a ter
tido uma longa experincia no Oriente, assegurou aos convivas
que a Companhia teria sempre em mente o bem estar do Cabo, com
estas palavras:

Unidade agrria holandesa e sul?fricana equivalente a o 556
hectares. (N.  o E.)

  Vamos arranjar mais colonos  no demasiados, nunca mais de
eim)s, para viverem aqui. Fui eu quem props a cerca de amei
espinhosas. Parece uma ideia vlida, que toma estas
instalaes confortveis, com espao suficiente para o vosso
gado e os legumes. Fui informado de que o meu irmo Willem
tenciona dirigir?se para leste, a fim de averiguar se consegue
produzir algum. vinho autntico, em vez de vinagre (risos).
Mas a sua ida no deve estabelecer um precedente. A vossa
tarefa  aqui, neste forte, que os Senhores Dezassete
decidiram reconstruir em pedra. Tal como Abrao trouxe o seu
povo para a sua nova casa e o fez prosperar, tambm vs
estabelecestes a vossa casa aqui no Cabo. Que ela prospere.
Que ela d lucro  Companhia. Para que, quando regressardes 
Holanda, possais dizer:   Misso cumprida.

Trs dias aps a partida de Karel para Amsterdo e para os
seus deveres como um dos Dezassete, Willem comeou a carregar
a sua carroa. Depois de arranjar espao para Katje e seu
filho, Marthinus, condicionou no veculo algumas cepas de
videira, vrias ferramentas que retirara d oficina do
ferreiro, todos os utenslios domsticos queridos por Katje e
dois objectos que considerava de suprema importncia: a Bblia
encadernada a couro, com os seus fechos metlicos, e a panela
castanho?dourada na qual cozinhava os seus pudins po. Sem
eles, uma casa no deserto seria insuportvel. Enquanto
carregava a carroa. ouvia Katje desfiar uma lamria
incessante: Ests a levar demasiadas videiras ... Nunca
hs?de precizar  desse formo ..." E ter se ia insurgido e
irritado contra esta torrente de palavras no fora um facto;
habituara se a amar aquela mulher petulante e difcil, pois
constatara que, quando os interesses
militares estavam em causa, ela transformava se numa leoa, e
pressentia quo valiosa seria no interior. Antes de atingir o
trilho, a carroa tinha de atravessar a cerca de neixieiras
espinhosas. Em vez de descer pela estrada da herdade at
sada, passando pelo forte, Willem derrubou  machadada quatro
rvores, abrindo o seu prprio caminho. Quando os espias do
comandante Lhe relataram este vandalismo, esperavam v?lo
ordenar a ao de Willem, mas o comandante sabia uma coisa que
os espias ravam: o ilustre comissrio Karel van Doorn queria
ver o seu conflituoso irmo perdido no deserto. ??Deix los
ir??foi o comentrio sombrio do comandante, enquanto Willem e
os seus se dirigiam para mais vastos territrios.
Os trekboers

1hh4?1X

f.``'?   LLEM e Katje van Doom seguiram viagem com seu filho,
Marthinus, at chegarem a um rio bordejado por vastas
pastagens e protegido pelos montes circundantes. Construram
uma casa agrcola com adobe e varas entretecidas, de tal modo
encostada ao monte que se erguia por detrs dela que parecia
l ter estado sempre. A sua fachada ocidental dava para a
montanha da Mesa, apenas visvel no horizonte distante.
Willem criou uma herdade, plantou uma nova vinha e tratou de
ambas com cuidado, nunca se queixando da dor que o fazia
coxear e sempre pronto a auxiliar qualquer recm chegado que
tivesse acabado com o Cabo  a fixar se na rea. Aqueles
industriosos camponeses comearam a ser chamados Beres,
palavra que em holand significa lavradores. A sua colnia
tornou se mais tarde conhecida como Stellenbosch.
Cada colono possua o seu contingente de criados hotentotes e
mestios, que tratavam das vinhas, serviam as refeies e
cuidavam das crianas, ralhando Lhes quando necessrio na
linguagem que iam formando: uma mistura de palavras e sons
holandeses, malaios, portugueses e hotentotes que reflectiam
as suas diferentes provenincias. Willem esforou se sempre
por conseguir relaes pacficas entre as raas. Uma vez um
vizinho repreendeu o, dizendo: ??J no sois um bom holands.
??Tambm j tenho pensado nisso??retrucou Willem.??Suponho que
sou um fricander. Um homem de frica.
Era a primeira vez que esta designao era usada, e nunca
seria aplicada com maior propriedade. Mais tarde, quando
chegou o dia em que a persistente doena pulmonar de Willem,
exacerbada pelas horas passadas no cavalo de pau, o atacou
pela ltima vez e o deixou moribundo, ele aconselhou os seus
netos a nunca guerrearem os Hotentotes, mas a partilharem a
frica com eles em paz.
Os Van Doorns tomar?se iam uma das mais poderosas famlias
beres na histria turbulenta da frica do Sul. O primeiro dos
descendentes de Willem a assemelhar se Lhe em carcter foi um
neto, Hendrik. Em 1702, depois de seu pai, Marthinus, ter sido
morto pela

. .

seta envenenada de um bosqumano, Hendrik carregou o seu
carroo??no qual acondicionou, cuidadosamente embrulhadas, a
Bblia e a panela castanho?dourada de Willem??com o
equipamento ne cessrio para uma vida no veld sul?fricano.
Deixando a herdade e os vinhedos da famlia em Stellenbosch,
partiu para leste, tal como o velho Willem fizera anos atrs;
a diferena residia no facto de Hen drik viajar sem mulher.
Hendrik van Doorn tornou?se assim um trekboer! um desses pas
readores errantes que avanaram para leste atravs de
territrio vir gem ao passo vagaroso de um boi. Atravessou
montanhas, reduzindo carroo a peas e transportando as, uma
a uma, sobre precipcios, para em seguida novamente o montar a
fim de empreender as descidas tortuosas at aos vales.
Prosseguiu no seu carroo at chegar a
rio onde guarda rios azuis mergulhavam em direco  gua
cristalina, e quando viu boas pastagens nas proximidades soube
que chegara ao seu temporrio lar.
Durante os primeiros anos apascentou o seu gado, bovino e
ovino, viveu na mais miservel cabana de adobe e canios e
partilhou o seu alimento com o escravo e as duas famlias
hotentotes que o ha viam acompanhado. Ano sim, ano no, levava
parte do seu gado a uma estao de compras da Companhia, onde
adquiria as provises necessrias para os dois anos seguintes.
Em seguida, desaparecia, pois apreciava a liberdade que
alcanara e receava um contacto mais assduo com os
comerciantes do Cabo.
No quarto ano ocorreu uma seca, espalhando o terror, esgotando
rio sobre o qual os pssaros danavam e destruindo as
pastagens. Os Hotentotes avanaram, ao longo de um percurso de
noventa quilmetros, at chegarem junto de um grande poo que
continha alguma gua, e a Hendrik permaneceu com dois outros
trekboers.  uando as chuvas finalmente chegaram, regressou ao
seu rio; mas
nunca voltou a ser o mesmo, pois durante a noite, quando se
sentava
fogueira com o seu escravo e os Hotentotes, experimentava uma
sensao de desassossego, de solido. Nunca Lhe ocorreu que
esta sensao poderia abandon lo se se casasse.
Em 1707, quando regressava a casa de uma jornada at  estao
compraS, Hendrik no ficou satisfeito ao ver outro carroo ao

' Resultado da aglutinao das palavras boer??os sul?fricanos
descendentes de olandese  huguenotes??e trek??a jomada em
carroo puxado a boi ou migrao Iganizad.a de um grupo de
colonos. (N do E.)
A Alian ao

lado do seu. Um homem avanou para ele, de mo estendida.
Tambm ele enfrentara as montanhas e carregara o carroo pea
a pea na descida de precipcios, mas trazia mulheres
consigo??uma esposa de cara encovada e uma filha de tranas
chamada Johanna Hendrik tinha ento vinte e seis anos, a jovem
dezasseis, e durante os trs meses em que a famlia itinerante
permaneceu na cabana ele ficou apaixonado por ela. Ela era
magra como uma haste de salgueiro, mas uma trabalhadora
enrgica, e era ela quem mantinha unida a famlia, pOiS O pai
era um indeciso e a me queixava se continua mente. Era
Johanna quem remendava as roupas e cozinhava. Mesmo a pior das
carnes se tornava aceitvel quando ela a temperava com as
especiarias preparadas pelos Malaios no Cabo.
Uma noite, aps uma saborosa ceia de bifes de antlope, o pai
dela disse:
??Amanha partimos.
Mas Johanna no queria ir. A beira do deserto, encontrara um
homem, robusto, amvel e capaz, e embora ele nada tivesse dito
ou feito que revelasse o interesse que nutria por ela, sentia
que, se pu desse permanecer com ele um pouco mais, encontraria
maneira de o encoraJar.
Consequentemente, depois de Hendrik se ter ido deitar, ela
segredou aos pais:
??Eu gostava de ficar aqui com Hendrik.
Os pais ficaram fora de si.
??E deixavas?nos ss? Quem nos ajudaria?
Discutiram com a filha, suplicando Lhe que partisse com eles,
at que ela, lavada em lgrimas, Lhes declarou que o faria.
Quando
porm, ficou s, dirigiu?se em silncio  cama dele e
acordou?o.
??E a nossa ltima noite. Vamos passear ao luar??disse.
Tremendo de excitao, ele enfiou as calas e saiu da cabana
com Johanna. Quando chegaram aonde ningum, alm dos
ruminantes, os ouviria, ela disse?lhe:
??Eu no quero ir?me embora.
??Ficavas aqui'? Comigo?
??Ficava. ??Sentindo?o tremer, acrescentou:??Mas os meus pais
precisam de mim. No sero capazes de sobreviver sem mim.
??Eu preciso de ti!??explodiu ele, e ante esta veemncia ela
esqueceu qualquer reticncia virginal e abraou?o. Amaram?se
desastradamente, conscientes da sua inexperincia, mas
igualmente conscientes do carinho, do amor e da paixo que
punham no acto.

Finalmente, ela segredou:
??Quero que te lembres de mim.
??Eu no te deixo ir. Preciso de ti.
Ela queria ouvir aquelas palavras tranquilizantes, queria
saber, na espera da partida, que fora capaz de inspirar tais
sentimentos a um homem. Porm, Hendrik declarou em voz alta:
??Vou falar com o teu pai.
Receando uma confrontao, ela objectou:
??No vs, Hendrik!
Era demasiado tarde. O robusto trekboer avanou para a cabana,
acordou o par adormecido e disse:
??Vou ficar com a vossa filha.
Seguiram se lgrimas, acusaes e splicas, mas quando a manha
raiou e a famlia se preparou para retomar a viagem, Johanna
colocou?se ao lado de Hendrik e pegou Lhe na mo. Era um
momento solene, sem qualquer ministro que outorgasse a
aprovao da sociedade. No houve discursos, nem preces, nem
velhos hinos. O pai e a me da jovem tinham  sua frente uma
perigosa travessia de montanha
e levavam apenas quatro bois, uma pequena carroa e um criado.
As hipteses de algum dia regressarem para ver a filha
pareciam reduzidas.
O criado agitou o seu chicote de pele de hipoptamo, os bois
avanaram e o velho casal iniciou a sua viagem solitria.

Nos dezasseis anos que se seguiram a este informal casamento,
Johanna deu  luz nove crianas. Duas morreram, uma mordida
por uma cobra amarela do Cabo, outra vitimada por uma
pneumonia; mas os outros filhos corriam pelas cabanas e pelos
montes. Johanna cozinhava varria, cosia roupas para todos e
mantinha a periclitante casa numa ordem razovel.
E ento, em 1724, verificou?se a mais grave seca que Hendrik
conhecera  Nessa altura, tinha ele quatrocentos bovinos e o
triplo de
  caprinos  e compreendeu que as terras exauridas J os no
podiam
I alimentar At a modesta horta de Johanna secara, e uma noite
Hen drik aconselhou todo o seu cla a ajoelhar e rezar. Rodeado
por trinta e cinco suplicantes??os oito membros da sua
famlia, vinte e dois ?hotentotes e uma famlia de cinco
escravos??, pediu chuva. Noite aps noite, repetiu as suas
preces, mas a chuva no veio. Vendo o seu gado a ficar
esqueltico, Hendrik disse uma noite a Johanna, ao enfiar se
na cama:
A Aliana

??Creio que Deus quer que sigamos para leste. Talvez cem,
cento e vinte quilmetros.
??Estou pronta??declarou ela.
De entre as crianas, o seu filho Adriaan foi quem mais
entusiasticamente recebeu a notcia da mudana. Era um rapaz
cheio de vivacidade, magro e rpido como sua me. Completara
os doze anos era iletrado no que respeitava a condio
livresca, mas bom conhecedor do veld sul fricano. Possua
conhecimentos sobre gado e a cultura do milho, era exmio em
encontrar rastos de carneiros desaparecidos e conhecia a
linguagem dos escravos de sua famlia e dos Hotentotes.
Deleitava se no conhecimento e contemplao do mundo que o
rodeava. As vezes, quando corria pelo veld e encontrava um
aglomerado de prteas, com flores grandes como a sua cabea,
saltava de alegria ao v las segredar entre si. Mas o seu
maior prazer : consistia em passear sozinho, para leste ou
para norte, em direco
s vastas terras desrticas que o chamavam.  :
O outro rapaz que ficou encantado com a notcia da caminhada
para leste foi o semi hotentote Dikkop, procriado, dezanove
anos antes, por um caador de cor que dormira com uma das
criadas de Hendrik. Sete anos mais velho do que Adriaan, mas
parecendo mais novo que o seu amigo, Dikkop tinha uma tez
castanho clara e possua uma natureza tmida, que se
manifestava no amor que nutria pelas crianas Van Doorn,
especialmente por Adriaan. Depois de a famlia se mudar para
leste, ele e Adriaan teriam liberdade para explorar terras que
poucos at ento haviam visto. Nada poderia ter agradado mais
a Dikkop, que de boa vontade ajudou a carregar os carroes.
Na sua avanada atravs de territrio desconhecido, os Van
Doorns levaram consigo a famlia escrava, duas grandes
famlias de hotentotes, mais de mil carneiros, quatrocentos
bovinos e dois grupos de bois de traco, cada um dos quais
com dezasseis animais. Johanna levou consigo uma reduzida
coleco de utenslios de cozinha, cinco colheres, duas facas,
mas nenhum garfo. Hendrik tinha a Bblia de capa de couro,
algumas ferramentas e a panela castanhodourada, na qual, em
ocasies festivas, confeccionava pudim de po para a famlia.
Era o nico do grupo que sabia ler, e quando reunia todos para
a orao da noite abria a Bblia sobre os joelhos e lia?a com
um forte sotaque holands.
Os trekboers percorriam apenas curtas distncias por dia: oito
quilmetros j era considerado uma jornada satisfatria. E
quando

encontravam um local adequado, a caravana permanecia nele trs
ou quatrO dias, aproveitando a gua doce e uma boa pastagem.
Decorri das trs semanas, quando j tinham percorrido cerca de
cem quilme tros. Hendrik e Johanna subiram a uma pequena
elevao para ob servarem uma vasta extenso de pastagens.
?? importavas?te, Johanna, se escolhssemos este
lugar???Durante a sua vida em comum ela fora to presciente em
avis lo de armadilhas que ele confiava nela para detectar
inconvenientes que Lhe passassem despercebidos.
No vejo qualquer dificuldade??respondeu ela.
??Deus seja louvado!??gritou Hendrik. E imediatamente avanou
a passos largos para marcar os limites do terreno que
reivindicaria. Sentia se cativado pelas montanhas a norte, que
bordejavam as belas plancies em que se ergueriam as grandes
herdades do futuro. E experimentava um sentimento de
identificao com aquela terra sem obstculos como at ento
nunca sentira. Ali, em dois mil e quinhentos hectares de
prometedoras pastagens, construiria a sua nova her dade .
Os trs meses seguintes, de Abril a Junho de 1724, foram um
tempo de extraordinrio esforo, uma vez que a herdade tinha
de ficar em condies operacionais antes de Julho, o incio do
Inverno. Foi construdo um curral de adobe e pedra para alojar
os preciosos animais, foram plantadas rvores e cultivada uma
pequena horta. Foi lavrado um grande campo de milho, que
ficaria de pousio at  plantao na Primavera. Em seguida,
chegou a altura de construir a ca `bana familiar.
Hendrik traou um rectangulo de doze metros por seis, que em
seguida nivelou com uma mistura de barro e bosta. Nos quatro
cantos foram enterradas no solo altas e flexveis estacas, que
depois foram dobradas na direco umas das outras e atadas em
conjunto. Uma grossa trave de doze metros juntou se s
estacas, formando a viga mestra do telhado. As paredes da
cabana, que se arqueavam a partir da linha da base, eram
formadas por varas e canios fortes entretecidos com palha. A
meio de uma das paredes abria?se uma porta grosseira, mas as
restantes no apresentavam qualquer abertura
e no havia uma nica janela.
: A casa no tinha qualquer moblia,  excepo de uma mesa
comprida executada pelos escravos, e assentos baixos,
semelhantes a bancos, feitos de paus cruzados e tiras de
couro. Sobre as arcas, que continham roupa e outros pertences,
amontoavam se pratos, tachos e a panela do pudim. As crianas
dormiam sobre pilhas de peles amaciadas e os pais numa cama no
canto oposto: quatro ps de sessenta centmetros ligados entre
si por canios e tiras de couro cruzadas.
o tosco domiclio dos trekboers era chamado hartbees?huisiel,
e as origens contraditrias sugeridas para o nome demonstram
os processos atravs dos quais se formava a nova lngua da
colnia. Hartbees era o bubal, antlope de focinho estreito e
chifres anelados to vulgar no veld, mas no havia qualquer
razo lgica para que este encantador animal que corria pelos
espaos livres emprestasse o seu nome a uma residncia
acanhada. Segundo uma explicao mais aceitvel, a palavra
seria uma corruptela do termo hotentote harub ??esteira de
junco??e do vocbulo holands huisje?? pequena casa. No
entanto, a casa do bubal permaneceu como smbolo da grande
distncia que aqueles holandeses percorreram fsica e
espiritualmente, tanto a partir da colnia do Cabo como dos
seus progenitores na Holanda.
o primeiro Inverno foi difcil, com poucos alimentos em
armazm e nenhum cultivado, mas os homens exploraram os montes
e trouxeram grandes quantidades de cabras?de?leque e
guelengues. Johanna cortava a carne em pequenas fatias,
juntava?lhe algumas cebolas, um pouco de farinha e uma pitada
de caril. Hendrik reduzia frutos selvagens, quer sumarentos,
quer secos, a chutney, e a famlia alimentava?se bem.
Em Novembro de 1724, Dikkop e Adriaan partiram numa jornada
que havia muito planeavam. Era o fim da Primavera naquelas
latitudes, quando as flores das prteas desabrochavam como
grandes luas douradas. Partiram para leste, levando duas
espingardas, duas facas, um embrulho de carne seca e toda a
sua coragem. Dirigiam?se para regies de selva com lees,
hipoptamos, elefantes e antlopes em quantidades
incalculveis. E no fim, se sobrevivessem, regressariam sem
nada trazer como testemunho da viagem seno histrias de
penhascos abruptos penosamente transpostos e de rios
caudalosos atravessados a nado.
Adriaan era notvel a encontrar recursos e meios de defesa em
zonas selvagens, no receava um confronto com qualquer animal,
por maior e mais poderoso que este fosse, e vivia intensamente
todas as sensaes que se Lhe deparavam. Se o seu av Willem
fora o
primeiro fricander, ele era o segundo, pois amava aquele
continente com extraordinria devoo. Fazia parte dele;
palpitava com os seus estmulos. vivia com as suas rvores, os
seus arbustos e as suas aves; e se no sabia ler livras, sabia
inegavelmente ler os documentos da Natureza que o rodeavam.
os rapazes no tinham tenda nem cobertores. De noite, Dikkop,
utilizando um conhecimento com mais de dez mil anos, ensinou
Adriaan a abrir uma cavidade na terra para se deitarem e a
colocar arbustos atrs de si que quebrassem a fora do vento.
Tambm dormiam sobre rvores e bebiam qualquer gua que
encontrassem. Comiam bagas silvestres, frutos secos, razes,
um ocasional peixe de rio que conseguiam pescar e encontravam
carne em abundncia sempre que a desejavam.
orientavam?se pelas estrelas, trepando s rvores para
observar reas longnquas, mantendo?se a uma distncia
intermdia em relao s montanhas a norte e ao oceano a sul.
Desta forma, percorreram mais de duzentos e cinquenta
quilmetros para leste. Nesse Vero de 1725, permaneceram duas
semanas nas margens de um rio, explorando?o de norte a sul.
Nos anos subsequentes, Adriaan perguntaria frequentemente a
Dikkop: Qual pensas que era o nome daquele rio?... onde
ficmos daquela vez sem fazer nada? Mas nunca puderam
concluir que rio teria sido, e por vezes Adriaan observava:
Pergunto a mim mesmo se ter sido verdade. Talvez tenhamos
sonhado
Dm esse rio. Foram comentrios como este, ouvidos par homens
natureza prtica, que Lhe valeram o nome de Mal Adriaan ??
r Adriaan, o Louco. Adriaan, o Tolo. Adriaan, o Doido, que
dorme sobre as rvores.
As jornadas da juventude marcam um homem, revelando?lhe
possibilidades que os outros nunca vem, descobrindo
potnciais que confundem a mente juvenil. No cimo de uma
rvore, um rapaz de doze anos contempla uma paisagem estranha,
observa uma leoa dei
  tada  espera de apanhar um antlope e v uma zebra surgir
despreoCupadamente na zona da contenda. o antlope salva?se
quando a leoa salta sobre o dorso da zebra, quebrando?lhe o
pescoo com uma terrvel patada e uma mordidela. Mal Adriaan,
o rapaz que sabe como  nsa um leo.
A meio da sua jornada, quando chegara a altura do regresso,
ocorreu um incidente que, de uma forma tranquila, simbolizou a
histria dessa regio nos duzentos e cinquenta anos seguintes.
Adriaan e
ikkop, o branco e o mestio, seguiam ao acaso ao longo de uma
A Aliana

zona mais baixa quando, subitamente, Dikkop se deteve, ergueu
a cabea, apontou para leste e disse: Pessoas!
Instintivamente, os dois rapazes ocultaram?se. Viram avanar.
d., extremidade da zona baixa, dois homens novos, altos e de
um n...!r reluzente. Usavam apenas tangas, traziam paus e
zagaias e em torno de um tornozelo exibiam uma pulseira de
delicadas penas azuis. Avanavam a passo moderado, que em
breve os colocaria face a eles com os observadores escondidos.
A situao era tensa. Segundo todas as probabilidades, os
recm?chegados descobririam os estranhos, e no era possvel
prever o que sucederia. Dikkop tremia de apreenso, mas
Adriaan inspirou profundamente e depois chamou em voz suave os
dois negros. Quando eles o olharam, estupefactos, ele avanou
lentamente, estendendo as mos vazias num gesto tranquilizador
e dizendo em holands: Bom dia.
os dois negros ergueram automaticamente os seus paus, mas
nessa altura Dikkop avanou, erguendo as mos de dedos
estendidos e gritando: No! No! Aps um longo momento de
expectativa, durante o qual Dikkop quase sucumbiu ao pavor, os
estranhos baixaram os paus.
Nesse momento de 172S, Adriaan tornou?se o primeiro membro da
famlia Van Doorn a conhecer um negro sul?fricano. Claro que,
nos primeiros dias passados no Cabo, homens como o comandante
Riebeeck tinham possudo escravos negros, mas de Madagscar,
Angola e Moambique, nunca dos vastos territrios fricanos
situados a leste. Willem van Doom desembarcara no Cabo em
1647, e nos setenta e oito anos seguintes os Holandeses
tinham?se comprometido a instalar?se em quaisquer territrios
novos que encontrassem. Presumiram que seria seu tudo quanto
desejassem daquele continente, e pouca ateno prestaram aos
diversos relatrios de marinheiros naufragados e dos
Hotentotes segundo os quais existia a leste uma sociedade
negra.
os negros fricanos eram to diferentes dos pequenos
Bosqumanos e dos Hotentotes que pareciam no ter qualquer
relao com eles. A medida que o homem primitivo, que se
desenvolvera numa grande parte de frica, se transformava no
homem moderno, um ramo estabeleceu?se perto do equador, onde o
sol Lhe outorgou a pele negra, que representava uma proteco
contra os raios castigadores. Nenhum ser de pele branca
poderia ter sobrevivido por muito tempo nessas regies
escaldantes, tal como os homens com pele fortemente

I 1 8
A Aliana

pigmentada se encontrariam em grave desvantagem nas regies
setentrionais, onde os parcimoniosos raios de sol se ocultavam
cuidadosamente.
??Sotopo??disse o negro mais novo quando declinaram os nomes.
E continuou, informando que vinha de muito longe, de leste, a
muitos dias de viagem.
Como o disse? Nem uma nica palavra da lngua usada por Sotopo
e seu irmo Mandiso era inteligvel aos dois rapazes e nada do
que Adriaan e Dikkop disseram foi inteligvel aos seus
interlocutores, mas todos conversaram como o fazem seres
humanos em sociedades fronteirias, por meio de gestos,
pantomima, sons guturais e risadas. No entanto, os negros eram
demasiado espertos para acreditarem em Dikkop quando este Lhes
declarou que, com o pau que levava, podia caar um antlope
para o jantar. Assim, os quatro rapazes arrastaram?se
silenciosamente at  orla da zona baixa, onde em breve
descobriram uma manada de cabras?de?leque que passeava ao
longo do veld. Dikkop colocou?se em posio, apontou a um
macho de aspecto saudvel e disparou. os dois jovens negros
gritaram de pavor quando ouviram a detonao, mas ficaram
maravilhados ao verem o animal cair e ser recolhido por
Dikkop.
os quatro passaram juntos vrios dias, dormindo de noite em
rvores diferentes, com Dikkop num estado prximo da exausto
devido ao medo que ainda o no abandonara. os negros eram to
corpulentos, to poderosamente musculados, que no conseguia
evitar Imagin?los a agredirem?nos com os paus na cabea.
Consequentemente, no se sentiu infeliz quando a acidental
sociedade mostrou sinais de se ir dissolver: os negros
explicaram que precisavam de seguir de novo para leste, uma
caminhada de dezoito dias. Dikkop declarou com alvio que ele
e Adriaan tinham de seguir para oeste
mais de trinta dias de viagem.
A separao processou?se sem grande emoo, mas todos sentiram
que viviam um momento importante. Sem trocarem qualquer aperto
de mo, os dois pares entreolharam?se intensamente em silncio
pela ltima vez. Depois, como que a resumir a histria, que
despontava, daqueles grupos raciais, Sotopo estendeu a mo
para agarrar Adriaan por um brao. o holands assustou?se com
o inesperado movimento e recuou impensada e precipitadamente.
Quando recuperou a percepo, quis aceitar o toque de
despedida. Sotopo recuara, mortificado por o seu gesto de
amizade ter sido rejeitado. Dikkop, o jovem mestio,
manteve?se  parte.

os dois negros afastaram?se primeiro, mas na extremidade
oriental da clareira pararam para observar os estranhos a
caminhar para oeste, levando ao ombro os seus miraculosos paus
de fogo. Quando as duas figuras se desvaneceram  distncia,
os dois viajantes negros voltaram?se na direco da sua
aldeia. Eram xosas, membros da grande e poderosa tribo que
vivia para alm do Grande Rio dos Pixes.
o povo xosa tomara o nome de um chefe de tribo que governara
cerca de 1500. Entre as muitas realizaes que haviam levado a
cabo, os Xosas tinham?se apossado da encantadora cadeia de
vales que na altura ocupavam entre as montanhas e as praias do
oceano Indico Durante centenas de anos tinham?se deslocado ao
acaso para sul e para oeste, seduzidos por uma sucesso de
terras de pastagens desocupadas, aplanadas pela passagem de
outras tribos negras. Haviam viajado  razo de apenas
duzentos quilmetros por sculo, embora nos ltimos tempos
tivessem acelerado o ritmo, pois a sua populao, e
especialmente as suas manadas, tinha aumentado. Poderia
esperar?se que atingissem o Cabo, e o termo da sua expanso,
cerca de 2025. Simplesmente, os Holandeses haviam ocupado o
Cabo e comeado a sua prpria expanso para leste. Aps o
encontro daqueles quatro jovens de raas diferentes, seria de
esperar que os trekboers e os Xosas viessem um dia a
encontrar?se frente a frente e que esse encontro tivesse
provavelmente lugar algures ao longo do grande rio.
o grande rgulo dos Xosas vivia muito para leste, num vale
inusitadamente bem protegido. Todas as tribos Lhe deviam
submisso, embora os seus poderes efectivos sobre elas se
limitassem  primazia nos festejos e batuques e  determinao
dos direitos da famlia real,  qual pertnciam todos os sobas
do grupo tribal. As tribos constitutivas estavam organizadas
geograficamente, sendo a de Sotopo a que ficava mais a oeste.
oS chefes tribais nomeavam os dos vrios clas, ou
vizinhanas", que eram suficientemente populosos para
permitir que os seus membros se casassem entre si. As
vizinhanas divi diam?se em aldeias, entre cujos membros o
casamento era interdito.  o pai de Sotopo, Makubele, era o
chefe de uma aldeia. A sua famlia  integrava quarenta e um
membros.
Dizer que o pai de Sotopo possu a uma colina arborizada consi
deravelmente afastada do mar causaria confuso, porque ninguem
possua qualquer parte do territrio. Makubele tinha muito
gado bovino e podia muito bem tornar?se o prximo soba. Mas a
terra existia
A Aliana

para sempre e para todos e era distribuda temporariamente, de
acordo com as ordens emitidas pelo soba da tribo e pelo chefe
mais velho .
Quando se verificava uma disputa acerca da sucesso ou uma
aldeia se tornava sobrepovoada, os que se sentiam prejudicados
limitavam?se a mudar?se. Se uma aldeia inteira decidisse
mudar?se para oeste, como frequentemente sucedia, a terra era
deixada livremente para que outros a ocupassem. o seu povo
instalava?se em qualquer outro vale e a vida continuava como
sempre, regida pelos mesmos padres imutveis. Terra sem
limites, representava tudo quanto era necessrio para garantir
a felicidade.
No obstante os Xosas serem um povo pacfico, verificavam?se
frequentemente recontros com os Hotentotes. Alguns membros
deste ltimo povo conquistado aliaram?se com os Xosas e
verificaram?se casamentos entre estes e os Hotentotes, alguns
dos quais chegaram mesmo a atingir posies de relevo dentro
da hierarquia xosa. Esta interaco prosseguiu ao longo de
muitos sculos, e uma das heranas mais duradouras foi uma
lngua comum. os Xosas tomaram dos Hotentotes os sons de
estalido, que passaram a distinguir a sua fala da de qualquer
outra das tribos negras do Sul.
Embora no fizessem guerra em grande escala, nenhum guerreiro
xosa hesitava em pegar nas suas zagaias para defender o seu
gado ou, se via uma boa oportunidade, capturar o do seu
vizinho. Roubar gado era o passatempo generalizado, pois a
reputao de um homem dependia em grande parte do nmero de
cabeas de gado que o mesmo possusse; e o bom nome de uma
aldeia como a de Sotopo resultava quase inteiramente do nmero
de vacas, bois e touros que nela existisse.
Pouco tempo depois de Sotopo e Mandiso terem regressado  sua
aldeia, o pai deles decidiu que esta se devia mudar.
Consequentemente, os seus membros juntaram?se a um grupo
errante xosa que seguia para a margem oriental do Grande Rio
dos Peixes. Esta terra foi escolhida devido s vastas
pastagens que se estendiam profusamente na margem ocidental.
??Vamos usar aqueles campos??disse Makubele??para o gado, que
gosta de andar  solta.
obedecendo a essa venervel tradio de se mudarem para novos
territrios, os Xosas iniciaram inadvertidamente um movimento
para oeste que os levaria ao conflito directo com os trekboers
holandeses, que avanavam para leste. Estes dois grandes povos
apresentavam

semelhanas: ambos apreciavam o seu gado, ambos mediam a
importncia de um homem pelos rebanhos e manadas que o mesmo
possua; ambos procuravam pastagens sem limites, e ambos
entendiam que qualquer pastagem Lhes pertncia por direito
divino. Uma confrontao titanica tornou?se inevitvel.
QuANdo, decorridos quatro meses, regressaram a casa da sua
viagem, Adriaan e Dikkop verificaram que tambm Hendrik
empreendera uma jornada de seis semanas para norte, a fim de
trocar gado com os Hotentotes. Trouxera duzentos belos
animais, a maior adio que jamais fizera  sua manada.
Adriaan acompanhou?o, a cavalo, at s terras de pastagem.
??Deus tem sido bom para ns??disse Hendrik. ??Toda a terra
que  Canaa Ele no?la deu e s geraes que nos
seguirem.?Permaneceram durante longo tempo sobre as garupas
dos cavalos, deleitando?se na observao do seu gado, com os
coraes inundados de alegria.
Em menos de um ano, os Van Doorns haviam criado uma herdade
estvel de dois mil e quinhentos hectares, to afastada de
qualquer vizinho que uma intruso era improvvel. Naquela zona
pouco se ouvia falar da Companhia. A herdade ficava to
distante do quartel?general??duzentos e sessenta quilmetros
em linha recta, mais cento e trinta utilizando os trilhos
sobre as montanhas??que nenhum funcionrio poderia facilmente
alcan?la . Nenhum predikant alguma vez aparecera para
celebrar casamentos e baptizados, e obviamente nenhum cobrador
de impostos. No obstante, mantinha?se uma espcie de
superviso distante. Um funcionrio da Companhia que
atravessara as montanhas escrevera, aps o seu regresso ao
Cabo, nos seguintes termos:

Por onde quer que passasse, ouvi falar de holandeses que
ocupavam estupendas herdades. Rooi van Valck ao norte, Hendrik
van Doorn a leste. Apascentam o seu gado na nossa terra sem
que a Companhia aufira qualquer benefcio. Recomendo que todo
o homem que ocupar uma herdade pague  Companhia uma taxa
anual de doze moedas de prata, mais uma dzima do que a
colheita  roduzir.

A lei que estipulava a cobrana de uma percentagem sobre os
lucros das herdades foi promulgada. mas raramente podia ser
aplica?
A Aliana

da. os lavradores distantes foram instrudos no sentido de
levarem o seu imposto quer ao Cabo, quer a Stellenbosch, mas
limitaram?se a esquecer a lei. Nas herdades prximas, os
funcionrios apresentavam?se corajosamente a cavalo no
solstcio do Inverno, a fim de exigirem a contribuio em
atraso, mas nenhum cobrador se atrevia a aproximar se dos
domnios dos proscritos, com receio de apanhar um tiro.
Nesses anos, Adriaan pouco se preocupou com cobradores de
impostos; estava to ocupado em aumentar o seu conhecimento da
vida selvagem que se passavam semanas sem que ele fosse visto
na herdade. Foi ento que a alcunha de Mal Adriaan Lhe foi
definitivamente aplicada. Ele regressava a casa, vindo de uma
das suas exploraes, e dizia: Estava eu a dormir numa rvore
.. ou ento: Vinha eu a sair do charco do hipoptamo, ou
ainda: Durante os dias em que vivi com os guelengues ...
Uma noite, estava Adriaan, ento com vinte anos, sentado do
lado de fora da cabana com sua me quando subitamente esta Lhe
disse:
??Tens de arranjar uma mulher. ouvi dizer que Rooi van Valck
tem uma quantidade de filhas. Monta a cavalo, parte para casa
dele e vai arranjar uma.
??Tambm se diz que Rooi  um tipo sem escrpulos que diz mal
da Bblia.
??Bem??disse Johanna em voz baixa. ?? possvel levar a Bblia
demasiado a srio. Eu prpria no a sei ler, porque nunca
aprendi, mas as vezes acho que o teu pai se comporta como um
tolo andando  procura de instrues nesse livro. Se Rooi van
Valck tem uma filha e se ela parecer ser boa na cama,
agarra?a. ??Adriaan permaneceu em silncio. Educado como fora
na f absoluta da Bblia, aquelas ideias chocavam?no. A me
acrescentou: ??Viver numa cabana de bubal no  um paraso.
No  muito melhor do que o que os Hotentotes tm. Mas amar o
teu pai e ir com ele para a cama quando vocs, as crianas,
esto a dormir pode ser o bastante para dar alento  vida.
??Bruscamente, f?lo dar meia volta, obrigando?o a fix?la nos
olhos na escurido, e segredou em tom incisivo:??E no te
esqueas. Partes para a herdade de Van Valck ao nascer do Sol.
Na manha seguinte, Mal Adriaan pegou no seu cavalo pardo e
cavalgou para norte, atravs de plancies desrticas, atravs
do lamacento rio Touws, e inflectiu para oeste at distinguir
as colunas de
poeira que significavam um povoado. Era o pequeno imprio de
Rooi van Valck. Para chegar s casas de bubal nas quais Rooi
habitava com a sua famlia, tinha de atravessar vales onde
viviam vinte mil carneiros e sete mil bovinos. Quando chegou 
cabana de Rooi e declinou o seu nome a Mevrouw van Valck, ela
convidou?o a sentar?se
?? Aposto que vieste arranjar mulher??observou jocosamente.
No  verdade, Van Doorn???E antes que ele conseguisse dominar
o rubor que Lhe aflorou ao rosto, ela continuou
imperturbavelment..: ??? Tenho uma boa para ti.??E fez avanar
uma das filhas, uma jovem de cerca de quinze anos com cabelo
ruivo que Lhe chegava  cintura.
A jovem estendeu as mos e saudou?o:
??ol. Chamo?me Seena.
??onde est o teu pai???perguntou Adriaan.
??L fora, a matar bosqumanos que nos roubaram algum gado
respondeu ela.??A minha me tinha razo? Ests  procura de
mulher?
Nesse preciso momento, chegou Rooi, vindo da caa aos ladres
de gado. Era um homem corpulento, cuja flamejante cabeleira
ruiva Lhe valera a alcunha de Rooi. o seu verdadeiro nome era
Rupertus van  'alck, de uma famlia que se instalara havia
muito no Cabo. Rooi era um homem que inspirava terror, que no
se submetia ao controle de ningum, fosse o governador do
Cabo, os Dezassete ou o prprio Deus. Na realidade, durante
duas geraes nenhum Van Valck fora legalmente casado, e nesta
gerao nenhum o queria ser. Em casa de Rooi no havia
Bblias.
Foi nesta atmosfera irreligiosa que Seena e Adriaan se
tornaram marido e mulher, apenas por partilharem a mesma cama.

ADRiAN regressou com Seena s casas de bubal dos Van Doorns, e
com o tempo tiveram quatro filhos, que revelaram sintomas de
virem a tornar se cpias fiis quer do seu erradio pai, quer
da sua rui a mae Parecia provvel que, tal como os seus
progenitores, se tornassem nmadas em terras
inexploradas??iletrados, desdenhosos  da autoridade da
Companhia e integrando?se com prazer numa vida
essncialmente ligada  terra.
Ao fim de poucos anos, jovens desconhecidos surgiram para
cortejar as raparigas, aps o que partiram para leste a fim de
construrem as suas prprias herdades, ultrapassando aqueles
dois mil e qui
A Aliana

nhentos hectares que, em sua opinio, Lhes pertenceriam sempre
pordireito. A terra que existe para alm no tem limites ,
proclamavam os trekboers. Podemos continuar a avanar para
leste e para nrte at encontrammos o oceano Indico. ,
??E claro??observava Adriaan sempre que ouvia este gner de
conversa??, mas mais cedo ou mais tarde vo ter de enfrentar
os Xosas .
??  quem alaDo so eles? ??perguntavam os trekboers recm
?chegados.
??Negros. Esto alm, para l do Grande Rio.
Porm, como Adriaan era um dos poucos que os haviam visto e
como as novas herdades prosperavam, a barreira dos Xosas era
ignorada.
Em 1750, a herdade dos Van Dooms albergava avs, as famlias
de Adriaan e dos seus irmos, os numerosos netos e muitos
criados. ocasionalmente, o av Hendrik abria a sua enorme
Bblia, esperando ensinar o alfabeto s crianas, mas estas
eram de opinio que, se os pais, os tios e as tias tinham
sobrevivido sem saber ler, o mesmo aconteceria com elas.
Apenas Lodevicus, o filho mais novo de Adriaan, na altura com
onze anos, revelou sinais de querer retomar os antigos
conhecimentos dos Van Dooms que haviam vivido na Holanda.
o velho Hendrik reparou que o jovem Vicus ficava extremamente
agitado sempre que Adriaan desaparecia numa das suas
exploraes. os outros trs filhos aceitavam o estranho
procedimento de seu pai e . no revelavam qualquer preocupao
quando a ausncia deste se pro? ' longava por meses
consecutivos. Alm disso, era com prazer que ouviam os pais
dizer: Talvez devssemos sair daqui. H gente demais para
estas paragens. Demasiadas normas da Companhia.
Aquele vale onde o gado pastou no ano passado parece melhor.
Mas Lodevicus perguntava:
??Porque  que no podemos ficar num lugar e construir uma .
casa de pedra?
Ento, o desassossego de Adriaan recrudesceu, e Seena apoiou
o.
??Vamos arranjar outra herdade??sugeriu. E assim os carroes
foram carregados, as cabanas abandonadas, e com Dikkop a
servir de batedor todos se dirigiram para leste.
Foi durante esta viagem que o velho Hendrik, na altura com
sessenta e nove anos, teve um colapso e morreu. Embora a
famlia o chorasse, o seu falecimento no constituiu uma
grande tragdia;

 Os seus anos tinham sido bem vividos e o futuro dos seus
descendentes parecia assegurado. Algum tempo depois de os Van
Dooms terem enterrado, um estranho juntou?se  caravana. Era
alto e magro, vestia roupas escuras e usava um chapu de abas
largas.
??Chamo?me Mestre Specx??disse?lhes ele??, e tenho vivido
nova cidade de Swellendam. Fui enviado pela Companhia para
trazer a palavra de Deus s regies isoladas. Tenho
autorizao para casar e baptizar e para trazer famlias como
a vossa de novo aos minhos do Senhor.
??Sede bem?vindo??disse Johanna, como matriarca da famlia.
??Vo a caminho de uma nova herdade?
??Vamos.
??Eles agora vo cobrar rendas sobre as herdades.
??No cobraro nada de ns??afirmou Adriaan asperamente.
??Temos sido lavradores onde queremos e nunca pagmos taxas a
ningum .
??Isso agora acabou??declarou o estranho. ??A partir deste
ano, tudo ser cobrado.
??Ns explormos esta terra??redarguiu Adriaan. ??ocupmo?la
sozinhos. Pertence?nos, e no  Companhia.
Mestre Specx pediu para os acompanhar at ao novo local, ao
que Johanna acedeu:??Podeis, se nos lerdes a Bblia.
Noite aps noite, enquanto durou a viagem, Mestre Specx
sentava?se  luz da vela entoando as histrias intemporais de
homens mo Abrao e Josu, que vaguearam por terras
desconhecidas, e foi sim que Lodevicus van Doom decorou as
passagens grandiosas e mpolgantes do Antigo Testamento.
Specx mostrou ser um companheiro apropriado, pronto a
partilhar do trabalho e das dificuldades. Apenas Seena
revelava alguma imosidade para com o predikant, uma herana de
seu pai, que incessantemente combatera a Igreja. Uma tarde
disse?lhe:
??No precisamos de vs aqui, Mestre. Desembaraamo?nos
m sozinhos.
??J constatei esse facto. Foi para mim uma grande felicidade
viver convosco. Agora quero trazer?vos a maior ddiva de
todas, o
amor de Deus.
??Ns temos o Seu amor??retrucou Seena asperamente.??Ele _
prosperar a nossa herdade. Aumenta os nossos rebanhos. Ns
adoramo?Lo  nossa maneira.
Specx insistiu com a sua mensagem:
A Aliana

??Seena, eu vim para casar e para baptizar. Quero que o
primeiro casamento seJa o vosso.
??Eu no preciso de oraes. Tenho quatro filhos.
Ele ignorou os argumentos dela e contraps:
??Mas os vossos filhos devem ser baptizados, Seena. ??E quando
ela comeou a protestar, ele interrompeu?a bruscamente:
??Seena, o Mundo est a mudar. Swellendam tem agora
reparties oficiais. Em breve haver aqui um brao efectivo
do governo. Sero cobradas taxas. As leis sero aplicadas.
??Quereis dizer que esta nobre terra ser esmagada at ficar
igual ao Cabo?
??Exactamente. Deus, a lei e a decncia seguem?se uns aos
outros. Seena, consenti que as crianas sejam baptizadas.
Mas Seena mostrava?se inflexvel, pelo que Specx no insistiu
no assunto. Ajudou os Van Doorns a instalarem?se no que
poderia chamar?se uma herdade dupla: dois mil e quinhentos
hectares para Adriaan van Doom e dois mil e quinhentos para os
seus irmos, lado a lado. Quando, porm, se deu incio 
construo das casas de bubal, Mestre Specx retomou o assunto
dos baptizados.
??Insisto em que faais baptizar os vossos filhos. Antes que
eles se casem, erguer?se?ao aqui igrejas, a que eles tero de
pertencer para que as suas existncias no sejam excludas da
comunidade.
??Eu vivi sem igrejas durante trinta e quatro anos??replicou
Seena.
A discusso sofreu uma alterao radical quando as duas filhas
de Seena chegaram do Sul com os maridos e dois bebs do sexo
feminino.
??Queremos casar?nos??disseram elas. ??Queremos que nossas
filhas sejam baptizadas.
??Deus seja louvado!??exclamou Specx.
Johanna disse ento:
??Faremos um dos pudins de po de Willem para celebrar.
Adriaan ficou surpreendido ao ver o vigor com que sua me
participava nos preparativos; ela sentia?se claramente
encantada ao ver as suas netas devidamente casadas e as filhas
delas baptizadas.
As mulheres prepararam uma grande festa. E depois de as
cerimnias se terem realizado, o jovem Lodevicus foi ter com
Mestre Specx, a quem disse:
??Eu tambm desejo ser baptizado.??E, aps a celebrao do
baptismo, declarou:??Quero que fique escrito na Bblia.
Foi trazido o velho livro, e o predikant estremeceu ao ver
como os registos haviam sido neglignciados, pois faltava
inscrever trs geraes na pgina dos registos de casamentos e
nascimentos. Pediu com que escrever, mas obviamente o seu
pedido no pde ser satisfeito .
Sentou?se ento com a Bblia no colo e apontou para os vrios
quadrados em que Johanna devia ter sido registada como mulher
de Hendrik e Seena como mulher de Adriaan. Mostrou onde deviam
ser inscritos os nomes dos filhos.
? Lodevicus, este aqui  o teu quadrado??disse??, e quando
aprenderes a escrever deves inscrever aqui o teu nome, aqui o
nome da tua mulher e aqui em baixo os dos teus filhos.
Compreendes?
Lodevicus respondeu afirmativamente.

EM 1759, quando tinha vinte anos, Lodevicus viveu uma
experincia religiosa que iria dominar o resto da sua vida.
Parecia que kus Lhe aparecera quando ele atravessava um rio. A
voz ordenouhe que aprendesse a ler e a escrever e que
encontrasse uma esposa crist. E continuou dizendo que ele
estava destinado a receber uma noiva especial, que traria luz
e cristianismo aos trekboers. Depois, a voz emudeceu e
Lodevicus caiu de joelhos, pedindo a Deus fora para obedecer
s Suas ordens. A voz ouviu?se de novo, dizendo: Es martelo
que matar o infiel.
Durante as semanas seguintes Lodevicus, agora um homem bem
nstitudo e atraente, de cabelo louro, vagueou sozinho,
perguntando a si mesmo como poderia obedecer s ordens de
Deus. Ento, na manha dirigiu?se ao curral, selou um cavalo e
cavalgou em direco a oeste at chegar  pequena povoao de
Swellendam, abrigada entre colinas, que se distinguia por
possuir algumas das mais belas casas brancas da colnia.
Vagueava sem destino pela aldeia quando ouviu a voz ressonante
de Mestre Specx:
??No s o Lodevicus dos Van Doorns???E quando Vicus assentiu
o predikant perguntou:??E que te traz a esta bela aldeia?
??Estou aqui porque Deus me ordenou que tomasse uma mulher.
Sem revelar qualquer estranheza ante esta extraordinria
declarao, Mestre Specx convidou Lodevicus a acompanh?lo ao
presbit rio, onde Lhe pediu:
???Conta o que te aconteceu.
Lodevicus descreveu?lhe a sua viso, e o predikant sugeriu que
rezassem Porm, antes que concretizassem o que se propunham
fazer. Entrou no aposento uma jovem de vinte e dois anos,
cujorosto
reflectia uma calma austeridade.
??Este  Lodevicus van Doorn??disse Specx.??Foi chamado por
Deus. e amos agradecer?Lhe.
Posso rezar convosco???perguntou a jovem.
??Claro. Esta  a minha filha Rebeca??disse Specx a Vicus.
(" jo em Van Doorn ajoelhou para rezar na presena da jovem
Quando se ergueram, Specx explicou a sua filha:
o Senhor ordenou?lhe que aprendesse a ler e a escrever. Creio
que   podamos ensinar.
Quatro semanas seguintes, pai e filha ensinaram a Lodevicus as
primeiras letras, e no final desse perodo ele j lia a
Bblia. Foi um n rertar em que o jovem formulou os conceitos
que o iriam anillil r relo resto da vida.
'.; o  vrias sesses devotas, Lodevicus decidiu obedecer  se
un.l  ordem da sua converso e tomar uma esposa crista.
Parecia que  ebeca Lhe fora dirigida por Deus. Quando
comunicou esta deciso I Specx, o predikan  declarou?lhe:
Rebeca pensou em casar?se contigo desde o dia em que

ralll casados pelo pai dela, e decorridas vrias semanas
selaram doi    a .alos e partiram para a herdade dos Van
Doorns.
A recepo com que a famlia os acolheu no foi calorosa.
Quando entraram no ptio da herdade, a primeira voz que
ouviram foi .t de Seena, gritando para o marido:
Adriaan! Ele voltou. Com uma noiva.
Lodevicus tentou partilhar com os pais o milagre da sua con

? Deus ordenou?me que aprendesse a ler e tomasse uma mulher.
em Swellendam para rezar com Mestre Specx. Rebeca
m ne a identificar as letras e a junt?las.
Aposto que no foi s isso que ela ensinou??observou Seena.
??E quando aprendi a escrever, ca de joelhos, agradeci a Deus
disse?Lhe que, apenas regressasse a casa, escreveria os nossos
nomes na Bblia. Ide busc?la
Formulou o pedido como quem transmite uma ordem, e Seena ficou
at certo ponto irritada ao ver o marido condescender. Adriaan
dirigiu?se a uma arca onde guardava todos os objectos que se
acumulavam mesmo numa casa de bubal, trouxe a velha Bblia e
abriu?a na pgina dos registos.
A Aliana

??Desta vez??disse Lodevicus gravemente??temos uma pena ??E,
observado por todos os membros da famlia, inscreveu
cuidadosamente os nomes que faltavam dos seus avs, dos seus
pais irmo e das duas irmas, aps o que, com um floreado e um
sorriso para a mulher, escreveu o seu nome e o de Rebeca
Specx, Swelle dam, filha do predikant.
Ps a pena de lado, satisfeito com o seu trabalho, e disse:
??Depois de termos casado, passmos as semanas seguintes numa
revelao. Ns os quatro, Mestre Specx e sua mulher, Rebec e
eu, sentmo?nos em conjunto e lemos toda a Bblia.
??Isto , o Antigo Testamento??corrigiu Rebeca.
??E descobrimos??continuou Lodevicus??que ns, trekboeN somos
os novos israelitas. Chegmos ao ponto em que Abro estava
quando mudou o nome para Abrao e se fixou em Canaa, enquanto
escolheu as cidades da plancie que seriam destrudas. E soube
que o tempo das nossas deslocaes terminou. Que devemos
fixar?nos e construir as nossas casas de pedra.
?? Alguma vez??perguntou Adriaan??tu e Mestre Specx discutiram
o facto de os novos Abraos construrem as casas de pedra em
terra que se pode gastar? Que temos de nos deslocar de tempos
a tempos para encontrar terra melhor?
??Em Swellendam ningum se muda??replicou Lodevicus. Ao que a
me observou:
??Ns mudamos. Esta herdade verdomde est exausta.
E enquanto o casal mais velho planeava a sua prpria
deslocao para leste, os Van Doorns mais novos trabalhavam na
herdade, firmes no seu conhecimento das tarefas de
cristianizao que os esperavam. A primeira pessoa sobre quem
a sua ira recaiu foi o inofensiv
Dikkop, na altura com cinquenta e cinco anos. Adriaan sempre
Lhe concedera invulgares prerrogativas, a que Lodevicus
decidiu pr termo.
??Ele  da tribo de Ham??disse ele??e deve deixar de viver
connosco ou comer connosco ou de qualquer forma associar?se
connosco, a no ser como nosso criado hotentote.
Quando Adriaan protestou contra uma deciso to dura,
Lodevicus e Rebeca explicaram cuidadosa e metodicamente a sua
linha de pensamento:
??Quando o Mundo comeou pela segunda vez depois do
Dilvio??disse Lodevicus??, No tinha trs filhos, dois dos
quais bons e brancos como ns. Mas o terceiro filho, Ham, era
escuro e mau.

??Ento Ham??continuou Rebeca??tornou se o pai de Ca naa e de
todo o povo negro. E Deus, actuando atravs de No, lan ou
uma terrvel maldio sobre Canaa: Um servo dos servos ser
ele entre os seus irmos. E foi ordenado que os filhos de Ham
fossem lenhadores e aguadeiros enquanto o Mundo existisse.
Dikkop  um cananeu. Como filho de Ham, est condenado a ser
um escravo e nada mais.
Na realidade, era indiferente a Adriaan e a Seena a designao
atribuda a Dikkop; ele era necessrio s suas vidas, e como
tal era bem tratado. Especialmente Seena gostava de o ter na
cabana e a ajudar a preparar os alimentos, e foi esta a origem
da primeira ruptura declarada com a sua nora, pois um dia
Rebeca disse, no sem alguma exasperao:
??Me, no deve deixar Dikkop entrar na cabana.
??Quem diz que eu no devo???perguntou Seena beligerantemente.
??Deus.
Com uma lngua cortante, propcia observou:
??Duvido que Deus se preocupe com a minha cozinha.
??Lodevicus! ??chamou Rebeca. acreditar em Deus.
E quando entrou na cabana, Vicus tomou completamente o partido
da mulher, recorrendo  velha Bblia da famlia, que abriu no
Livro de Zacarias, no Antigo Testamento, onde encontrou a
concludente passagem que tanto avultava nos ensinamentos do
predikant seu sogro: E nesse dia no haver mais cananeus na
casa do Senhor. E acrescentou que, a partir daquele momento, a
cabana era a casa do Senhor e que, uma vez que era claramente
um cananeu, Dikkop teria de ser banido.
Mas o pior no chegara ainda. Uma noite, um cla de bosqumanos
que vivia para l das montanhas desceu, encontrou o gado dos
Van Dooms a pastar em liberdade e fugiu levando alguns belos
animais .
??  chega??disse Lodevicus.??Vamos resolver o problema desses
gatunos bosqumanos.??organizou uma batida com todos os homens
de um raio de cinquenta quilmetros e convidou Adriaan a
acompanh?los Seguiram para norte, percorrendo um trajecto de
mais de cem quilmetros, to longo que Adriaan tinha a certeza
de que j haviam deixado os Bosqumanos para trs. Chamou a
ateno
A Aliar7 a

do filho para esse facto, mas, no obstante, Vicus ordenou que
o grupo prosseguisse.
Adriaan tinha razo. o destacamento havia muito que
ultrapassara os assaltantes bronzeados; mas Vicus esboara um
plano, e quando chegaram a um local onde seria provvel que se
reunissem famlias inteiras de bosqumanos ordenou aos homens
que desmon
tassem e se ocultassem prximo de uma nascente que corria
entre os rochedos. Adriaan esperava que o grupo de caadores
surgisse com o gado roubado e casse numa emboscada, mas em
vez disso, ao pr do Sol, um grande rinoceronte aproximou?se
lentamente da gua
Enquanto bebia, Lodevicus abateu?o com um tiro atrs da
orelha.
A fera ficou cada ao lado da nascente, e antes do anoitecer
os abutres reuniram?se sobre as rvores,  espera da alvorada.
Foram vistos, evidentemente, tanto pelas famlias bosqumanas
que esperavam o regresso dos seus homens como pelos ladres de
gado que seguiam para norte. Consequentemente, a meio da tarde
cerca de sessenta bosqumanos, incluindo mulheres e crianas,
tinham?se reunido junto da nascente para devorarem o
inesperado banquete que representava o rinoceronte morto.
Durante os primeiros momentos de excitao, enquanto os pe
quenos seres mirrados esquartejavam a enorme fera, Lodevicus
manteve os seus homens silenciosos. A espera permitiu que se
reunissem mais outros trinta bosqumanos. Quando havia cerca
de noventa, cor tando alegremente bifes de rinoceronte, Vicus
ergueu?se de um salto e comandou: Fogo!
Apanhados pelos fogos cruzados de uma quantidade de armas, os
bosqumanos que participavam no banquete caram um a um.
Ladres de gado, avs, os fabricantes de setas, as jovens que
apanhavam os colepteros com os quais faziam o veneno e as
crianas
todos foram exterminados.
Lodevicus, o Martelo, assim foi ele chamado aps o morticnio.
Brao direito de Deus justiceiro, sempre que qualquer problema
ameaava surgir ele era chamado. organizou a primeira igreja
na regio e serviu como consolador dos doentes durante os anos
em que a igreja no teve predikant. Embora lesse sermes de um
livro que Lhe foi enviado pelo pai de Rebeca, era escrupuloso
em nunca se apresentar como um verdadeiro clrigo, pois essa
era uma vocao sagrada que requeria anos de estudo formal e a
tomada de votos. Mas imps a lei religiosa na sua prpria
famlia e nas herdades dispersas. Sempre que um homem e uma
mulher comeavam a viver em co

mum, ele e Rebeca visitavam nos, registavam os seus nomes num
livro e faziam nos prometer que se casariam assim que um
predikant aparecesse na zona. Manteve tambm um registo dos
nascimentos, ameaando os pais com a condenao s penas
eternas se no fizessem baptizar os filhos quando o mestre
viesse.
Uma noite, aps ter falado com dois jovens casais que no eram
casados, disse para Rebeca
??Tenho pensado em Adriaan e Seena.  uma afronta a Deus que
eu me desloque a to grandes distncias para levar as Suas
leis quando no meu prprio lar elas so ignoradas. Seria um
acto terrvel, Rebeca, expulsar os prprios pais. Mas se eles
persistirem nos caminhos do mal...
Quando se interompeu para pesar a gravidade do problema, Re
beca enumerou as vrias dissenes que tinha com Seena e fez
no tar o paganismo da sogra, que considerava a dificuldade
mais grave.
??Ela escarnece dos nossos ensinamentos, Vicus. Quando tu
saste, voltou a levar Dikkop para a cabana, embora sabendo
que a Bblia o probe. Quando Lhe chamei a ateno para o
facto, ela res
pondeu: ou ele fica ou tu morres de fome.
??Rebeca, devemos rezar. ??E assim o fizeram, dois coraes
frios e contritos procurando proceder correctamente.
Finalmente, decidiram que Adriaan e Seena teriam de
partir.??So ainda suficientemente novos para construrem a
sua prpria cabana, eles e esse maneu Dikkop.
Levantaram?se cedo, como para ganharem foras para a cena de
gradvel que certamente se seguiria, mas quando saram para o
ado verificaram que Adriaan e Dikkop j estavam a p junto de
um carroo de rodas altas carregado para uma longa viagem.
??Que esto a fazer???perguntou Lodevicus.
??Seena!??gritou Adriaan.??Chega c fora! A mulher apareceu,
disse:??Conta?lhes.
Ela assim fez.
??Ele est cansado das vossas pregaes. Se...   _ ~...~.r
ado por ter uma cabana em que o seu amigo no  bem recebido.
no gosta do novo gnero de vida que vocs nos querem impor.
portanto, ele e Dikkop vo para norte, para o
Zambeze.??Descrevendo com o brao um gesto vago, Seena indicou
o rio a cerca de dois mil e quinhentos quilmetros de
distncia.
??E a me???perguntou Rebeca.
??Eu fico aqui. Esta  a minha herdade, como sabem.
A AliaYla

E com estas poucas palavras, Seena sublinhou a situao
impossvel que se deparava aos jovens Van Doorns. No podiam
expulsar a me de Lodevicus da herdade, nem podiam,
honestamente, abandon?la ali. Teriam de partilhar com ela a
cabana at ao regresso do marido.
??Quanto tempo vai estar fora???perguntou Lodevicus ao pai em
voz controlada.
??Trs anos??respondeu Adriaan. E, fazendo estalar o chicote
obrigou os bois a avanar para norte.
Corria o ms de outubro de 1766, e Adriaan tinha cinquenta e
quatro anos quando partiu com Dikkop. Levavam consigo
dezasseis bois de reserva, quatro cavalos, uma tenda, armas e
munies, sacos de farinha e quatro sacos de carne seca.
Vestiam as toscas roupas caseiras do veld e levavam uma
preciosa caixa de estanho contendo os remdios beres usados
nas herdades, constitudos por ervas e folhas medicinais.
Inicialmente, deslocaram?se com lentido, dez ou doze
quilmetros por dia; depois, passaram a percorrer diariamente
quinze quilmetros e, em seguida, vinte e cinco. Quase tudo o
que viam os atraa: uma rvore invulgar ou sinais de animais.
Acampavam frequentemente durante semanas num local que
apresentava condies favorveis, refaziam a sua proviso de
carne seca e prosseguiam viagem. Viram maravilhas que nenhum
colono jamais encontrara: rios enormes, vastos desertos 
espera de explodirem em flores e, mais interessante do que
tudo, uma srie de pequenas elevaes arredondadas, algumas
das quais com os topos planos como mesas. ocasionalmente,
Adriaan e Dikkop escalavam um desses montes para examinar a
paisagem  sua frente, e viam uma extenso to vasta que os
seus olhos a no conseguiam abarcar.
No segundo ms da sua deambulao, depois de terem
atravessado, levando o carroo sobre uma jangada, o rio a que
os Hotentotes chamavam Grande Rio e que um dia passaria a
chamar?se orange penetraram nas interminveis plancies que
conduziam ao interior de frica. Um dia, ao cair da tarde,
encontraram junto a um rio os primeiros seres humanos que viam
na sua viagem, um grupo de bosqumanos que se ps em fuga
quando eles se aproximaram. Durante toda essa longa noite,
Adriaan e Dikkop permaneceram sentados de armas aperradas,
perscrutando apreensivamente a escurido. Apenas a alvorada
raiou, um desses diminutos seres mostrou?se, e Adriaan tomou
uma deciso importante. Com Dikkop a cobri?lo, avanou de

sarmado e indicando com gestos amigveis que vinha com
objectivospac ficos .
.  convite dos Bosqumanos, Adriaan e Dikkop permaneceram
durante uma semana perto do rio e Adriaan aprendeu muito
acerca do povo a que os seus compatriotas holandeses chamavam
daardie die  esses animais. Nada o impressionou tanto como
quando eles Lhe permitiram que os acompanhasse numa caada,
pois testemunhou Um.l arte em seguir pistas que nunca teria
imaginado. os Bosqumanos reuniram um enorme fardo de peles,
que Dikkop soube que seria levado ..trs luas para norte, a
fim de ser negociado com o povo que ali vivia.
Uma vez que tambm seguiam aproximadamente a mesma direco.
. adrian Dikkop juntaram?se aos Bosqumanos. Por duas vezes
durante a viagem viram topos de cabanas a distncia, mas os
Bosquimanos continuaram a internar?se na plancie, at
chegarem s aldeias perifricas do importante domnio de um
rgulo negro.
O rgulo enviou uma escolta de guerreiros para acompanharem os
estrangeiros  sua aldeia. o encontro foi significativo, pois
Adriaan, o primeiro homem branco que aqueles negros viam,
permaneceu com eles durante dois meses. Foi com agrado que os
indgenas verificaram o interesse especial que Adriaan revelou
pelas suas cubatas de p.u:   a  ; barro, cuja robustez o
impressionou . Adriaan observou m . no a Dikkop: So melhores
do que as cabanas em que ns   i \ .. m" . " os negros ficaram
excitados quando Adriaan Lhes revelou o   eiU)s da plvora
lanando uma mo?cheia para uma fogueira,  n . ;I ;uela
irrompeu violentamente em labaredas. Depois de ter apn ndi(lo
a manusear o produto, o rgulo, que inicialmente ficara a
ori/ado  deleitou?se a utiliz?lo para amedrontar o seu povo.
. driaan percebeu claramente que aqueles negros no eram
recnl?chegados  rea. As suas cubatas e os seus currais bem
construklo  as runas de povoaes antigas, os seus trabalhos
em ferro, as  uas plantaes de tabaco, tudo indicava uma
longa ocupao. Sentiu?se especialmente intrigado pelas capas
opulentas que os homens confeccionavam com peles de animais,
que amaciavam at as mesmas adquirirem a textura da camura,
pela perfeio dos seus trabalhos de ceramica e ainda pelas
belas contas. Nos meses seguintes, nunca andou longe de
aldeias semelhantes, disseminadas pelo rritrio que
atravessava, mas raramente contactou com o seu povo,
is a sua preocupao era chegar ao Zambeze. Receava tambm que
tros chefes indgenas se no mostrassem to amigvels.
Enquanto prosseguiam na sua deslocao para norte, Adriaan
Dikkop abatiam apenas os animais de que necessitavam para se
alimentar,  excepo de uma manha em que a insistncia de uma
hiena em arrancar a Adriaan parte de um antlope que ele
matara irritou Dikkop. Perante a obstinao dela, matou?a. A
hiena deixou rfa uma cria do sexo masculino com chamejantes
olhos negros. Quisera a carne para a alimentar, e ela agora
ficava abandonada. Quando, Dikkop se aproximou, o pequeno
animal arreganhou?lhe uns enormes
dentes.
Dikkop levou a hiena, que lutava e esperneava, a Adriaan, o
qual declarou imediatamente: Temos de a alimentar.  E assim
Dikkop'f mastigou pedaos de carne tenra, colocando?os sobre
um dedo para o fl pequeno animal os lamber. Ao fim do terceiro
dia, os dois homens ' competiam para ver quem  que o
alimentava.
??Vamos chamar?lhe Swartejia??disse Adriaan. o nome
significava Pequeno Negro, mas a hiena adoptou uma atitude to
ameaa dora que Adriaan teve de se rir.??Ento j te
consideras um grande
Swarts???E passou a ser este o nome do animal.
Swarts revelava as caractersticas afectuosas de um co
domesticado, sem perder as impressionantes qualidades de um
animal selvagem. Como os seus quartos dianteiros eram fortes e
altos, e os traseiros pequenos e baixos, a hiena caminhava
claudicantemente. e como a sua boca era enorme, com grandes
mandbulas trituradoras, o seu aspecto era assustador. Mas a
sua natureza afvel e a dedicao que votava a Adriaan faziam
com que parecesse sorrir. o trekboer em breve fez dela um
animal de estimao.
A medida que o Invemo se aproximava e a temperatura baixava,
Adriaan passou a encontrar Swarts a dormir no seu saco?cama de
pele de antlope, com um cobertor de macias penas de avestruz,
de olhos fechados num bem?aventurado repouso, com os msculos
latejando enquanto sonhava que caava.
??Sai da, com os diabos!??Adriaan afastava a hiena adormecida
para o lado, mas apenas o dono se deitava Swarts encostava?se
a ele, e muitas vezes ressonava. ??Pra de ressonar!??E
Adriaan empurrava?a, como se fosse uma velha companheira.
os animais rodeavam?nos com tal abundncia que no era
possvel calcular?lhes o nmero. Uma vez, quando atravessavam
um planalto, viram a leste um vasto movimento??quinze, trinta,
oitenta quilmetros de frente??que se aproximava lentamente na
sua direco, levantando uma nuvem de poeira que obliterava o
Sol.

??Que  que fazemos???perguntou Dikkop.
??Acho que ficamos onde estamos??respondeu Adriaan, nada
isfeito com a sua resposta, mas incapaz de encontrar outra.
At warts sentia medo, lamuriando e encostando?se s pemas de
Adriaan.
A tremenda manada aproximava?se, sem correr, sem ser impelida
lo medo. Era composta por trs espcies: uma enorme quantidade
gnus, cujas franjas de plos eram agitadas pela brisa suave,
um mero incontvel de zebras e uma multido de
cabras?de?leque, que
avam alegremente por entre os animais de maior porte. Em obe
ncia a algum impulso profundo, os animais emigravam de um
rreno de pastagem para outro. Quantos animais poderiam ser?
Provelmente, mais de quinhentos mil, uma exuberncia da
Natureza
cil de apreender na sua vastido.
Enquanto os animais avanavam sobre os trs viajantes, Swarts
diu por meio de lamentos a Adriaan que pegasse nele, e os dois
mens permaneceram firmes  medida que a manada caa sobre  s.
Ento sucedeu uma ocorrncia estranha. Quando chegaram a  ia
dzia de metros dos homens, gnus e zebras abriram calma nte
fileiras, formando uma espcie de espao elipsoidal, uma lt
ima de espao aberto na qual os homens permaneceram sem ser
lestados. E cada grupo de animais que passava fechava a
elipse, enquanto um novo grupo olhava para os homens, abria
alas vagarosamente para formar nova lgrima e depois passava.
Durante sete horas Adriaan e Dikkop permaneceram naquele lugar
enquanto a manada passava. Nunca ficavam suficientemente perto
dos animais para poder tocar uma das zebras ou das
cabras?de?leque: os animais afastavam?se sempre.
Ao pr do Sol, o cu, a ocidente, estava vermelho de poeira.

Nos meses seguintes, o aspecto da paisagem sofreu uma
alterao r adicah Surgiram montanhas no horizonte, e os rios
passaram a correr para norte, e no para leste, onde
presumivelmente se localizava o oceano. Em breve se
encontraram numa extrordinria garganta, cujas paredes
pareciam tocar?se no cu. Assustado, Dikkop queria retroceder
mas Adriaan insistiu em prosseguir, at que finalmente
chegaram a um local maravilhoso.
A terra abria?se como as enormes orelhas de um elefante, e
disSeminadas por toda ela viam?se rvores da mais bizarra
natureza.
Esto ao contrrio!??exclamou Adriaan, correndo para uma,
ia, consideravelmente mais espessa do que qualquer outra ja

1 39
mai  vista Tinha o diametro de quatro metros e melo e casca
maclae ! eluda como a pele de um co velho. Mas a
caracterstica verdadeiramente notvel daquele poderoso
embondeiro, que atingia dezoito metr(?s de altura, residia nos
seus enormes ramos, que suportavam arenas galhos minsculos,
semelhantes a razes de alguma planta f`ra l arrancada do
solo e colocada ao contrrio.
? Est mesmo ao contrrio??concordou Dikkop.??ouvi dizer
Inuitos homens prestes a morrer de sede devem a vida a esta .
I)i`., de cuja casca, quando perfurada, corre alguma
gua.??No  a .,j enas gua que o embondeiro dava, pois as
suas folhas podiam
cozidas e consumidas, as suas sementes modas e utilizadas na
ni..co de uma bebida excitante e a sua madeira esponjosa
redu
, tiras e entrelaada para formar cordas.
? s rvores engrinaldavam a paisagem, com os seus grandes
troncos de casca grossa e lustrosa e os ramos entranados
estendidos em direco ao cu. Sempre que olhava para norte do
desfiladeiro, Adriaan via rvores que pareciam gritar: Ns
somos sentinelas de um novo territrio. Ests a penetrar na
terra que guardamos.
Durante vrias semanas Adriaan, Dikkop e Swarts viveram na
realidade no interior de um enorme embondeiro, numa grande
cavidade aberta devido ao desgaste da madeira macia. Swarts
tornara?se. por essa altura, um excepcional animal de
estimao, talvez o melhor que Adriaan conhecera, plcido como
um boi, bravo como o mais forte do  lees e, no entanto,
brincalho como um gatinho. Gostava de se entregar a uma
brincadeira assustadora com Adriaan, na qual tomava c,
antebrao do trekboer entre as suas poderosas mandbulas e
simulava pretender arrancar?lhe metade, o que bem poderia
fazer. Aperta .a lentamente os dentes e contemplava com uma
expresso travessa o rosto de Adriaan, a fim de detectar o
momento em que a dor sur ia. os dentes fechavam?se
progressivamente, at parecerem rast, r a pele. ento,
enquanto Adriaan mantinha o olhar fixo no animal. S .arts
detinha?se. Rindo apreciativamente para o homem desprovido de
medo, saltava para o colo de Adriaan e como que o cobria de
beijos.
Finalmente, os viajantes atingiram um rio que no era o
Zamheze, como Adriaan procurava, mas o Limpopo, uma corrente
vagarosa que assinalava a fronteira setentrional do
subcontinente.
??Dikkop??disse Adriaan??, no podemos ir mais longe.
o carroo do trekboer estava irreparavelmente partido, e os
seus bois e cavalos estavam a morrer, vtimas de alguma doena
estranha.

1  1
A Aliana

o hotentote concordou em regressar, pois sentia?se cansado, e
at Swarts pareceu aliviado quando iniciaram a viagem para
sul, a p.
Formavam um curioso trio enquanto desciam alegremente a
espinha dorsal de frica. Swarts precedia?os no seu andar
bamboleante seguido por Dikkop e finalmente por Adriaan, um
trekboer magro de cabelo branco, com cinquenta e seis anos de
idade, que se deslocava como se tivesse trinta. Uma vez,
Swarts insistiu em abandonar o trilho que fora deixado por um
antlope e em se dirigir para oeste. os homens seguiram?no e
foram encontr?lo numa pequena cavema cujo tecto era um
maravilhoso painel no qual se exibiam trs girafas a serem
caadas por homens de baixa estatura e tez escura. fora
pintado, trs milnios antes, pelos antepassados dos
bosqumanos que haviam encontrado.
o Vero desse ano foi muito quente, e embora o trio avanasse
para sul, afastando?se do calor equatorial, Adriaan notou que
Dikkop estava exausto. Procurou, portanto, caminhos que os
levassem em direco  extremidade leste do planalto, onde
provavelmente encontrariam chuvas refrescantes. Numa dessas
excurses, foram dar ao calmo e agradvel lago onde o cefo
fora beber e os flamingos haviam mergulhado no tempo de Gumsto
e do seu cla.
o lago, uma vasta e encantadora extenso de gua,
encontrava?se no seu apogeu: todas as noites era visitado por
tal profuso de animais que Swarts ficou paralisado ante as
possibilidades que via  sua frente. Perseguindo de igual modo
aves e elefantes, mantinha?se atento  presena eventual de um
animal fraco, colocando?se bem atrs dos lees, que tambm
procuravam seres mais dbeis, e correndo a apanhar pedaos de
carne quando os grandes predadores se afastavam. Apreciava,
obviamente, esta parte da viagem mais do que qualquer outra.
Dikkop passava menos bem. Tinha na altura sessenta e trs anos
e era um homem cansado que trabalhara incessantemente em cem
tarefas diferentes, que sempre Lhe haviam sido confiadas por
outrem. Vivera a sua vida  sombra do homem branco, e  sua
sombra se contentava em terminar os seus dias. Mas queria
voltar  herdade, especialmente para ver Seena. Passara tanto
tempo na sua cozinha que se considerava criado dela.
Sentir?se?ia infeliz se alguma coisa Lhe acontecesse antes de
voltar a v?la.
As suas esperanas seriam frustradas. No final desse Vero de
1768, tomou?se bvio que no seria capaz de suportar a longa
viagem de regresso.

??Meu peito di, di??queixava?se. Adriaan censurou?se por ter
trazido um homem to velho numa expedio to perigosa, mas
Dikkop tranquilizou?o:??Era impossvel vires sem mim. Mas
voltars em segurana, penso eu.
Morreu antes de chegarem os frios do Invemo, e foi enterrado
junto ao lago que aprendera a amar durante aqueles meses; foi
quando reuniu as pedras para o tmulo de Dikkop, trazendo?as
das runas de uma antiga aldeia, que Adriaan comeou a falar
seriamente  su  hiena:
??? Swarts, vamos empilhar estas pedras para que os teus
parentes o no desenterrem e devorem. ??Swarts encostou?se s
pernas do dono.
Adriaan tinha agora todos os motivos para apressar o seu
regresso casa, mas em vez disso atardou?se no lago sossegado.
Do lugar em e dormia estudou as montanhas baixas a leste, os
montes gmeos e s terras planas, ansiosas por um arado. Mas
mantinha sobretudo os olhos fixos na margem do lago, onde os
animais vinham dessedentar?se e sobre cuja superfcie plcida
voavam flamingos.
??Vrijmeer!??exclamou ele um dia.??Swarts, neste lago tudo
quanto se move tem liberdade.??Nessa noite no conseguiu
dormir. Passou por sobre o corpo da sua hiena adormecida e
ficou de p, ao luar, enquanto pensamentos o assaltavam: Quem
me dera ser novo utra vez ... trazer para aqui a famlia ...
viver ao lado deste la

No foi fcil a Adriaan admitir que comeava a sentir?se s.
Nunca falara muito com Dikkop, e no tinha medo de viajar s,
pois
conhecia todas as manobras para evitar o perigo. Pressentia
onde
encontravam as aldeias dos negros, das quais se afastava,
dormia
de nenhum leo Lhe podia chegar, confiando em Swarts para o
rtar caso surgisse alguma ocorrncia invulgar. A hiena tinha
uma esenvolvida capacidade de autodefesa, e muitos animais
que podeam ter atacado Adriaan, se ele dormisse s, pensavam
duas vezes antes de se arriscarem s enormes mandbulas e aos
aguados dentes
da hiena.
A solido decorria do facto de Adriaan ter visto a frica,
t?la tocado intimamente ao longo das montanhas e do veld e
ter descoberto ser o continente maior do que ele imaginara.
No amente o assaltou o pensamento erradio, e ele disse em voz
alta: Quem me dera voltar a ser novo, Swarts. Atravessaria o
Limpopo. Continuaria  passaria o Zambeze e chegaria 
Holanda. No
A Alian a

tinha a menor dvida de que, com um bom par de sapatos,
poderia caminhar at chegar  Europa. E levava?te comigo,
pequeno caador, para me proteger dos dik?diks. Riu?se ante a
ideia de algum necessitar de proteco contra os pequenos
antlopes que saltavam de medo  queda de uma folha, e Swarts
pareceu rir?se com ele.
Talvez a solido de Adriaan fosse um pressentimento, pois
quando desceram o espaoso planalto central para atravessarem
o Grande Rio, o trekboer percebeu que Swarts se tomava
desassossegado. A hiena era agora adulta, e quando chegaram a
territrio onde outras hienas caavam em alcateias Swarts
comeou a revelar por vezes indcios de querer correr ao lado
delas. Ao mesmo tempo, nutria uma profunda dedicao pelo seu
companheiro humano e sentia uma espcie de obrigao de o
proteger, de partilhar com ele as glrias da caa.
Consequentemente, Swarts hesitava, por vezes correndo em
direco ao veld vazio, outras galopando de volta, a fim de se
reunir ao dono. Uma noite de lua cheia, porm, em que os
animais estavam em actividade, afastou?se bruscamente de
Adriaan correu para o veld e desapareceu. Durante toda essa
noite insone Adriaan ouviu os sons da caada; quando a
alvorada raiou, Swarts no apareceu.
Durante trs dias Adriaan permaneceu na rea, esperando que a
hiena regressasse, mas tal no aconteceu. E assim,
entristecido at s lgrimas, Adriaan partiu em direco s
montanhas que protegiam a sua herdade. Pela posio das
estrelas calculou que devia estar quase quinhentos quilmetros
a norte do seu destino, s e a p, com uma quantidade reduzida
de munies.
Swarts, preciso de ti, gritou uma noite. E mais tarde,
imerso num sono sobressaltado, ouviu o som de numerosos
animais correndo perto do local onde se ocultava e comeou a
tremer, pois nunca ouvira aquele rudo to prximo.
Finalmente, adormeceu, e quando acordou sentiu um corpo
estranho exercendo presso contra o seu. Era Swarts, que
ressonava como anteriormente.
A partir de ento, Adriaan falava com o animal mais do que
nunca. Swarts, por seu lado, mantinha?se mais prximo do dono,
como se, depois de experimentar a liberdade da selva,
compreendesse que a sociedade com um ser humano tambm podia
ter as suas compensaes.
E assim chegaram s extensas plancies.
Tem de ser por este caminho, Swarts, disse Adriaan, olhando
a ltima linha de montes que se erguiam do veld. A herdade
esta

provavelmente l para baixo, e quando conheceres Seena vo
divertir?se ambos. No tinha bem a certeza de como Seena
reagiria  ideia de partilhar a cabana com uma hiena, mas
continuava a assegurar a Swarts que tudo correrla bem.
No en anto, a recente experincia da hiena em liberdade
acordara os in tmtos do animal. Uma tarde em que Adriaan caou
um guelengue. um belo animal com manchas brancas no focinho e
chifres imponentes. uma leoa avanou para Lhe retirar a presa,
ao que Swarts saltou sobre ela, recebendo um poderoso golpe
das garras que Lhe ras ou o t`ocinho e o pescoo.
Qmmdo Adriaan, gritando em direco  leoa, chegou junto do
seu fiel companheiro, este estava agonizante. o homem nada
podia fazer para salvar o animal; as suas tentativas para
estancar o san uc foram vas. A hiena estremeceu, lutou com
falta de ar e morre u .
Ad  an conservou o corpo do animal a seu lado durante toda a
noite. L)e manha, colocou?o numa zona aberta onde os abutres o
evordrialll. como era lei da Natureza. Aps uma angustiosa
despeDida ao amigo constante, retomou a sua jomada para sul.
ti Agora estava verdadeiramente s. Perdera quase tudo que
levara  onsigo no incio da expedio: cavalos e bois, vtimas
do que mais tarde seria identificado como a doena do sono,
transmitida pelas moscas ts?ts, o seu carroo, a maior
parte das suas roupas, o seu fiel companheiro Dikkop.
Regressava a casa despojado de tudo, mesmo da sua hiena, e as
recordaes das grandezas que vira eram ofuscadas pelas perdas
que sofrera.
Ao prosseguir caminho para sul, Adriaan comeou a sentir o
peso dos seus cinquenta e sete anos. Conseguia ainda percorrer
diariamente rmuitos quilmetros, mas com lentido. De tempos a
tempos gritav,l para o espao, dirigindo?se apenas a Swarts,
pois agora era verdadeiramente Mal Adriaan, o louco do veld
que falava com hienas mortas.
E assim prosseguiu viagem, percorrendo vrios quilmetros por
dia, sempre  procura do trilho que perdera. Quando transps
as montanhas e chegou a terreno desconhecido, calculou
correctamente que devia encontrar?se a leste da sua herdade, a
uma distncia considervel. Preparava?se para virar para oeste
a fim de a procurar, quan  e dingiu ao seu imaginrio
companheiro: Swarts, se eles
tl e m JUFZo, ter?se?iam mudado para melhores terras alm. Era
nor  uererem melhores pastagens.
Continuou assim a viajar mais para leste, at que, uma manha,
contemplar a paisagem da crista de um monte, viu algo que o
pertu bou enormemente. Tratava?se de uma herdade,
compreendendo cerca de trs mil e quinhentos hectares,
totalmente rodeada por montes
?? uma priso!??exclamou, assustado  ideia de haver quem;
voluntariamente, se submetesse a semelhantes limites.
o que o desanimava especialmente era verificar que, ao centro
junto a uma corrente que se dirigia velozmente de sudeste
para nordeste, se erguiam edifcios slidos de pedra e barro.
Aquele aperta enclave representava uma mudana to drstica de
padro de vi, que, num olhar rpido, Adriaan compreendeu que
haviam termin; os dias do velho trekboer. Mentalmente,
resmungou:  Casas de dra! Prises dentro de uma priso! Era
lamentvel chegar quilo fim de trs anos no mais glorioso
territrio de frica.
Mas no podia ter a certeza de que aquele era o novo lar da  .
famlia. S a teve quando viu uma mulher com cabelo de um rui
desmaiado sair de uma casa de pedra e dirigir?se ao celeiro. E
Seena. Vagarosamente, e sem o jbilo que deveria sentir ao
atingir termo de to longa jornada, desceu o monte, chegou 
porta do c;e leiro e chamou:
??Seena!                              .
Ela soube imediatamente quem era. Deixou a recolha de ovos
correu para ele, gritando:
??Verdomde ou man! Chegaste a casa!
Depois de Lodevicus, agora um homem robusto na casa do trinta,
ter aparecido com sua mulher, Rebeca, e de os seus do] filhos
terem gritado saudaes de boas?vindas, Adriaan pergunto aos
adultos:
??Como  que a nossa herdade veio parar a este lugar?
??Quisemos a segurana dos montes??explicou Lodevicus.
??Mas porqu casas de pedra?
??Porque este  o ltimo passo que pode ser dado. Do ou lado
do Grande Rio dos Peixes esto os Xosas, os Kaffirs.??KafJit:
(palavra rabe que significa infiel") era o nome por que os
Beres designavam os negros.
??Esta  a nossa casa permanente??disse Rebeca. ??Urna base
segura no territrio. Chamamos?lhe De Kraal, o lugar protegid(
 .
??Vi um lugar a norte com montes como este, mas eram abertos.
Havia um lago e era tambm acessvel. Vinham de toda a parte
animais para beber.

Nessa noite, quando Adriaan e Seena se deitaram, ela perguntou

I um murmuno:
??Como  que era, l no Norte?
Ele conseguiu apenas dizer
?? uma bela regio ...
Com estas simples palavras referia?se aos tempestuosos ocasos,
s r  ores em posies invertidas, ao veld numa exploso de
flores, s  randes montanhas a leste, aos misteriosos rios a
norte ... Mas undo estava prestes a fechar os olhos e a
adormecer, sentou?se ubitamente na cama e exclamou:
??Quem dera que tivssemos vinte anos, Seena! Podamos ir ara
um lugar que eu vi ... esse lago ... os antlopes escurecendo
s campos ...
??Vamos!??disse ela sem hesitao nem medo.
Ele beijou?a.
??Dorme. Com o tempo, eles ho?de descobri?lo.   ??Quem? _
??os que vierem depois de ns.

NEM Lodevicus nem Rebeca formularam alguma vez perguntas bre
as terras do Norte. a sua preocupao era construir ali um pa
so. Durante as tardes, porm, os filhos deles reuniam?se em
torno Adriaan para o ouvir contar histrias acerca de Swarts,
a hiena, da verna com girafas que saltavam no tecto e do belo
lago a que ele arnava Vrijmeer.
Uma vez acalmada a excitao causada pelo regresso de Adriaan,
na comunicou?lhe que Lodevicus comeara a combater os Xosas
pre que estes vinham apascentar o gado junto do rio.
Quando Adriaan interrogou o filho a este respeito, Lodevicus
larou?lhe:
??A guerra com os Xosas  inevitvel. Eles todos os meses .
.nc am mais para oeste.
? Deixa?os apascentar o gado na nossa terra an .
Eles nunca se contentariam com isso. Acredite, pai, quere.
Destruiriam esta herdade. Isto , f?lo?iam se no estivs
n. te idos pelos montes.
 nu  mais tarde, em 1776, os factos pareceram dar razo aois
um grande grupo de xosas comandado por Guzaka,
Sotopo com quem Adriaan passara vrios dias em ami?
A Alian a

gvel convvio, mostrou?se irado com as crescentes incurses
dos agricultores brancos.
Tal como nos primeiros dias do contacto entre Holandeses e
Hotentotes, a Companhia, tentando em vo governar uma rea dez
vezes maior do que a Holanda, proibiu qualquer troca com os
negroS Mas naquela zona remota as proclamaes da Companhia
eram corno areia lanada ao vento. Nenhuma cerca de
ameixieiras espinhosas poderia jamais delinear centenas de
quilmetros de fronteira, pelo que os brancos penetravam
facilmente nas terras ocupadas pelos negros, raciocinando que
era mais fcil ocupar a terra que pretendiam do que perder
tempo em longas reunies a discutir com os Xosas. Por sua vez,
o povo de Guzaka causava a ira dos colonizadores, pois quando
as manadas dos homens brancos se moviam placidamente a seu
alcance, eles apontavam as zagaias e, gritando de alegria,
roubavam o gado dos  rekboers.
E assim comearam as batalhas, os negros reivindicando a te
que por direito de herana Lhes pertncia, os trekboers
conquistan essa terra porque a mesma fora prometida aos filhos
de Deus.
Durante este perodo Lodevicus comandou a sua segunda expedi
o contra os Bosqumanos. No caso destes, no se venficara
ne. nhum roubo macio de gado, apenas o desvio de uma vaca
aqui, ul boi acol. os agricultores da regio, exasperados com
os diminuta indgenas, concordaram com Lodevicus quando este
declarou: S3 como animais daninhos. Tm de ser exterminados
periodicamente.
Nesta expedio no foi utilizado nenhum rinoceronte como en
godo, e por um motivo bem justificativo: no havia agora na
regiac manadas de animais de grande envergadura; na sua maior
parte, ha viam sido mortos ou afastados para longe.
Rinocerontes, hipopta mos, lees, zebras ??esses magnficos
animais que haviam va gueado pelas colinas??tinham
desaparecido frente ao cavalo e espingarda, e agora as mesmas
armas iam voltar?se contra os Bo qumanos .
Lodevicus dividiu o seu destacamento em trs grupos, actuand
como um grande cata?vento e cavalgando em crculos que
estreita vam em direco ao centro. Enquanto avanavam, os
homens manti nham?se atentos  presena de bosqumanos que
pudessem ficar en. curralados dentro do seu crculo. os
indgenas corriam de um lad para o outro numa triste confuso,
e os cavaleiros apanharam?no
um a um, at terem matado duzentos.
Adriaan ficou horrorizado ante a desumanidade da caada.

Quando viu um velho bosqumano vacilando, aterrorizado e
confuso, cavalgou em sua direco a fim de o salvar, mas
Lodevicus antecipou?se, baixou a espingarda e matou o homem.
??Maldio! Que foste fazer???gritou Adriaan. Desmontou para
inspeccionar o cinto invulgar que o morto usava e constatou
que era de pele de rinoceronte embutido com oito pontas de
chlfre de cefo. Erguendo o cinto, perguntou:??Que  isto,
Vicus? Diz?me, que  isto?
tilho respondeu desdenhosamente:
??Parece um cinto.
?? lete o dedo num dos chifres.
Lodevicus obedeceu, e o dedo saiu manchado de azul?escuro.
??(2ue  isto, Vicus???E quando o filho Lhe confessou a sua
ignor.lncia, ele explicou:??Estes so os frascos de tinta de
um artis. Um dos que pintam o veld vivo nos tectos das
cavernas. E tu ssassinaste?o. ??olhando para o filho,
acrescentou com amargo  sprezo: ??Lodevicus, o Martelo. No
partilharei a minha casa ntigo nem mals um dla.
?? a minha casa??disse Lodevicus.??Fui eu quem a cons?

A isto respondeu o velho, dominado por uma raiva terrivel:
??L a Bblia que tanto apregoas! Era a casa de Abrao enuanto
ele vivesse. Mas tu tingiste?a com sangue vermelho e tinta . E
eu no quero nada mais dela.
Voltando as costas ao filho, montou a cavalo, galopou pelos
mtes e gritou, ao chegar a De Kraal:
??Vamos, Seena! Prepara?te para deixar este lugar!
??ptimo!??respondeu ela.??Para onde vamos?
??Eu encontro um lugar??assegurou?lhe ele. E os dois velhos
ndantes comearam a estudar reas distantes para decidirem
onde
nstruiriam a sua ltima cabana.

EM 1778, os holandeses que chegaram  Cidade do Cabo para
vernar a colnia conceberam uma soluo mpar para os
problemas s regies interiores. o prprio govemador percorreu
todo o camlho desde a Cidade do Cabo, a cavalo e num vagaroso
carro de bois, ara falar com colonos afastados como os Van
Dooms e chefes natios como Guzaka. Aps dolorosas
consideraes acerca das medidas ue  eriam mais vantajosas
para todos, mandou um emissrio de olta a De Kraal com uma
ordem concisa e inequvoca:
A Alian a

Decidimos que a nica soluo prtica para o problema dos
colonos brancos que se misturam com negros condutores de
manadas  separar os dois grupos severa e permanentemente. Tal
medida assegurar a ambas as partes uma situao de justia e
segurana deixando cada uma livre para se desenvolver de
acordo com as suas prprias opes. Uma vez que a Companhia
no tenciona importar mais colonos, e uma vez que os negros
possuem certamente terra suficiente para os seus propsitos,
ordenamos que tanto brancos como negros mantenham as posies
presentemente ocupadas e no avancem mais. No haver contacto
de qualquer espcie entre brancos e negros. o Grande Rio dos
Peixes ser a linha divisria permanente entre as duas raas e
ser mantida uma poltica estnta de separao, agora e para
sempre. Nenhum branco avanar para leste do Grande Rio.
Nenhum negro avanar para oeste. Desta maneira, a paz poder
ser perpetuamente mantida.

No dia seguinte quele em que o emissrio do govemador deixo
De Kraal, Adriaan van Doom carregou o seu carroo e despediu
da famlia do filho. A Rebeca disse com tristeza:
??Tu e Lodevicus estabeleceram um rumo que me  demasi; penoso
seguir. Que Deus vos d foras para o acabar
?? tambm o seu Deus.
??o meu  um Deus mais suave??retorquiu Adriaan. Mas, aps
esta censura, beijou?a e acrescentou:??o mundo ergue
montanhas, e por vezes temos de viver em vales separados.
E atravessou a vau o Grande Rio dos Peixes, erguendo a sua
cabana exactamente a meio da rea que, segundo as promessas do
governador, no voltaria a ser tocada por homens brancos.
Quando os espias xosas informaram Guzaka de que um trekboer
violara a ordem antes de ela ter sete dias, o negro reuniu um
grupo e conduziu os seus homens numa carga que engolfou a
cabana em transgresso. Antes que Adriaan pudesse pegar na sua
arma, assobiaram zagaias e Seena foi morta. o trekboer tentou
repelir os assaltantes, mas este dominaram?no e, depois de Lhe
prenderem os braos, Guzaka matou?o com a sua lana.
Lodevicus tornou?se ento incontestavelmente o Martelo, co
brando uma terrvel vingana. Inflamado pela conscincia de
ter sido' ele quem provocara o xodo dos pais, no confessou a
ningum a SUa culpa. Em vez disso, comandou os seus homens
muito para alm do Grande Rio, levando a destruio at ao
interior das terras dos xosaS

gorando para sempre as esperanosas trguas que o govemador
stabelecera. Incendiou e matou, e por cada vaca que os Xosas
haiam roubado levou consigo uma centena. Com espingardas
chisando fogo, carregou a cavalo sobre homens a p apenas
armados de anas, gritando: < Morte! Morte!"
Por sua vez, Guzaka decidiu exterminar os Holandeses. Todas
as povoaes devem ser destrudas!, trovejou ele.
Sob mltiplos aspectos, era uma guerra desigual, como sempre
aconteceria em frica. os negros, que ultrapassavam
numerlcamente os brancos na proporo de cem para um, podiam
eliminar qualquer herdade branca isolada; mas os brancos
tinham espingardas e cavalos, e um homem branco galopando
atravs de uma aldeia podia :matar uma dzia de nativos em
fuga.
Era um choque de interesses entre brancos e negros que nem
equer podia ser definido. Guzaka sentia?se obrigado a conduzir
va arosamente o seu gado para a frente, tal como o seu povo
vinha azendo h centenas de anos, enquanto Lodevicus
considerava que o  rprio Deus Lhe ordenara que criasse, na
margem oposta do Grande  io dos Peixes, uma comunidade crista
obediente s normas de Joao alvino.
Durante as batalhas Lodevicus nunca comparava os Xosas com
Bosqumanos, esses pequenos animais turbulentos que tinham de
:r exterminados. Uma vez que eram homens cuja corpulncia se
luiparava  dele, os Xosas mereciam respeito. Tal como disse a
ebeca depois de uma expedio difcil: Quando os
pacificammos,  ro bons kaffirs.
Guzaka no fazia teno de se tomar um bom kaffir. Por seis
ezes distintas lanou os seus guerreiros contra De Kraal,
conven. ido de que se o vencesse desanimaria os trekboers; e
por seis vezes os montes protectores permitiram aos
agricultores, preparados para o combate  repelir os invasores.
Mas  stima tentativa, em 1788, Guzal  e o  seus guerreiros
irromperam inesperadamente no vale e dep nou? e?lhes Rebeca
van Doom, que se dirigia do curral para casa  b;3teram?na
mortalmente com zagaias.
Fm contraste com a raiva que sentira aquando das mortes
semeant 5 de sua mae e de seu pai, Lodevicus tomou?se
sorumbtico, meditan o no facto penoso de Deus Lhe no estar a
proporcionar nenh lma vitria fcil. A Nova Jerusalm no fora
criada na margem dista" e do Grande Rio. os Cananeus no
tinham sido expulsos; na rea  ade  pareciam estar a
desmantelar a casa do Senhor.
A Aliana

Ento, na profundeza do seu desespero, pareceu que Deus o vis
tava de novo, na pessoa de uma jovem de dezanove anos de cabe
cor de linho que um dia chegou sozinha a De Kraal, montada nu
cavalo branco. Chamava?se Wilhelmina Heimstra, provinha de l
famlia no religlosa de perto do mar e apresentou
frontalmente a s mlsso:
??No posso viver em idolatria??declarou.??No posso exis tir
sem a presena de Deus.
??No podes ficar aqui mulher.
??Foi por isso que vim??redarguiu a jovem. ??Um mens geiro
contou?nos que os Xosas tinham morto Rebeca.
Lodevicus, o Martelo da regio fronteiria, ento com quarenta
nove anos, permaneceu silencioso. Era claro para ele que Deus
I envlara aquela Jovem para o confortar na velhice, mas no
havia um predlkant na rea, nenhum processo de realizar um
casamento cristo.
A soluo foi realmente bastante simples. Wilhelmina fez notat
que, uma vez que fugira e no podia voltar para sul, no Lhe
restava outra alternatlva seno permanecer em De Kraal, pelo
que se instalou no quarto que Adnaan e Seena haviam ocupado.
Na terceira noite e que ali dormiu, a porta do quarto abriu?se
e Lodevicus perguntou:
??Ests disposta a casar em Deus? Sem um mestre a regist?lc
num livro?
??Estou??respondeu ela. E nove meses e oito dias depois na cia
um rapaz, Tjaart.

EM 179S, chegaram a De Kraal notcias que surpreenderam ., Van
Dooms. Sempre que o correio que partira da Cidade do Ca . para
as montanhas se detinha para comunicar o sucedido, o espan
apossava?se dos homens, que perguntavam:
??Mas como pde acontecer uma coisa dessas?
??Tudo quanto sei  que  verdade. Todos os postos da Comp
nhia na frica do Sul se renderam aos Ingleses. J no estamos
ligados a Holanda. Agora somos cidados de Inglaterra.
Era incompreensvel. Aqueles agricultores afastados tinham
apenas uma vaga noo sobre a revoluo em Frana e a nova
repblica radical que naquela altura controlava a Holanda.
Sabiam que a Frana e a Inglaterra estavam em guerra, mas
ignoravam que o novo Govemo Holands se aliara  Frana,
enquanto os velhos realistas apoiavam a Inglaterra. Ficaram
perturbados quando souberam que O prncipe de orange,
Guilherme V, fugira para Londres e que desse refgio cedera o
Cabo aos seus anfitries ingleses.
Lodevicus e Wilhelmina pediram ao mensageiro que repetisse os
factos, e ao terminar ele confirrnou a surpreendente verdade:
??Esta colnia  agora inglesa. A vossa posse das herdades
ser confirmada, e soldados ingleses estabelecero a paz na
fronteira
Quando o mensageiro partiu, Lodevicus, com o seu filho TJaart
sobre os joelhos, conversou com Wilhelmina acerca dos
problemas que os Holandeses teriam de enfrentar em frica.
??Novos govemantes que no seguem os ensinamentos de Joao
Calvino tentaro modificar a nossa igreja, reconstrui?la
segundo os seus moldes, destruir as nossas velhas convices.
Como no falam a nossa lngua, forar?nos?ao a falar a deles.
Promulgaro as suas leis em ingls, importaro livros
impressos em Ingls, exigiro que rezemos pela Bblia
inglesa.??Apontando, como um profeta do Antigo Testamento,
para os vrios membros da sua famlia, declarou em tom
auguratrio:??Ser?vos? dito que no deveis falar holands.
Que tereis de conduzir os vossos assuntos em ingls.
Anos mais tarde, Tjaart di.?ia:
??A recordao mais antiga da minha vida  a de estar sentado
num quarto escuro, ouvindo o meu pai bradar: Se o meu
conquistador me obrigar a falar a sua lngua, est a tomar?me
seu escravo. Resiste! Resiste!
E quando os soldados ingleses chegaram, seguidos pelos
magistrados, os Van Dooms resistiram de facto, embora tal
atitude pudesse parecer louca. E depois, decorridos alguns
anos, surgiu novamente a confuso, pois o mesmo mcnsageiro
regressou com notclas extrordinrias:
??Somos outra vez holandeses! A Inglaterra e a Holanda so
aliadas, combatendo um homem chamado Napoleo Bonaparte.
Podeis ignorar as leis inglesas.
E assim os soldados ingleses foram retirados e a vida
regressou 
ua ordem habitual, o que naquela zona remota significava total
auncia de ordem. oS Xosas continuaram a fazer incurses
atravs do Grande Rio, e Vicus a castig?los por essa
insolncia. Matar tomouse de tal modo um lugar?comum que
muitas vezes o facto no era sequer comunicado aos
funcionrios distritais em Swellendam.
A restaurao da governao holandesa teve um curioso efeito
Secundrio Um funcionrio inferior, mas condescendente, que
veio da Holanda para inspeccionar a fronteira, uma vez
concludo o seu
A Alian a

exame, teceu o seguinte comentrio acerca da triste
deteriorao da lngua holandesa na colnia:
??Por vezes, tenho dificuldade em saber se estou a ouvir
holands, devido  fomma como deturpais a lngua. Tomais
palavras de emprstimo com liberalidade, adoptando as piores
das lnguas nativas e esquecendo as vossas boas palavras
holandesas. Deveis purificar?vos de tais abominaes.
os Beres falavam realmente uma mescla de
holands?malaio?portugus?hotentote. Lodevicus observou ao
funcionrio holands:
??Pareceis estar a chamar?nos brbaros.
?? nisso que vos tomareis se esquecerdes o vosso
holands?replicou o visitante. E este incidente assinalou o
incio da desconfiana que a famlia Van Doom comeou a nutrir
em relao aos holandeses da ptria, que consideravam um grupo
de snobes e citadinos sem apreo pela vida da fronteira.
Quando o estranho partiu, Lodevicus reuniu a famlia e disse:
??Falaremos holands da maneira que quisemmos. ??E assim
continuaram a fommar a nova lngua, que seria chamada
afrikaans, o holands dos Sul?fricanos.
Em 1806, quando os Van Dooms se felicitavam por terem repelido
a ameaa inglesa e a regio regressar ao calvinismo nommal,
chegaram as ltimas notcias inesperadas. Como os cidados
holandeses se haviam aliado a Napoleo, a Inglaterra pretendia
reocupar o Cabo para o impedir de cair nas mos dos Franceses,
que cortariam a rota de abastecimentos com a India. o Cabo
voltou a ser uma possesso inglesa, e nem a Holanda nem o
govemo local holands continuariam a exercer a autoridade.
Renasceram todas as apreenses de Lodevicus acerca da
supresso s mos dos Ingleses.
Depois de ter sido uma estao intermdia entre a Holanda e
Jav desde 1647, o Cabo tomava?se agora uma entre a Inglaterra
e a In dia, e a indiferena com que a Holanda sempre tratara
aquela possesso, potncialmente grandiosa, contrastava com a
autoridade britanica.
Em semelhantes dias de mudana era inevitvel avaliar a
importncia do longo domnio da Holanda, quase sem paralelo na
histria mundial. A ptria no consentira nem ao seu monarca,
nem ao seu Parlamento, nem aos seus cidados que tivessem voz
activa no govemo da distante possesso; o controle
mantivera?se nas mos de um grupo de negociantes que tomava
todas as decises, tendo fundamentalmente em vista o lucro. Na
sua essncia, a colnia fora um empreendimento comercial.

Tal situao impusera limitaes. A colonizao rpida que
assialara a ocupao francesa, espanhola e inglesa na Amrica
do Norcujos cidados se intemavam exuberantemente no interior,
fora sencorajada na frica do Sul. os Dezassete sempre haviam
aconLhado precauo, refreamento, no fosse o caso de
elementos ouados como os Van Dooms ficarem to afastados que
no pudessem r facilmente disciplinados. Esta poltica
restringia o crescimento mmal. As fronteiras nunca se
estenderam at limites lgicos, tais mo o rio Zambeze a norte,
o que significou que nunca nascesse a entidade genrica.
Negociantes absentistas, que apenas procuraam o lucro, no
geram um sentido de destino evidente, e sem este pulso
espiritual nenhuma nao pode atingir o seu potncial mimo.
Em consequncia da poltica da Companhia, rigorosamente imsta
ao longo de dezasseis dcadas, a frica do Sul permaneceu um
tado truncado, tendo apenas alguns pioneiros holandeses
dispostos enfrentar o desconhecido. os Dezassete eram to
relutantes em lutorizar qualquer emigrao atravs da qual no
auferissem lucros mediatos que, durante todo o sculo XVIII,
apenas permitiram o desembarque de mil e seiscentos novos
colonos! Uma mdia de dezaseis recm?chegados por ano no
consegue manter saudvel nenhuma ociedade .
A culpa no era, porm, exclusiva dos Dezassete, pois nas
raras casies em que estes advogaram a emigrao a resposta
daqueles ue vi iam no Cabo foi unifommemente negativa.  E
absolutamente impos \el introduzir mais brancos no pas, onde
eles no arranjariam meios de subsistncia , diziam. o que
significava de facto que as posies vantajosas, j ocupadas,
no seriam partilhadas. No havia lugar para o emigrante duro
e empobrecido que procurava um novo pas e uma nova
oportunidade, pois o trabalho que essa gente normalmente
executaria j era realizado pelos escravos.
Em nenhuma rea o papel da Companhia se mostrou mais
deficiente do que na educao. Como a populao estava
escassamente dispersa por milhares de quilmetros quadrados,
era impraticvel a in t  ) de grandes escolas, e aquelas que
foram tentadas nas cidades i r Ul1 atrozes. No veld, onde
cresceram milhares de crianas
Van Dooms, a educao foi deixada a cargo de um grupo
u . isores itinerantes que possuam apenas escassos
conhecimencrita e leitura. Um viajante calculou que setenta e
cinco por m l. s criancas da colnia eram iletradas.
A Alian a

Tal situao no era de surpreender, pois a Companhia j
governava a colnia h perto de sculo e meio antes de
autorizar a impor tao de uma prensa tipogrfica ou a
publicao de qualquer espcie de livro ou jomal, realizaes
que no Canad  se verificaram quase automaticamente. A Amrica
no teria sido a mesma sem os seus impressores itinerantes,
cartazes inflamatrios e jomais litigiosos; mas foi
precisamente esse gnero de perturbadores em potncia que a
Companhia procurou evitar.
Em semelhante clima no podiam, pois, ser criadas instituies
de ensino superior. Toda a histria da frica do Sul podia ter
sido diferente se tivesse existido um forte sistema escolar
encimado por uma universidade cujo corpo docente se dedicasse
 criao de uma nova sociedade. Em vez disso, as novas ideias
ou no germinavam ou eram aniquiladas.
As culpas cabiam tambm em grande parte  Igreja Reformada
Calvinista Holandesa, cujos chefes estavam convencidos de que
apenas podiam confiar em predikants treinados nos
conservadores centros protestantes da Holanda e a quem
aterrorizava a possibilidade de que um seminrio no Cabo
pudesse vir a patrocinar ideias estrangeiras. o que faltava na
frica do Sul era a presena daqueles descarnados ministros
Pilgrim' da Nova Inglaterra, que cortaram completamente com os
ditames europeus e passaram a encarar os problemas religiosos
segundo uma nova perspectiva local.
A noite de trevas em que a nao sul?fricana nasceu." assim
denominariam alguns historiadores este perodo de trekboers,
em que o esprito mercantilista sufocou as necessidades
cientficas, criativas e polticas dos cidados.
Mas havia o reverso da medalha, e esse afimmava?se
brilhantemente. Atravs de um ensino assduo no ambito
familiar, numerosas crianas holandesas tiveram a sua prpria
universidade mpar, cujo currculo era um dos mais efectivos
na histria da educao. Possuam uma Bblia macia, que os
acompanhava para onde quer que fossem; o seu currculo era o
Antigo Testamento, cujas narrativas previam qualquer
acontecimento que pudesse ocorrer. Havia, evidentemente,
muitas famlias de trekboers que ignoravam a Bblia, quer por
analfabetismo, quer por indiferena, mas a maioria estudava?a
e obedecia?lhe .

' Nome dado aos colonos puritanos (lue chegaram em 1620 
Amrica, fundando a colnia de Plvmouth. (N. do E.)

Poucas naes jamais foram to solidamente doutrinadas num
corpo de princpios como os Holandeses na frica do Sul, o que
produziu um volk ??povo ??com uma tremenda fora anmica,
autoconfiana e vontade de persistir. Com o apoio constante da
sua universidade teolgica, que cada homem levava consigo
quando se deslocava, a colnia holandesa tomou?se um Estado
conservador, temente a Deus, e assim permaneceria no obstante
a ocupao britanica, as guerras inglesas e a ameaa constante
de imposio dos vslores ingleses. Na frica do Sul, o Antigo
Testamento triunfou sobre a universidade porque era a
universidade.
Numa questo importante se enganou Lodevicus. Quando gritava:
A frica do Sul  holandesa e assim pemmanecer, tinha uma
noo falsa da composio da sua comunidade branca:
ascendncia holandesa, quarenta por cento; ascendncia alema,
trinta e cinco por cento; componentes huguenotes, ou
protestantes franceses, vinte por cento, e um componente
malaio?hotentote?negro ??genuino, no
I obstante ter sido mais tarde negado pelos descendentes de
Van Doorn??de pelo menos cinco por cento. Esta mistura
criativa produzira um volk belo, duro, jovial, imbudo de
esprito trekboer, a que nenhum govemador ingls imporia
facilmente uma disciplina com vista a faz?lo seguir qualquer
caminho que a autoridade britanica pretendesse.
os voortrekkers
1834?1843

1 ; ",

M 1834, Tjaart van Doom sentia?se to   feliz quanto um homem
pode ser. A sua heraar le, L)e Kraal, estava florescente.
Tinha uma mulher honesta e trabalhadora, Jakoba, dois filhos
adultos que j haviam constitudo famli e uma filha
encantadora e querida, Minna, recentemente casada com um
devoto professor holands, Theunis Nel.
Nel no vira satisfeito o seu desejo mais caro, ser ordenado
predik 7nt, por possuir o olho esquerdo estrbico e
lacrimejante. Era crena generalizada que ningum com um
defeito fsico podia servir a Deus no altar. Mas Nel estudara
para se tomar missionrio, e viera para a frica do Sul para
servir nessa qualidade. Professor itinerante estudioso
vagabundo, confortador dos doentes nos territrios
fronteirios, a sua principal virtude era a de, entre todos os
confortadores de doentes em frica e Java, ser o nico que
verdadeiramente levava conforto aos moribundos.
Embora pudesse ler os sermes de outros, Theunis Nel nunca
poderia pregar um da sua autoria; eram severas as leis da
Igreja que regiam o seu comportamento. Assim, o holands
trazia sempre consigo um pequeno livro de sermes que
decorara, mas que, prudentemente, continuava a ler em voz
alta??o mximo que Lhe era permitido .
Em certa ocasio, Nel, que era mais velho do que o seu sogro
pedira?lhe:
??Por favor, Tjaart, os anos passam e ainda no fui ordenado.
No poders falar ao predikant?
Tjaart apresentara a sua Bblia e lera?lhe uma passagem do
Levtico que era terrivelmente explcita:

E o Senhor falou a Moiss, di endo ... Todo aquele ... que
tiver  llgl m defeito. no o deixes apro. imar?se para okreeer
o po

I oS primeirosFanicipantes no movimento, ocomdo em 1836. que
ficou conhecido na histria da frica do Sul como a Grande
Caravana, quando milhares de Weres auiseram fu ir ao domnio
in771s.  N. do E.l

 lo  el/ Del s ... ol  eorel nda, oll an io, ol  que tenl  m
leteito 11
 lll . ist l . . ele n lo  lel e . . .  l/7ro. ?ir1 r?se  /o
lr, /70rql e tem l m
  feito; ql e ele n lo /7rof lne os Mells s lntll /ios.

Deixando o livro aberto para que Theunis o pudesse ler, Tjaart
dis ela:
??? Aqui est. Tu tens um olho estrbico. E impossvel seres
predil; l nt .
??Que hei?de fazer???suplicou Nel.
Tjaart conseguiu apenas dizer:
??Tu s um professor. s o confortador dos doentes de Deus. 
ssa forma que deves servir.
Com quarenta e cinco anos de idade, Tjaart era robusto, com um
.mblante firme e uma barba negra que Lhe cobria todo o rosto.
sava roupas pesadas, jaqueta curta, colete de pele de vitela,
camisa m gravata e calas rgidas feitas de pele de toupeira,
seguras por
cinto largo e suspensrios fortes; mas o que o identificava
imeiatamente era um chapu de copa baixa com uma aba larga e
penente forrada de azul?claro.
Tjaart tinha razo para se sentir orgulhoso de De Kraal, pois
de nvolvera a herdade sob todos os aspectos. A instalao
bsica connuava a ser aquele vale esplndido implantado entre
montes protec res, mas Tjaart obtivera do Governo o direito de
utilizar pastos ara alm dos montes, e com os lucros que
auferira das suas grandes lanadas pudera ampliar os edifcios
de pedra e barro que constiuam o centro da herdade. Embora
raramente manuseasse avultadas omas de dinheiro, Tjaart
tomara?se um homem de considervel riqueza que podia esperar
uma velhice prspera e sossegada.
E claro que a administrao inglesa suscitava protestos entre
a maior parte dos Beres. Tal como Lodevicus receara em 1806,
o controle ingls do Cabo ameaava o tipo de vida que os
Beres apreciavam Agora, pregavam nas igrejas clrigos
escoceses. os professoreS ingleses insistiam em que a lngua
inglesa fosse falada nas escolas Semelhantes queixas, porm,
eram compensadas pelo facto de os In leses partilharem agora
com os Beres os perigos da vida nos temtrios desabitados do
interior. E os negros invadiam igualmente
 s terras dos Beres e dos Ingleses. De facto, fora numa
dessas inrses de guerreiros negros que Lodevicus encontrara a
morte.
o Governo Ingls, porm, mostrou?se incapaz de promulgar
meudas eficazes com vista a proteger os colonos dos
saqueadores. As
 e   A Alian a

     sim, Tjaart, que era um veld kornet
       funcionrio distrital??, tinha
          Ruinas de Zimbabwe
.    frequentemente de levar os seus                        ::
     agricultores para a povoao in?
     glesa de Grahamstown, a fim de      .                  .

.    ajudar os seus habitantes a repelir
          VIAGENS . VA
     os ladres de gado dessa rea. Em       `
.    frica Do SUl   ,70o      C
     muitas dessas aces lutou ao lado  ;
     de cidados voluntrios das tropas  .
     irregulares de Grahamstown, como
ll   o major Richard Saltwood, nego?                   |
          .o
     ciante de maffim e descendente do
.              T R A N S V A L
     comandante Saltwood.
             f
       Um dia, um magistrado ingls
     chegou a cavalo a De Kraal com     750 Paralelo
     uma notcia breve e alarmante: a                  e
                      '
     partir do dia 31 de Dezembro de              :
          , ,  '
     1834, seria abolida a escravatura
                      *  r `vriimeer
     em todo o Imprio Britanico, o que            `  .
                         G    :; :
     inclua, obviamente, a colnia do
               ` V
     Cabo. Mais do que qualquer outra
          Kop
     causa, esta notcia enfureceu os
                     Rio do o
     Beres, que a consideravam con?             0O
          san us   f
i    trria aos ditames de Deus: se?                   ,
 Tu,
,    gundo a Bblia, uns deviam ser se?            .
Kerkenber      ` Din ane
l    nhores e outros deviam ser escra?   e             l
`    Blaauwkrant7  ZULL'
,    vos. Tjaart van Doorn recitava fre?
               . LA 'DI '
     quentemente as passagens recon?    c    D  o s u L
           A?r
     fortantes sobre as quals se fundava                     e
l    a sua ordem social: , ,  Herdade de Rooi van Val
orO           Pono Natal
I         o
         maldicoada seja Canaa;    9
       um servo dos servos ser ela e                Graff
'    .,
a sua prole .. Agora. portan?     .
to, s amaldicoada. e nenhuns       Bo       Relne
oCEANo INDlCo
dos teus sero libertos de se?      o                 Fi 1
rem escravos e lenhadores e
          aguadeiros para a casa do               De Kra l
          meu Deus. Cidade do Cabo         Grdh ms     n
     Grumsto e ICharu 11 000 a C

                                            Mal Adnaan
1766?1769
               Cabo da Boa Esperanca     :,
TJaan van Doorn 1836?1843

.    160
A Alian a

Muitos beres comearam a fomentar a ideia de se mudarem para
o Natal, junto ao oceano Indico, que era ocupado a norte por
tribos zulus e a sul por um escasso nmero de ingleses, mas
que possua bons terrenos para cultivar na zona central. A sua
inteno era formar uma nova nao ber, mais obediente  lei
de Deus.
No obstante o dio que nutriam pelo domnio ingls, os Van
Dooms estavam decididos a permanecer em De Kraal, relutantes 
ideia de abandonarem a sua herdade farta. Finalmente, em
Dezembro de 1834, aps uma srie de incurses xosas em
propriedades beres as unidades militares beres do Norte
foram convocadas a Grahamstown para se juntarem s tropas
irregulares e aos voluntrios civis como Saltwood.
Rapidamente, os brancos descobriram que desta vez no teriam
de enfrentar centenas mas milhares de xosas; preparava?se uma
resoluta invaso negra da colnia.
Depois de catorze dias violentos passados sobre a sela, os
homens de Tjaart tiveram uma semana de licena; eram
agricultores, no soldados, e a sua principal responsabilidade
consistia em garantir a segurana das suas propriedades e
rebanhos. Enquanto os homens, exaustos, cavalgavam de regresso
a Grahamstown, o major Saltwood falou seriamente com Tjaart.
??o vosso amigo Piet Retief est a falar em sair daqui e
emigrar para o Norte. Se ele partir,  bvio que vs todos
ireis. Em minha opinio  um erro. Vs e eu demonstrmos que
os Beres e Ingleses podem viver juntos.
??As vossas leis vo contra a Bblia.
??Contra o Antigo Testamento, no o Novo.
?? o Antigo que conta.
??Seja, se assim o quereis. Mas se decidirdes ir para o Norte,
eu estaria muito interessado na vossa herdade. E a melhor
desta rea.
??No estou interessado em vender??replicou Tjaart. Porm,
depois de reflectir no assunto, compreendeu que talvez
devessem emigrar para o Norte e formar uma nova nao, livre
das leis e dos hbitos ingleses.
Tais pensamentos abandonaram?no quando ele e Lukas de Groot,
seu vizinho trinta quilmetros para norte, chegaram ao cimo do
ltimo monte antes de De Kraal, onde se Lhes deparou um
cenrio de devastao. Todas as partes do celeiro que no eram
de pedra tinham ardido; o telheiro de madeira ao lado da casa
estava reduzido a cinzas, e no terreiro entre o celeiro e a
casa encontrava?se o que fora um carroo novo, agora
chamuscado e destrudo.

EM 1835, aps o nascimento de Sybilla, filha de Theunis e Min?
Tjaart van Doorn aconselhou?se com Jakoba acerca da herdade  m
runas.
??Achas que a reconstruamos???perguntou.
??Devemos ir para o Norte??respondeu ela.??Procurar terra
A Alian a

Lukas e Rachel de Groot vieram a De Kraal com seu filho,
Paulus, para exporem a triste situao em que se encontrava a
sua herdade.
??No temos coragem para reconstru?la. Vamos atravessar o F.o
orange e descer depois at ao Natal??declarou Lukas.
os De Groots permaneceram vrios dias em De Kraal, e ningum
mencionou a data em que os Van Doorns deixariam a herdade,
embora a cada dia que passava a partida se tornasse mais
inevitvel. . s lgrimas assomavam frequentemente aos olhos de
Jakoba, e o prprio Tjaart passara um momento doloroso uma
manha quando dois pastores negros gritaram: Baas!n
??patro??< V o que a vem!" Vindas dos montes a sudeste,
penetravam nas terras cultivadas dezassete palancas negras,
com manchas brancas no focinho e extrordinrios chifres em
forma de cimitarra que se curvavam para trs
com um metro ou mais de comprimento.
Todos os Van Doorns saram de casa para observar aquela
elegante parada.
??Devem ser as ltimas a sul do rio orange??disse
Tjaart.?Reparem na suavidade com que levantam as patas. ??Eram
belos majestosos, aqueles sobreviventes de uma grande manada
agora reduzida. Nunca at ento tinham sido vistos em De
Kraal, e a sua tranquila passagem atravs da herdade parecia
pressagiar um movimento semelhante dos Van Doorns.
Nessa noite, enquanto as majestosas palancas se demoravam no
vale, Tjaart declarou com simplicidade:
??Vamos segui?las para norte. A nossa vida aqui tambm j no
faz sentido.
??Creio que devemos rezar??disse Theunis, e leu do Exodo
quatro textos oportunos sobre a travessia do mar Vermelho
empreendida pelos Israelitas em busca da sua terra
prometida.??Somos os novos israelitas??concluiu.
Alguns dias depois, os carroes foram carregados e os Van
Doorns, os De Groots e alguns outros vizinhos, um grupo
insignificante entre as vastas migraes da Humanidade,
dirigiram?se para um mundo que no podiam sequer imaginar.
Iniciava?se a Grande Caravana. os voortrekkers ??os trekkers
que seguiam  frente
tinham?se posto a caminho.
No dia lS de Maro de 1836, o grupo de Van Doorn, como ficou
conhecido, atravessou o rio orange, deixando a jurisdio de
Inglaterra e dirigindo?se para os vastos territrios que Mal
Adriaan explorara setenta anos atrs.

Devido a vrias adeses, o grupo consistia agora em dezanove
famihls com dezassete carroes??o nmero menor que
permitiria a P  l iio adequada de um cordo, ou acampamento,
no interior do qu"l .  n1ulheres, crianas e cabeas de gado
ficariam protegidas. Tja.  m quarenta e sete anos, era
reconhecido como o chefe. Dua  tras poderosas influncias eram
o seu amigo Lukas de Groot e B.l  uiz lr Bronk, um homem de
quem Tjaart instintivamente descont.  .,. Bronk revelava
simultaneamente duas personalidades bastant  !curltas: com os
superiores, era obsequioso; com os outros, era freq./
nternente distante e dominador. Nunca era simplesmente
Balthaz;  Br nk, agricultor.
o  rupo emigrante inclua dezanove homens e igual nmero de
mulhere . o que perfazia trinta e oito adultos, todos com
experincia de comhate. Levavam consigo noventa e oito
crianas, algumas ainda de tenra idade, como Sybilla, a filha
de Theunis e Minna, e
.tras j com idade suficiente para pegar numa espingarda.
Eram  portanto, cento e trinta e seis brancos, servidos por
duzen
negros e mestios. Na maior parte dos casos, estes servos
haviambem tratados nas herdades e sentiam que pertnciam aos
Beres,
  como um escravo pertence ao dono, mas como uma criana per
ce  famlia.
 Estes criados haviam permanecido leais mesmo depois de os In
~ s terem abolido a escravatura, e no viam motivo para
deixara o seu baas. Quando encontravam outros mestios ou
negros, .nentavam que o seu baas era o melhot do Mundo. Para
demonsn a verdade do que afirmavam, na sua maior parte estavam
postos a morrer pelo seu povo branco.
Cada um dos dezassete carroes era puxado por doze a
dezasseis
 is, havendo ainda meia dzia de reserva; todos os homens, a
maiona dos rapazes e muitos dos mestios tinham cavalos. E o
grupo, no seu  .)njunto, levava dois mil bovinos e mil e cem
ovinos, o que expih a  a a razo pela qual os voortrekkers se
sentiam felizes quando con c eui.?im percorrer dez quilmetros
por dia.
A3enas dois dos beres, Tjaart van Doorn e Theunis Nel, sabiam
ler, n ac todos sabiam recitar passagens da Bblia, e  medida
que se prep ira am para penetrar num novo territrio
comparavam?se constanteriente com os antigos hebreus do Livro
de Josu. Noite aps noit  quando os carroes se reuniam??sem
forma em crculo, poi  rio havia ainda inimigo??, Theunis
Nel, em jeito de predikant, lla Cilaces do primeiro captulo.
Inevitavelmente, os Beres acaba
A Alian a

ram por acreditar que constituam uma reencamao do
exrcitoJosu e que Deus tambm os protegia:

Levanta?le, e passa esse Jordo, lu, e todo o povo conrigo,
para entrares na terra que eu darei aos f;lhos de Israel. Todo
o lugar que as plantas dos vossos ps pisar m, eu vo?lo
entregarei ... Nenhum homem vos poder r sistir todo o tempo
que viveres ... No te deilarei, nem te desampararei ... T m
animo, pois, e reveste?te de grande valor, para observares e
cumprires todu a lei.

Deve ser notada outra caracterstica dos voortrekkers: muitos
d . adultos tinham tido mais do que uma mulher. Sendo como
eram p triarcas do Antigo Testamento, nenhuma mulher era
autorizada permanecer durante muito tempo viva.
Eram, na generalidade, um grupo intransigente e opinioso de h
landeses, cujo isolamento Lhes pemmitira voltar costas s
influnci; liberalizantes do sculo XVIII. Satisfaziam?se com
os fundamento que os seus antepassados haviam trazido consigo
em meados ~ Seiscentos e rejeitavam todas as ideias importadas
pelos Ingleses.
Acima de tudo, os voortrekkers eram autoconfiantes. Quando Ul
deles chegou a um pequeno rio que corria para norte, no
hesitou e] anunciar: Este  o comeo do Nilo", embora esse
rio ficasse a tre mil quilmetros de distncia, e
imediatamente o baptizou de Nyls troom??o que significa rio
Nilo.
os carroes em que os voortrekkers iriam viver durante os do
ou trs anos seguintes em nada se assemelhavam aos grandes e
pesa dos veculos que cruzaram as pradarias americanas. Eram
de peque. nas dimenses, apenas com quatro ou quatro metros e
meio de corn primento, protegidos por uma cobertura de lona,
surpreendentemen estreitos e de tal modo ajoujados com os bens
das famlias que ape nas uma pessoa podia dommir no seu
interior, habitualmente a mae, que improvisava uma cama
sumria sobre a bagagem.
Uma caracterstica superior do carroo dos voortrekkers era o
seu disselboom, o timo, ou cabealho, com moente, cujo
process  . de fixao ao eixo dianteiro pemmitia um mximo de
flexibilidade  : tanto na direco como no andamento sobre o
trilho irregular. Apenas a ltima parelha de bois era ligada a
esse timo; todas as outra . puxavam correntes e arreios
ligados ao carroo.
Dado que perto de dois mil carroes participaram nos primeiro

ovimentos beres para norte, comearam a ficar assinalados
trilhos o v .ld. mas muitos grupos, como o de Van Doom,
partiram entreues a si mesmos, abrindo caminho de um planalto
para outro.
Tomou?se hbito dos voortrekkers pemmanecerem em qualquer ugar
.:onveniente por vezes durante uma semana, outras durante um
s.  essas ocasies, os homens partiam a cavalo para caar
pelos ampos, enquanto as mulheres se encarregavam da costura,
da conco de artigos necessrios e da preparao de pratos
especiais. akoba ficava particulammente satisfeita quando os
carroes se detlham em qualquer lugar onde existissem
temmiteiras, pois aprendera utilizar essas notveis
construes que se erguiam sessenta centme
s ou um metro acima do solo do veld, refulgindo como
minsculasontanhas de areia vemmelha.
E colhia uma temmiteira grande e forte que se encontrasse
isolada ,. com um pau slido, abria?lhe um orifcio na base,
tendo o cuidado e no danificar a parte de cima. As pequenas
tmmitas negras saam
la abertura e desapareciam. Ela enchia ento a cavidade de
paus e
Ih;   ecas a que lanava fogo; durante aproximadamente uma
hora foe" ardia em labaredas e depois em combusto lenta.
Finalmente, ter.niteira ficava transformada num excelente
fomo.
  .m de gostar de cozer o po em semelhantes fomos, Jakoba
abi.man1bm preparar neles um delicioso prato de caril torrado
feito om hitc  de ant10pe mergulhados num molho temperado com
cebolas ec  De tal modo este prato agradava aos homens que
estes, enuamo   iajavam, no deixavam de procurar ninhos de
trmitas, e as ulh;.res sabiam de antemo que, quando estes
surgiam em abunan..i.n sc verificava nommalmente uma paragem
longa e repousante. miorao detemminada destes voortrekkers
atravs da paisagem ra  ..melhante ao deslocamento vagaroso de
uma pequena aldeia, al  o no respeitante a um aspecto
surpreendente: entre os catorze mil t r  que acabariam por
seguir para norte no havia um nico clrireja Reformada
Holandesa recusou?se a sancionar o xodo
.i., e por razes de.peso: suspeitava de que os exilados
repreum esprito revolucionrio que o calvinismo no podia to
 untia?se apreensiva com movimentos no autorizados para
inexplorado, uma vez que numa terra estranha a dominao .
podia ser reduzida. Resolutamente, a Igreja voltou costas
.:rantes, tratando?os como revolucionrios e ignorando os
pedldos de assistncia.
. lai  notvel foi o facto de, neste acontecimento to
significativo
A Aliana

da histria da frica do Sul, os predikants, muitos dos quais
se recusaram, pura e simplesmente, a acompanhar os viajantes,
se terem individualmente separado do povo. Assim, os
voortrekkers, dos homens mais religiosos do Mundo, no puderam
ter baptismos, casamentos ou funerais solenizados, nem
servios religiosos semanais
o homem que mais sofria com este estranho facto era Theunis
Nel. Ressentido pela recusa da Igreja em ajudar os
voortrekkers, ofereceu?se em ocasies diversas para actuar
como predikant substituto mas foi invariavelmente rejeitado
devido ao seu olho defeituoso. Theunis no se queixava.
Atendia os doentes, tentava ensinar as crianas e recitava
oraes nas sepulturas dos que morriam. Uma vez, no decorrer
de um funeral, dominado pela emoo, Theunis lanou?se num
semmo improvisado junto da sepultura sobre a natureza
transitria da vida humana. Depois de os acompanhantes do
funeral terem partido, Balthazar Bronk censurou o confortador
dos doentes:
??Tu no deves pregar. No s um predikant.
??Mas estvamos a enterrar um pobre velho.
??Enterra?o. Mas mantm a boca fechada.
E quando um jovem casal se quis casar e abordou Nel, reque i
rendo a sua assistncia, este mostrou?se disposto a satisfazer
o pedi
do, mas de novo Bronk foi inflexvel.
??Eles que esperem at que chegue um verdadeiro ministro.
o par teve de partir sem ver a sua unio santificada, mas
Theuni seguiu?os a cavalo e disse?lhes:
??Deus quer que os Seus filhos se casem e se multipliquem .
Declaro?vos marido e mulher, e quando um verdadeiro predikar
chegar podereis casar?vos devidamente.
Para onde se dirigia aquele xodo? Ningum se preocupava cor
tal incgnita. As famlias estavam mais interessadas em se
libertaren da autoridade inglesa do que no seu destino.
Algumas propunham?s cortar para leste atravs das montanhas
Drakensberg, que rodeavan o Natal. outros, como Tjaart van
Doom, estavam decididos a segui para norte, atravessar o rio
Vaal e fixar?se na longnqua regio que seria chamada
Transval.
Uma das mais remotas recordaes de Tjaart era sobre as
histrias contadas acerca de seu av Adriaan, que penetrara
nesse norte acompanhado por um hotentote chamado Dikkop e por
uma hiena domesticada chamada Swarts. Ele disse que
retrocedeu no rio Limpopo e encontrou um lago a que chamou
Vrijmeer, em cuja margem

enterrou Dikkop. Tjaart acreditava que estava destinado a
atingir esse lao.
;ndependentemente do facto de um voortrekker escolher como seu
le lino o Natal ou o norte inexplorado, todos os trilhos
convergial l n ) sop de uma montanha com um nome estranho,
Thaba Nchu ()s voortrekkers chamavam?lhe Tei?ban?chu, e tantos
ali descansar.lln que durante alguns anos esse local
constituiu uma importante p woao.
Foi em Thaba Nchu que encontraram a primeira tribo negra
importante a norte do rio orange. Nos primeiros dias da sua
viagem, tinham encontrado pequenos grupos de negros e alguns
mestios, mas em Thaba Nchu havia uma tribo de cinco mil
zulus, que os recebeu como aliados contra um inimigo mortal
que vivia a norte. Tratava?se de Mzilikazi, o extrordinrio
comandante dos temveis Matabeles, que durante uma carreira de
guerra e de conquista assolou do o territrio, matando
milhares de negros nas primeiras dcadas
sculo xlx.
No dia 13 de Junho de 1836, os carroes do grupo Van Doom
garam a Thaba Nchu, onde j se encontravam quinhentos ou seiss
viajantes que haviam chegado mais cedo e esperavam que os
chefes tomassem uma deciso. Havia agora tempo para descan
e criar novas amizades. Tjaart van Doorn teve oportunidade
deIStatar como Paulus de Groot, o filho de Lukas, se tomara
uma criana. Era um robusto rapazinho de cinco anos, cujo
cabelo
tado em franja que Lhe caa sobre a testa balouava de um lado
a o outro quando ele corria com rapazes com o dobro da sua . A
criana parecia preferir a companhia de Tjaart  do seu io
pai, e esta associao salvar?lhe?ia a vida.
o grupo Van Doom partiu de Thaba Nchu no dia 6 de Julho, e ito
dias mais tarde alcanou o rio Vaal, que encontrou tragado uma
inesperada cheia. Enquanto esperava que o nvel das guas
 asse, Tjaart resolveu ensinar a Paulus o alfabeto e os
algarismos, esperava que aquele prometedor rapaz se tomasse,
quando cres
e, um condutor de homens. Finalmente, o grupo atravessou
oNessa noite, Paulus pediu a Lukas: Posso ficar com Tjaart
esta ? >, ao que o pai acedeu.
Como os Van Dooms tinham acampado bastante mais para oeste
os De Groots, os excitados mensageiros que, a meio da noite,
garam a galope, vindos de nordeste, encontraram primeiro a
famDe Groot. Dois homens cobertos de poeira gritaram:
A Aliana

??Formem imediatamente cordo. Vm a os Kaffirs.
Antes que Lukas pudesse interrog?los, os homens desaparece
ram, esporeando os cavalos em direco a noreste, deixando a
famlia De Groot com uma difcil deciso a tomar. Tinham nove
carroes, nmero insuficiente para fommarem um crculo
adequado, e disseminados por uma vasta zona. Como no estavam
certos de q os negros passassem por ali, decidiram esperar at
ao amanhecer.
Quando, ao olharem para trs, constataram que os voorlrekker
no estavam a prr?teger?se, os mensageiros ficaram
estupefactos
retrocederam para gritar:
??Com mil diabos, faam cordo! J!
Mas mais uma vez os De Groots ignoraram o aviso, pois, co
Lukas acentuou:
??Aqueles homens no so nossos amigos. So ingleses, e es.av
a tentar assustar?nos para nos obrigarem a voltar para trs.
Desanimados, os mensageiros galoparam para oeste ao longo do
rio Vaal at chegarem ao acampamento de Van Doom.
??Fommem imediatamente cordo. Kaffirs.
??Que Kaffirs???perguntou Tjaart.
??Mzilikazi!
Era um nome que bastava para lanar o terror entre aqueles que
tinham ouvido falar das destruies levadas a cabo pelo Grande
Elefante Macho, como Mzilikazi era chamado. Em Thala Nchu um
caador ingls falara dele a Tjaart.
??Por trs vezes os Zulus o atacaram, quando Mzilikazi fugiu e
fommou a tribo dos Matabeles, e por trs vezes ele os
derrotou. Para se proteger, limpou de mato uns quinhentos mil
hectares, matando tudo. Homens, mulheres, gado, animais
selvagens. os seus batedores observavam?nos diariamente, e ele
tem vinte mil guerreiros espalhados por toda a rea.
Tjaart comeou a improvisar com os seus onze carroes um
cordo antes de os dois mensageiros partirem. Para isso formou
um crculo de carroes, encostando a frente de cada um s
traseiras do que o precedia, enfiando cada timo quase
completamente sob o carroo da frente, ligando?o com
correntes e amarrando depois as rodas umas s outras. As
crianas foram mandadas apanhar espinhosas, que as mes
enfiaram depois entre os aros das rodas e nas fendas ao longo
do permetro da fomnao. Quando o cordo ficou pronto, nenhum
inimigo poderia passar quer entre, quer sob os carroes, pois
deparar?se?lhe?ia uma barreira de madeira, lona e espinhosas.
Impro

visoU? e uma pequena abertura, para a qual foi rapidamente
preparado um p.?rto de espinhosas. Nove dos dezasseis criados
mestios foram ..n iados para junto do rio com os bois e os
cameiros; os  stan s  Cte combateriam ao lado dos amos.
D.i.  pessoas observavam a formao do cordo com profundo
inter  Tjaart van Doom e o pequeno Paulus de Groot, demasiado
novo .  ra ajudar a cortar os ramos das espinhosas, mas j com
idade uficientc para fazer recados a Tjaart. Mais tarde,
levaria chumbo s mulherc   ara que estas pudessem recarregar
rapidamente as carabias Cad.l homem precisava de trs ammas,
pois mal disparava uma sta tornava?se intil, e ele tinha de a
passar com a mo esquerda  ua filha, enquanto estendia a mo
direita para a mulher. D c!, era tudo quanto dizia, e a
segunda amma, carregada, era?lhe entregue ara   tiro seguinte.
Jakoba e Minna podiam carregar as armas de Tjaar `olll rapidez
suficiente para manter uma delas sempre pronta a  ! .parar, e
o pequeno Paulus podia trazer?lhes os sacos com a pol oI ,.
A .l .orada rompeu sem qualquer sinal dos homens de Mzilikazi,
ma  10 das nove horas Tjaart ouviu, vindo de leste, um
assustador om   lallte e em seguida o rudo agoirento de
passos pesados sobre terr? i A um grito ensurdecedor de
Mzilikazi!, seguiu?se a apario n  !r,i..l e precipitada de
homens quase nus e uma rajada de setas on,n ras
?  .ao disparem!??ordenou Tjaart.??Deixem?nos aproximar?se.
\  all1ente ouviu o grito Mzilikazi!, e em seguida uma voz
solit.ir.   no interior do cordo rezando: Deus
Todo?Poderoso, ns om()  pc ucos, mas usamos a Tua armadura.
No temos medo, pois emo   rocurado ser justos. Deus
Todo?Poderoso, conduz?nos nesta ata!n, . Era Theunis Nel, de
amma na mo, esperando a carga do

Dlnli`'` I
 1Zilikazi!??gritaram os guerreiros, que se precipitaram para
peqnena concentrao de carroes, esperando aniquil?la.
?? Fo? o!??gritou Tjaart, e vinte ammas dispararam
directamente ontn  os homens de Mzilikazi. A camificina foi
horrenda, mas as rimena5 filas que caam eram incessantemente
substitudas por noas h(  das de guerreiros em vagas
sucessivas.
?? Fo o!??ordenou de novo Tjaart, e os homens da caravana mp
har;lm as armas acabadas de carregar. Mas o intrpido inimigo
ontm la ;  a assediar o cordo.
? T]aart!??chamou uma voz juvenil.??Debaixo do carroo!
A Alian a

Porm, antes de Tjaart poder responder ao aviso, j Jakoba
rachava o cranio de um negro que tentara penetrar, rastejando,
no interior do circulo de carroes.
o assalto prolongou?se por noventa terrveis minutos, cada ho
mem mantendo a sua posio entre as rodas dos carroes e
conti nuando incessantemente a disparar, enquanto as mulheres
carreg,
vam as armas.
Finalmente, os guerreiros matabeles retiraram, enraivecidos p
terem sido derrotados por um punhado de trekkers. Mas alguns
guer reiros negros veteranos reorganizaram?se a uma distncia
segura, gri. tando pela ltima vez: Mzilikazi!, e
precipitaram?se de novo contra as bocas das armas de fogo.
Morreram sobre os carroes, mas nenhum passou.
Ao entardecer, Tjaart saiu com o pequeno Paulus para contar os
mortos.
??Cento e sessenta e sete. Do nosso lado, nenhum.
Ao ouvir isto, Theunis Nel pediu a todo o grupo que ajoelhasse
e, quando eles o fizeram, rezou uma prece fervorosa, na qual
mencionava a religiosidade dos voortrekkers e o herosmo de
que os mesmos davam prova ao penetrarem num territrio novo e
desconhecido E concluiu:
??Deus Todo?Poderoso, quando olhmos o veld e vimos aqueles
temveis vultos escuros, em nmero que a nossa mente no
conseguia abarcar, contra treze de ns, soubemos que a vitria
no seria nossa, mas Vossa.??E todos os homens, mulheres e
crianas que o ouviram, mesmo os sete servos no includos na
orao, souberam que o que Theunis acabara de dizer tinha de
ser verdade.
Quando, porm, se procedeu  ltima contagem, verificou?se que
os voortrekkers no tinham conquistado qualquer vitria. o
acampamento de De Groot, que se recusara a formar cordo, fora
destrudo. Todos os seus cinquenta e dois ocupantes estavam
mortos e horrivelmente mutilados.
??No deves ir l, Paulus??disse Tjaart com lgrimas nos
olhos.??Teu pai, tua mae e tuas irmas esto todos mortos.
??Eu quero ir??afirmou o pequeno sobrevivente; e seguiu a
cavalo com Tjaart e os homens que iam cavar as sepulturas para
.er o que restava da sua famlia. Passou solenemente ao longo
da linha formada pelos seus ps descalos, pois estavam todos
nus, e viu de que maneira tinham sido mortos. Nem uma lgrima
Lhe assomou aos olhos, e quando as sepulturas foram
abertas??com a profundidade

penas necessria para manter as hienas afastadas??, colocou
uma  edra ,obre o peito de cada um dos entes que amara.
A vlolncia dos regimentos de Mzilikazi forou todos os
voorrekker  a alterar os seus planos. os poucos que, como
Tjaart, se inham aventurado a norte do rio Vaal tiveram de se
retirar apressalamente  muito abaixo da margem sul,  espera
do prximo ataque 1 . GranJe Elefante Macho. Dois membros de
uma tribo negra arraia por Mzilikazi arrastaram?se at aos
Beres com a notcia de que  Matabeles estavam a reunir um
poderoso exrcito contra um voor

O Governo Ingls escolheu este terrvel momento para
transmitir,Ivs das ltimas pessoas a chegar ao acampamento, a
sua ltima clamaco. Nela afirmava que, mesmo que os
voortrekkers tives, em escapado do solo ingls, no deviam
pensar que haviam esca pado  le inglesa, pois qualquer
delito cometido a sul do paralelo 2S seria con l.ierado como
tendo tido lugar dentro dos limites da jurisdio in  a e
punido nessa conformidade. Como o rio Vaal se encontra a c
tal1!e a sul daquele paralelo, a batalha durante a qual os Van
Doorr.? c haviam defendido podia ser interpretada como uma
agresso in, fit~icada, e como tal Tjaart, o seu chefe, podia
ser enforcado.
o    c.lm ento provocou uma amargura violenta em Tjaart, que
ainda   alt?(!ava os corpos mutilados de Lukas de Groot e da
sua gente .urll1te dois dias no pronunciou palavra,
limitando?se a levar c( .. is o a proclamao, parando
ocasionalmente para reler as linhas Ct rl ! as. Mas no
terceiro dia reuniu todos os membros do seu grupo t`ormulou a
sua opinio:

 abemos, pelo Livro de Josu, que estamos a fazer uma
obr l  I neus  em obedincia s Suas ordens. Mas a cada passo
os Inol,  e nos opoem. oS Ingleses roubaram?nos a nossa
lngua, o  in)s das nossas igrejas, os nossos escravos. E
agora man i n   no  estas leis, para nos avisarem de que nunca
Lhes escaparem    h?  i ligo: Que todos os Ingleses vo para
o infemob  Eu digo de Groot, agora meu filho: Lembra?te do
dia em que os
rs, enfrentando a morte s mos de Mzilikazi, juraram  ms
livres.

bri;lmente, os membros do grupo murmuraram: Juro! Tonin1 que
se tornara impossvel qualquer novo compromisso m o  In '`!
ieses.
A Alian a

Quando recordava o arrojo com que aqueles primeiros matabeles
haviam assaltado o seu cordo, Tjaart atemorizava?se. Se nos
ataca rem duas, trs vezes mais, que poderemos fazer? Nessa
noite, pro. curou Theunis Nel e pediu?lhe:
??Vem ler a Bblia comigo e dar?me instrues.
Sempre preparado para este gnero de chamadas, o confortador
dos doentes ergueu?se, enrolou?se num cobertor e acompanhou
Tjaart  sua tenda, onde sob uma lamparina que este acendera
se via a Bblia dos Van Dooms.
??Theunis??disse Tjaart??, enfrentamos riscos terrveis.
??Deus acompanha?nos.
??Tens a certeza?
Nel colocou as mos sobre a Bblia e respondeu:
?  _i que Deus quer que o nosso povo estabelea uma nova nao
 Sua imagem. Se Ele nos manda nessa misso, com certeza que
nos proteger.
??Ento porque no mandou Ele que os seus predikants nos
acompanhassem? Nos orientassem com a sua palavra
??Reflecti muito sobre isso, Tjaart. Creio que Ele mandou ge
vulgar, como tu e eu, porque queria que a Sua palavra se ergue
lentamente da terra. No que casse com a fora do trovo, em
mes escritos por predikants eruditos. Se tivssemos connosco
mestre instrudo, carregaramos sobre ele toda a
responsabilidal deix?lo?amos dizer?nos o que Deus pretendia.
Desta forma, ser ns, gente simples, a encontrar as nossas
solues, elas viro corao do voortrekker, e no do
exterior.??Percorrendo a tend _ passos largos, afirmou a
Tjaart:??obters a vitria. Matars os Cananeus.
Conduzir?nos?s, atravs do Jordo, at  terra que  a nossa
herana.
E os dois homens ajoelharam e rezaram.

MZILIKAZI, que comandava cinquenta e seis regimentos de
infantaria altamente treinada, poderia, se quisesse, ter
mandado vinte mil homens contra os voortrekkers; porm, e no
obstante as perdas que sofrera no cordo de Van Doom,
continuava a no acreditar que homens brancos com espingardas,
cavalos e carros ligados uns aoS outros pudessem prevalecer
contra as suas foras. Consequentemente, mandou para sul
apenas cerca de seis mil homens.
Um resoluto corpo de voortrekkers?? composto por cerca
quarenta homens, um nmero igual de mulheres e a proporo h

174

Nal de mestios??formara um cordo macio de cinquenta e um
carroes fortemente ligados entre si e protegidos por slidos
entranados de espinhosas. No centro foi colocado um bloco
constitudo por quatro carros cobertos com tbuas e lonas
pesadas, nos quais se refu iari m as mulheres e as crianas
durante a batalha; estava, porm  revisto que mulheres firmes
como Jakoba van Doom e Minna  el mteriam no exterior, a fim de
ajudarem no combate, enquall merosos rapazes como Paulus de
Groot estariam nas barricad  n.,i?ando por vezes as
espingardas e indo buscar plvora l  mes.
n.  beres tinham escolhido uma rea relativamente plana . uma
pequena colina, o que significava que, para desencaataque, os
regimentos de Mzilikazi teriam de escalar uma pendor suave ou
descer uma encosta ngreme; em qualquer estariam em posio de
desvantagem. Para surpresa dos rs  os Matabeles escolheram a
encosta ngreme, na qua ntai  . um enorme acampamento e
comearam a afiar as sua aias. Durante dois dias os voor
rekkers interrogaram?se: Quand caro eles?
No dia 16 de outubro de 1836, os Matabeles comearam a toma
|lamente posies frente ao cordo. Nessa altura, Tjaart pediu
 unis que presidisse  assembleia dos defensores na recitao
d prece: porm, Balthazar Bronk objectou, alegando que a defes
lia ficar em perigo se as oraes fossem proferidas por um
clrig xprio. A esta objeco, Tjaart replicou:
??o inimigo est a dez minutos de ns e precisamos da ajuda d
us .
Bronk insistiu:
?? eus  perfeito. A Sua igreja  perfeita. Nenhum dos doi
e tolerar um homem defeituoso.
Por conseguinte, o prprio Tjaart foi encorajado a recitar um
e. Foi curta, mas constituiu um poderoso conforto para aquele
mantinham um olho aberto para observar a implacvel aprox o de
cerca de seis mil guerreiros negros endurecidos por muit
talhas .
oS  het`es beres decidiram aproximar?se do inimigo de uma m
ira s l preendente. Um patriarca indmito chamado Hendrik Po
ter props que vinte ou trinta homens??mais de metade de toda
??avanassem a cavalo ao encontro dos comandantes matab
5  procurando parlamentar com eles. Era uma aco que s pod

175
A A ian a

ser concebida por um idiota ou por um homem que se sentisse
tocadO pela mo de Deus.
??Eu vou!??ofereceu?se Tjaart.
??Eu vou!??ecoou Theunis.
Em breve, Potgieter reunira vinte e quatro voluntrios, e a
seguir um vigsimo quinto. Este era Balthazar Bronk, que
Jakoba obrigara a juntar?se ao grupo, envergonhando?o ao
perguntar?lhe: < Tens medo de morrer? Aceitando
relutantemente a arma que ela Lhe lanara, ele reunira?se 
patrulha suicida.
Aqueles homens ousados deixaram a segurana do cordo,
esporearam os cavalos e galoparam a uma velocidade louca
directamente para o inimigo. Por intermdio de um dos mestios
que participavam na surtida e que servira com um caador em
territrio dos Matabeles, Potgieter dirigiu?se aos guerreiros:
??Porque quereis atacar?nos? Ns vimos como amigos.
??Viestes roubar as nossas terras??gritou um dos comandantes.
??No! Viemos viver em paz.
??Mzilikazi, o Grande Elefante Macho, est irado. A sua ordem
 que tendes de morrer.
outro comandante ergueu a lana e lanou o grito de guerra:
??Mzilikazi!
A este sinal os regimentos precipitaram?se contra os
voortrekkers, que se apressaram a regressar ao cordo. Que o
tenham conseguido s pode ser atribudo  providncia divina,
mas conseguiram. ?no de facto, disparando da sela contra os
guerreiros que avanavam, indmitos.
Nem todos permaneceram no cordo. Cinco homens, dominadoS pelo
terror enquanto as zagaias voavam  sua volta, viram a
possibilidade de fuga por um caminho que os conduziria at
Thaba Nchu e  segurana. Sem terem a inteno de se
comportarem como cobardes, fugiram. o jovem Paulus, ao v?los
ir, gritou, estupefacto Eles esto a fugir! Aqueles cinco
tornaram?se conhecidos, na histria dos voortrekkers, como o
Comando do Medo. A sua frente, na fuga, seguia Balthazar
Bronk, com o rosto plido de terror.
No interior do crculo de carroes, Jakoba murmurava: Que
Deus tenha piedade dos nossos filhos. Depois, no foram ditas
maiS oraes, pois com um grito nico, aterrorizador, os
guerreiros negr S caram sobre o cordo.
Durante mais de uma hora pareceu a cada momento que a cadeia
de carroes se ia desagregar. Tantas zagaias caram sobre os
quatrO carros do meio que Paulus apanhou mais de vinte.
Seleccionando a mais forte, colocou?se num ponto em que os
carroes pareciam prestes a ceder e espetou?a em todos os
negros que tentaram penetrar no crculo.
o cordo aguentou. Aquelas mulheres corajosas que ajudaram no
combate mantiveram?se no seu posto??exaustas, banhadas em
suor, ternveis. E os carroes resistiram. Um grupo de seis
foi empurrado sessenta centmetros para trs, to poderosos
eram os assaltantes matabeles. mas no final at esses carros
resistiram, com os seus veios rachados, os seus toldos
rasgados, os seus lados salpicados de zagaias .
Mais tarde, chamaram Veg Kop??Colina da Batalha??a esse local
onde menos de cinquenta homens determinados, ajudados pelas
suas nolveis mulheres e pelos seus leais criados mestios,
derrotaram mais de seis mil atacantes. Quando Tjaart cavalgou
pelo campo de batalha, contou quatrocentos e trinta e um
matabeles mortos, e sabia que apenas dois voortrekkers tinham
morrido. Mas sabia tambm que no havia praticamente nenhum
membro do cordo que no tivesse recebido algum ferimento; at
Paulus de Groot fora atingido duas  .  es por zagaias, facto
de que se orgulhava.
TJ. . rt estava ileso, mas, para sua aflio, verificou que
Theunis Nel re.cbera dois golpes srios. o homem que
confortava os doentes teve por sua vez de recolher a um leito,
e durante o perodo de espera em que os Matabeles tinham
abandonado a luta, mas no o campo de batalha foi visitado por
muitos que declararam que, como homem de cora em e devoo,
ele devia ser proclamado o mestre dos voortrekker

todo mai pud cria te: o
cont seu alinu para com

s tinham vencido a batalha de Veg Kop, mas quando fizeram  ;
das perdas descobriram que os Matabeles tinham morto
p.lstores mestios e haviam arrastado consigo todos os anios
Beres possuam. Durante dezoito dias de fome no .lir do seu
cordo, e a sua condio tomar?se?ia mais pre
.1 se no tivesse chegado auxlio de um inesperado quadrane e
zulu em Thaba Nchu, sabendo da aflio em que se ennl..
decidiu que devia ajudar a gente corajosa que derrotara o m zo
Nesta conformidade, enviou para norte um grupo com a  para os
Boeres, bois para os seus carroes e um convite  n sarem 
segurana de Thaba Nchu, que eles aceitaram  ti io.
ot stante a perda do seu gado, os voortrekkers sentiam?se to
jubilosos que organizaram uma festa que se prolongou por
muitoS dias, assinalada por bebidas copiosas e canes
rouquenhas. Quando Tjaart resmungou: Eu s queria encontrar
Balthazar Bronk e os outros que fugiram , aconselharam?no a
esquec?los. TTm rt  h m nc   n

les chegaram aqui a galope e descreveram?se a si mesmos mo
eris. Depois fugiram pelas montanhas, onde podem contiar a
ser heris. Algum foi ento buscar um acordeo, e enquanto os
companheidanavam  Tjaart retirou do seu carroo acar,
uvas, frutas
A Aliana

secas e especiarias e na sua panela castanho?dourada confeccio
um pudim de po??o seu contributo para as festividades.
Em Abril de 1837, Tjaart encontrou mais uma vez o homem se
iria tornar a figura memorvel da Grande Caravana, Piet Retie
` agricultor das terras fronteirias com quem Van Doom frequen
mente participara em combates com os Xosas.
??Anda comigo para o Natal??disse ele a Tjaart.??os Zu d
deixar?nos?ao em paz. o seu rei, Dingane,  um homem sens
Podemos negociar com ele.
??Detestaria deixar este planalto??replicou Tjaart. ??Mz kazi
continua a ser uma ameaa, mas eu continuo a querer ir p
Norte.
??Aqueles que o fizeram no tiveram grande sorte. Creio esto
todos mortos??declarou Retief.
Ele tinha razo. As perdas haviam sido pesadas, e ele apresen
tantos e to fortes argumentos a favor do Natal que Tjaart
finalme se deixou convencer e comunicou a Jakoba a sua deciso
de rem para leste.
A jornada representava a travessia de alguns dos terrenos m
agrestes que os Van Doorns encontrariam. Na sua lenta migr
desde De Kraal tinham subido do nvel do mar at ao planalto,
c. altitude era superior a mil e quinhentos metros. Agora
precisava subir a dois mil e quatrocentos metros e depois
descer vertigin mente at ao nvel do mar e ao oceano Indico.
A subida seria fci . descida a pique, assustadora.
Reuniram?se onze carroes para fazer a tentativa, que subi
sem dificuldade a suave encosta ocidental das montanhas Drake
berg. Quando, porm, chegaram ao topo e viram o que se
encontra  sua frente, at Tjaart empalideceu. Conduzir os
carroes dos vo trekkers por aqueles declives ngremes seria
impossvel, indepen temente do nmero de bois de que os homens
dispunham par ajudar a segurar os carros. E quando viam os
penhascos, os anin recusavam?se a descer, mesmo sem os carros.
Consequentemente, Tjaart e Theunis procuraram um trilho
acessvel, que encontraram. Desceram?no com facilidade e perc
ram terrenos relativamente planos at surgir  sua frente um
nhasco abrupto com sessenta metros de altura. Tentaram ento
novo trilho, e de novo se Lhes deparou uma extenso de terra o
descia suavemente, depois um troo mais ngreme, mas possvel
vencer, e por fim novo penhasco.

Durante trs semanas os voortrekkers tentaram em vo localizar
a aSsagem atravs das montanhas que Lhes permitiria alcanar
as pasgens luxuriantes que sabiam existir l em baixo. Mas a
cada travess a amena sucedia?se sempre um penhasco ngreme.
I Ta quarta semana, Tjaart descobriu um trilho menor que se
diriia directamente para norte, e a sua ntida diferena em
relao aos a teriores tranquilizou?o, pois contrariamente a
estes no era fcil ou c n\idativo: era mesmo penosamente
difcil. A medida que o descia, c nstatava que aquele caminho
se prolongava at terra plana. Poderia s r   essado pelos
carroes? Considerou a hiptese possvel.
para o grupo e disse aos homens:
P( demos percorrer nos carroes a maior parte do trajecto, il
Irallte cerca de trs quilmetros temos de desmontar os carros
c.,?  .a?los pea a pea.
ri nte dois penosos dias onze carroes deslizaram e
escorregapor declives revestidos de ervas, aps o que
chocalharam sobre  no l dregoso. Theunis Nel concebeu a ideia
de trocar as rodas carros colocando as maiores  frente, onde
seriam mais bem ntroladas nos declives mais pronunciados.
outro homem retirou as . das de trs, substituindo?as por
pesados troncos que eram arrastas pelo terreno, proporcionando
um travo eficaz. Estas medidas agradavam aos bois, mas os
mestios tratavam?nos pelo nome, do aos animais
sobrecarregados o encorajamento de que eles nesitavam .
No entanto, cada metro que era percorrido com xito aproximava
i oortrekkers de penhascos baixos, que no poderiam ser
vencidos nenhum carro. Quando os alcanaram, Tjaart apontou
para o inho largo e fcil que os esperava em baixo, depois de
terem sposto os penhascos. Em seguida, conduziu o grupo a uma
proencia, da qual todos puderam ver as pastagens ondulantes
que se
ndiam at ao oceano Indico. Era uma promessa de grandeza e
ndncia.
??Ali est o Natal??disse ele.??Ali est o nosso lar.
Seguiram?se dezanove dias diablicos. Theunis descobriu um
rreiro pelo qual pde levar os bois at s pastagens. Mas
todos os h menS  mulheres e crianas, tanto beres como
servos, passaram h rac de suor e penosos esforos na horrvel
descida. Descarregar o Sdno carroo e em seguida desmont?lo
j de si era difcil, mas rregar tudo pelos declives quase a
pique, onde os ps escorregal nos seixos, era exaustivo. os
voortrekkers aceitaram o desafio;
at Paulus de Groot, cuja altura no atingia .de u a roda,
chamou si a responsabilidade de ?levar um das rodas de
Tjaart, mas na prestou ateno quando Van Doorn o  visou?de
que  no dixasse demasiado depressa. Pouco tempo depois,
Tjaart via, desanimado sua preciosa roda a descer com fragor
pela encosta, prestes a parti ?se em pedaos. Felizmente, a
roda deteve?se por si de encontr um arbusto, e Tjaart riu ao
vr o rapaz tutando para a trazer de v lt ao caminho.
Jakoba revelou?se infatigvel, escorregando e deslizando
enquanto descia carregando cestos, para empreender depois nova
subi? da, ofegante de determinao. Durante todos esses dias
ela trabalhou mais duramente do que qualquer dos bois,
dirigindo a passagem no s do seu prprio carroo como
tambm dos dos vizinhos.
Quando ficou concluda esta parte da descida, os voortrekkers
estavam to exaustos que descansaram cinco dias, durante os
quais Tjaart fez uma afortunada descoberta. Enquanto examinava
o ltimo troo do trilho, encontrou uma srie de cavernas
baixas e belas reas planas rodeadas por elevados blocos de
granito. Do exterior o lu ar parecia uma coleco de poderosos
rochedos que tivessem sido reunidos de acordo com qualquer
plano; o interior, pela configurao, parecia uma catedral,
com os blocos inclinando?se ligeiramente para o centro e
abrindo?se para o cu; todas as aberturas permitiam ver as
belas planuras do Natal. Tjaart conduziu a sua gente at ao
local. a que chamou Kerkenberg??Igreja na Montanha.
Quando chegaram a este local santificado, os voortrekkers fica
ram intimidados pela sua majestade rstica e ajoelharam em
orao, agradecendo a Deus as suas mltiplas ddivas. Enquanto
permane ciam ajoelhados, Tjaart chamou Theunis Nel e proferiu
as palavr pelas quais o pobre homem esperava h tanto tempo.
??Theunis, pelo teu valor e devoo conquistaste o ttulo
predikant. s agora o nosso mestre, e deves dirigir?nos nas
noss oraes.??E desta vez ningum tentou contrari?lo.
Nel, de cinquenta e dois anos, ergueu?se e fitou o cu com o
se olhar estrbico; aquela igreja excedia as suas maiores
esperanas,. aquela ordenao era mais nobre do que qualquer
outra com qtJel tivesse sonhado. A sua curta prece foi o
reconhecimento de qu aqueles beres no poderiam ter
sobrevivido s hordas de Mzilikazi aos perigos do veld, 
descida daqules montes, sem a ajuda d Deus, a quem atribuam
a sua jubilosa chegada e agradeciam anteci? padamente por os
conduzir a uma terra de paz e prosperidade.   .

Assim seja!??exclamou Tjaart. E quando todos se ergueram,
disse:??Perdemos muitos domingos. Theunis, vais pregar para
ns. _ o interpelado olhou apreensivamente a congregao e
sentiu?se desar :.nado quando dois dos homens mais velhos
conduziram as famli.l  aara fora daquela igreja de rochas,
pois era contra a sua crena que l. n homem defeituoso pudesse
servir de mestre. Apenas eles ?eceram, Tjaart dirigiu
calmamente um sinal de cabea ao seu e Theunis, finalrnente
libertado, iniciou um sermo de uma ?.In  cendente .

 ovembro, Tjaart deixou Kerkenberg e seguiu sozinho em terras
mais baixas ao longo do rio Tugela, onde esperava m lar
permanente para a sua gente. No Lhe agradara paralthazar
Bronk, o heri cobarde do Comando do Medo, e na ausncia de
Tjaart assumiria a chefia. Embora Bronk di en t re nac .
digno de confiana, Tjaart tinha um trabalho a realizar,
.esceu at ao rio. A encontrou?se com Piet Retief, que os
atravs das montanhas. ;.i da Zululandia concordou em
ceder?nos alguma terra? Tjaart ao seu amigo. em definitivo. 
por isso que estou satisfeito por te ver o, pois em breve
temos de ir falar?lhe. um homem de barbas, magro, com cerca de
cinquenta e
. estava ansioso por instalar os voortrekkers num lar slido
e fnn..: . Para a prossecuo deste objectivo, faltava?lhe
apenas o acor  fi n l de Dingane, o rei dos Zulus, que j
concordara em princpio om uma proposta de doao de terras
que Retief Lhe apresental . .
()  dois voortrekkers dirigiram um grupo para norte do rio
Tugela, el1 direco a Umfolozi, o rio histrico dos Zulus,
perto de cuja mar nn sul chegaram  aldeia de Dingane, a
capital da tribo.
Dl: ane era um Nero negro, um dspota tiranico mais
interessado   " diverses e intrigas do que numa govemao
slida. A sua
 rand  eia, habitada por quarenta mil pessoas, continha filas
sucesSj  de cubatas em forma de colmeia, vastos terrenos
destinados a p r, ca  uma cabana real com tectos de seis
metros de altura e uma caban   p;lra recepes com um vasto
tecto abobadado suportado por maiS ee   inte pilares, todos
eles completamente cobertos com intrincado  n(!rdados de
contas.
R...det` e Van Doom foram conduzidos ao curral do gado, o
centro
A Ahan a

da vida zulu. Antes, porm, de poderem penetrar nele e chegar
 presena do rei, tiveram de se despojar de todas as armas,
entrandO como humildes suplicantes. Ficaram atnitos com a
vastido do local e com o desejo bvio do rei em impressionar
quaisquer visitantes
??Quando o rei aparecer, deveis cair de rojo no cho e
rasteiar como cobras at aos seus ps??explicou um auxiliar.
??No faremos isso??declarou Retief.
??Ento sereis mortos.
??No. Tens de explicar ao rei que os Beres no rastejam.
??Mas eu no me posso dirigir ao rei sem que ele me fale
primeiro. Se o fizesse, ele matava?me. ??E o auxiliar comeou
a transpirar copiosamente.
Nesse momento, verificou?se um surto de excitamento no extremo
oposto do curral, aps o que todos os zulus presentes caram
de joelhos, enquanto o rei Dingane entrava e sorria para os
dois beres, que j esperava encontrar de p. o soberano
sentou?se ento sobre um notvel trono, numa cadeira de bano
com incrustaes que um negociante ingls Lhe oferecera.
Dingane, que assassinara numerosos parentes a fim de se tornar
rei, pesava cerca de cento e vinte quilos e tinha mais de
trezentas mulheres. Possua um discernimento agudo, e j
dominava a arte de negociar com os Ingleses, que enxameavam na
costa. Como eles possuam navios que os mantinham em contacto
com Londres e a Cidade do Cabo, tinham de ser tratados por um
lado com respeito e por outro com uma rude indiferena. Tal
como Dingane explicara a Dambuza, seu conselheiro?chefe, no
h qualquer problema em dar pontaps aos Ingleses desde que se
faa continncia  sua bandeira e se diga bem da sua nova
rainha".
os Beres representavam um problema muito diferente. No
deviam obedincia a qualquer governante na Europa, nem,
segundo parecia, ao Governo Ingls da Cidade do Cabo. Eram
autogovemados e obstinados e, contrariamente aos Ingleses, no
mandavam vir navios atravs do oceano para os ajudar em tempo
de aflio. Dingane observara a Dambuza:
??So como bois, pacientes e insistentes. Eu posso viver com
os Ingleses, pois sei prever a sua actuao. Mas tenho medo
desseS Beres, que continuam a vir procurar?me atravs dessas
montanhaS que tu me declaraste serem intransponveis.
Da sua enorme cadeira, Dingane fez um sinal, e dezasseis das
suas esposas foram conduzidas para a cabana, onde se colocaram
a seus ?s Doze delas eram mulheres de grande beleza,
envergando traje  de seda, que nas outras quatro, mulheres
monstruosas que pesavam quase tanto como o rel, pareciam
rldiculos.
o rei indicou com um gesto que estava pronto para abrir a sua
sesso de negociaes, aps o que foram convocados seis
oficiais lisonjeadores, que o ladearam e comearam a tecer os
seus elogios:
?? grande e poderoso destruidor dos Matabeles, sbio
Elefante?Mor das selvas mais profundas, cujos passos fazem
tremer a terra, que mandais empalar os feiticeiros ...??Aps
uma dzia de qualificati oi adicionais, Dingane mandou calar
os aduladores, que estavam preparados para prosseguir o dia
inteiro, caso necessrio.
Quando, finalmente, o rei falou, Retief e Van Doorn perceberam
com clesapontamento que nenhuma negociao autntica se
entabularia nesse dia; o que Dingane tinha em mente era uma
srie de exibices concebidas para impressionar os visitantes,
com vista a evidnciar o seu poder e a insignificncia deles.
Para iniciar essas exibies, serviu?se de um dispositivo que
j aterrorizara anteriores visitantes. Numa voz portentosa,
gritou:
??os guerreiros que entrem.??E depois cuspiu sobre o pulso
esquerdo.??E que o faam antes que o cuspo seque.
??? Que acontece se o cuspo secar antes de os guerreiros
chegarerm.' ?? perguntou Tjaart a um intrprete.
??? o mensageiro que recebeu a ordem  estrangulado.
o, Querreiros estavam prontos. De numerosas entradas, mais de
dois mil combatentes zulus precipitaram?se para o interior do
curral, empunhando altos escudos brancos que agitavam de um
lado para o outro numa demonstrao fascinante. Depois, com
trs poderosas pancadas dos seus ps direitos, gritaram uma
saudao real:  Ba ete. i e a terra repercutiu o som. Em
seguida, deram incio a uma dan .a ,uerreira, por vezes
balanando?se suavemente, outras dando saltos p ra o ar numa
sincronizao perfeita.
Quando o primeiro dia, passado desta forma, terminou, Retief
disse para o rei:
Amanha falamos.
n  era esse o plano de Dingane, que no dia seguinte voltou a
? c com os seus hspedes no curral real, onde se preparou para
e m r a sua notvel riqueza. Mais uma vez emitiu uma ordem e
cu  u r o pulso, aps o que numerosas manadas de gado foram
cond.l, la  ao recinto, passando em frente dos visitantes. Uma
manada c(.;  m."s de duas mil cabeas consistia em filas
alternadas de ani
A Alian a

mais negros e avermelhados; outra manada era constituda por
resetodas castanhas, de envergadura ligeiramente inferior.
Quando os animais foram conduzidos para o exterior, e depois
de uma fileira de homens ter limpo o recinto dos excrementos
Dingane fez novo sinal, a que se seguiu uma exibio
inacreditvei. Atravs` de uma entrada do curral, surgiram
duzentas vacas de um branco Imaculado, todas desprovidas de
chifres e majestosamente ornamen tadas com grinaldas e
gualdrapas. Cada vaca era assistida por um guerreiro cor de
bano.
Convencido de que se tratava de novo cortejo de gado, Tjaart
impressionado com a beleza dos animais, dirigiu um aceno de
cabea aprovador ao rei, que nesse momento ergueu uma mo,
indicando que a representao real ia comear. Lentamente,
para assombro dos. beres, as duzentas vacas comearam a
danar com os guerreiros" descrevendo uma srie de passos
complicados, formando desenhos largos e reagrupando?se depois,
sem que Tjaart ouvisse uma ordeml sequer. Tal como Dmgane
pretendia, o efeito era hipntico e maravi Lhosamente
fricano: aqueles enormes animais evolucionando em passos de
dana, voltando?se majestosamente, hesitando, retorcen do?se e
depois avanando para a frente no seu andar vagaroso, de
terminado.                                 :
Aps a exibio, Retief disse a Tjaart:
??Amanha conversamos.
Desta vez teve razo. Conversaram, mas no acerca da concesso
j de terras. Dingane perguntou:
??Que aconteceu quando o teu povo se encontrou com Mzilikazi'
Compreendendo instintivarnente que no devia jactnciar?se da
vitorla alcanada sobre o Grande Elefante Macho, no obstante
Mzilikazi ser inimigo de Dingane, Tjaart respondeu com
modstia: '1
??Combatemos com ele duas vezes e ele foi poderoso.     9
??No  essa a verdade dos factos??protestou Retief, que se d
lanou numa exposio vangloriosa dos triunfos
alcanados.??Qua?  renta dos nossos homens resistiram a cinco
mil dele. os nossos ho? i mens foram atacados por vagas de
guerreiros matabeles, mas abateram?nos mexoravelmente e
deixaram?nos cados no veld como abboras maduras.
??To poucos de vocs e tantos deles???perguntou Dingane.
??Sim, poderoso rei, porque quando um chefe desobedece s
ordens de Deus  abatido. Lembra?te disso.
A expresso de Dingane no se alterou, mas Tjaart notou que

lberano comprimia fortemente as extremidades dos dedos contra
os hios, como se se estivesse a dominar para no falar
demasiado.
Quando os dois voortrekkers se sentaram para assistir 
exibio  sse dia, Tjaart disse:
li` Preferia que no fivesses sido to imprudente.
De tempos a tempos  preciso dar uma lio a
 aos??replic u Rtief. Antes que Tjaart pudesse tentar
argumentar, Reti . disse:??olha!
`. ais de duzentos guerreiros zulus, em traje completo de
batalha, ? m mbos de boi atados aos braos e aos joelhos,
corriam para o cal da parada, gritando: Bayete!" Seguiu?se um
simulacro de bataa, acompanhado de gritos, exerccios de lana
e ataques simulados.
o espectculo no agradou a Tjaart, que passara por uma expe
ncia verdadeira, mas entusiasmou Retief, que disse ao rei:
??os teus homens so guerreiros poderosos.
Dingane assentiu e replicou:
??Vivem sob as minhas ordens. Matam s minhas ordens.
No quarto dia, o rei consentiu finalmente em falar seriamente
m os beres. Assegurou?lhes que estava a considerar favoravel
nte o seu pedido de uma vasta concesso de terras a sul dos
seus roprios domnios. Pediu a Retief que provasse a sua
competncia  mo possvel colono, recuperando algum gado que
Lhe fora rouba
 o, e praticamente assegurou?lhe que, quando ele regressasse
com a mis ao cumprida, a concesso de terras seria outorgada.
`pos um longo discurso de despedidas, o rei inclinou a cabea
e
paro 1 deixando Retief e Van Doom livres para regressarem para
junm uo  companheiros que os esperavam. Porm, antes de
deixarem a r uu os dois homens foram abordados por um
missionrio ingls qu  i ia peno da aldeia de Dingane e que
Lhes disse:
Amigos, estou preocupado com as vossas vidas. o rei convi
 u?   o  para outra visita?
??Convidou??respondeu Retief.??Em Janeiro, se conseguir?
 s resolver?lhe um pequeno assunto. Caso contrrio, em
Fevereiro.
??Amigos, em nome de De.us no volteis.
??Mas ele vai dar?nos a concesso que pretendemos.
??Acreditai?me, eu vivo com esta gente. Todos os sinais indi?
  que ele tenciona matar?vos.
.??N6s, beres, no consideramos muito os missionrios??delrou
Retief, e Tjaart assentiu. Ambos viam naquele homem intro tido
mais um ingls tentando prejudic?los.
??Independentemente do que pensais de mim continuo
mlsslonano??, eu avlso?vos. Lhngane tenciona matar?vos. Se
gressardes  sua aldeia, no saireis mais dela.
Afastando o homem, Retief disse?lhe, estugando o passo:
??Escusais de rezar por ns. No somos ingleses. Somos ho
deses. Sabemos lidar com os Kaffirs.

QuANr o regressou a Kerkenberg, Tjaart encontrou o lugar desl
to,  excepo de um rapaz que apascentava um rebanho ali
deixa para suprir as necessidades de quaisquer viajantes
acidentais. o raF informou?o de que Mijnheer Bronk incitara o
grupo a completar descida at ao vale do rio Blaauwkrantz.
Tjaart, que inicialmente se sentiu furioso por Bronk ter
tomado sozinho uma deciso to arrojada, quando chegou ao novo
local teve de reconhecer que o mesmo representava uma melhoria
sobre a habitao nas colinas. Kerkenberg fora para repousar.
Blaauwkrantz era para viver. Tinha gua em abundncia, um bom
escoamento e pastagens que eram j uma promessa das que os
voortrekkers ocupariam pelo resto das suas vidas. Tjaart foi
ter com Bronk e disse?lhe:
??Escolheste bem.
Em Dezembro de 1837, novos recm?chegados que tambm haviam
conseguido transpor penosamente as Drakensberg trouxeram
aosvoortrekkers um inesperado presente de Natal.
??Derrotmos Mzilikazi??disseram.??Ele fugiu para norte do
Limpopo e partiu para sempre.
Trs homens que haviam participado na ltima batalha decisiva
especificaram:
??Apanhmo?lo em retirada e dominmo?lo. Morreram quatro mil
dos seus homens e dois dos nossos.
Sem espingardas nem cavalos, as bravas tropas negras de
Mzilikazi tinham tentado combater um exrcito branco que
possua ambos. Chegara o dia em que os regimentos do Grande
Elefante Macho j no podiam dominar a vasta rea que haviam
delineado para si e em que as suas aldeias no podiam resistir
aos cavaleiros beres e. mestios que, ao alvorecer, se
precipitavam por entre as cubatas.
Mzilikazi retirara?se para a outra margem do Limpopo e estabeb
cera o reino permanente dos Matabeles por sobre as runas de
ur~ antiga cidade chamada Zimbabw, que fora um notvel centro
n.. neiro de ouro da civilizao negra. Terminara a grande
odisseia .k seu povo, que deixara to grande rasto de sangue.

Apenas soube da derrota de Mzilikazi, Jakoba comunicou a
Tjaart , apreenses que sentia sobre o evoluir dos
acontecimentos .sde que Balthazar Bronk levara os voortrekkers
para terrenos mais baixos .
??No me sinto segura aqui. Lutmos muito para chegar c, mas
acho que devamos voltar para o planalto.
Tjaart ficou estupefacto.
??E voltavas a subir aquela montanha?
??Voltava. Agora mesmo.
??Nunca conseguiramos levar o nosso carro at l acima.
??? Deixa?o. Vamos voltar para Thaba Nchu e juntar?nos a outro
rup  que v para norte.
u .ia era aliciante. Tjaart no gostara do que vira na aldeia
de
. pois se o rei zulu chefiava tantos homens bem treinados, ,rm
ediria de agir como Mzilikazi se se enfurecesse? E porque
.l  to inquieto e preocupado com a derrota do seu grande
 rimeiras escaramuas, seno porque tencionava tentar essa ia
ele prprio? Com certeza que, se soubesse da derrota li  (
irande Elefante Macho, Dingane se deveria interrogar sobre
idade de um punhado de beres Lhe vir a fazer o mesmo.
.ceio que o missionrio ingls tenha tido razo??disse Tjaart
Jdr  X ??Penso que Retief faria bem em evitar essa aldeia.
isa?o??disse Jakoba.
 :... no d ouvidos a ningum. Nunca deu.
??l~jaart, acho que devemos partir daqui. Deixa Bronk a
comandar. Sabias que, durante a tua ausncia, ele expulsou
Theunis de Kerkenberg?
??Ele o qu?...
Um procedimento to rude em nome da religio indignou Tjaart,
que foi procurar o confortador dos doentes para Lhe assegurar
que a sua assistncia espiritual era apreciada.
??Theunis, um homem que enfrenta uma desvantagem de mil h ara
um, cujo gado Lhe  roubado e Cujos cavalos Lhe so postos em
fuga precisa da garantia de Deus. Nesta caravana tens sido
mais imEPortante do que quatro armas. Fica connosco, pois nos
esperam dias
iifceis.
??To maus como no rio Vaal???perguntou Theunis.
??Piores. Se eu alguma vez me ausentar, conserva os carros em
IDrdo Eu vi Dingane. Vi a sua aldeia. Esse homem  um rei, e
os
is fazem invases.
A Alian a

Nos dias seguintes, Tjaart considerou a hiptese de deixar
Blaauw krantz, mas foi ento que Piet Retief apareceu no
acampamento acompanhado pelos seus auxiliares. A expedio
para recuperar o gado roubado a Dingane fora bem sucedida, e o
chefe ber tinha um pedido urgente:
??Preciso de cem homens que me acompanhem  aldeia de Dingane.
E tm de ser bons cavaleiros.
??Porqu???perguntou um murmrio de vozes.
??Tjaart sabe porqu. ??E Retief pediu a Tjaart que
descrevesse as exlbies que Dingane proporcionara aos seus
visitantes urante o ltlmo encontro: as manobras militares, a
dana das vacas. Depois, Retief acrescentou: ??Quero que os
nossos cavaleiros e ecutem a mais rpida das manobras para
mostrar ao rei algo que ele nunca imaginou: a fora ber.
Retief apenas conseguiu anranjar setenta cavaleiros hbeis,
entre os quais o seu prprio filho. Com eles seguiram tambm
trinta e um. mestios, alguns dos quais cavaleiros exmios,
com os quais Retie contava para o efeito da demonstrao que
tinha em mente.
Tjaart reuniu?se ao grupo levando consigo Paulus de Groot, a 1
quem faltavam duas semanas para completar sete anos e que j
era i um cavalelro expenente. Quando se despediu de Jakoba e
de Nel prometeu?lhes que protegeria o rapaz e que em breve
regressaria com um acordo que outorgaria aos voortrekkers
direitos sobre terras do Natal.
Foi uma bela jonlada de Vero a descida at ao rio Tugela e
atravs dele at ao corao da Zululandia. os voortrekkers
tinham?se convencido de que nenhuma adversidade os atingiria.
Mesmo Tjart esqueceu as suas apreenses.
??Que  que nos pode acontecer???perguntou aos amigos.
??Dingane quis que recuperssemos o gado roubado, e ele aqui
vai atrs de ns. Receber?nos? amistosamente e assinar os
papis de concesso de terras que pretendemos.
Chegaram  grande aldeia na manha de sbado 3 de Fevereiro de
1838, e as festividades comearam imediatamente. Paulus teve
um prazer inesperado ao encontrar na capital um rapaz ingls
de doze anos chamado William Wood,  qu vi da com os
missionrios instalados nas proximidades, mas  que tinha a
liberdade de percorrer a aldeia. Este rapaz tomou Paulus sob
a?sua proteco, mostrando?lhe as intrincadas cabanas reais e
mesmo as vastas zonas interditas onde se encontravam
sequestradas as esposas do rei. Paulus andava en

19n

antado. Isto  o melhor de tudo, pai Tjaart, dizia. E as
recordaes da mutilao dos seus pais pelos regimentos de um
rei semelhante a Dingane foram atenuadas.
No segundo dia, Retief chamou os seus cavaleiros para que se
exibissem perante o rei. os cavaleiros beres entraram aos
pares na rast  arena que continha pelo menos quatro mil
guerreiros zulus, as espin ardas carregadas com cartuchos de
plvora seca cruzadas sobre
"elas. os guerreiros negros ficaram extasiados ao verem os
cavolucionar em crculos em torno da arena, saltando e
virando?se .  mando do cavaleiro. Depois, a um sinal de
Retlef, os cavaleiros  r Iram uma falange, precipitaram?se
para o trono de bano e desc  aram as espmgardas.
et`eito foi esmagador, e surpreendeu de tal modo Dingane que
este  eL redou para um seu ajudante:
??Estes homens so de facto feiticeiros.
o jovem William Wood ouviu a observao e, apenas a demons
trao terminou, procurou Tjaart e contou?lhe o terrvel
comentrio  que ouvlra ao rei.
??Ele segredou que vs reis feiticeiros.
??E de certo modo somos??concordou Tjaart.
??Chiu! Isso quer dizer que ele vos vai matar.
o rosto do rapaz revelava tal angstia que Tjaart decidiu
informar Retief do incidente; o seu companheiro, porm,
recebeu a informao  m uma gargalhada.
I m dos missionrios ingleses disse o mesmo. Mas tens de te
lem. r.lr que eles so ingleses. Tm medo dos Kaffirs.
i`ja ,rt ficou suficientemente impressionado com o aviso de
William E .lla sugerir que partissem nessa noite; porm,
enquanto dlscutia com Retief, o rei Dingane apareceu
subitamente.
??Quero fazer duas perguntas??disse, atravs dos intrpretes.
??Primeira:  verdade que o vosso povo derrotou
definitivamente Mzilikazi?
????respondeu Retief sem quaisquer reservas. ??Matmos
cinco mil dos seus homens. Fizemo?los fugir para l do
Limpopo.
olllou ameaadoramente para Dingane e acrescentou: ??Uma E
derrota semelhante espera qualquer rei que se oponha aos
desgnios L de Deu
??Quem decide se houve oposio  vontade de Deus???peruntou o
intrprete
Ns o saberemos??respondeu Retief.

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A Aliana

??Eis a minha segunda pergunta??prosseguiu Dingane. verdade
que os vossos mestios sabem niontar a cavalo conn t percia
como vs?
Retief respondeu:
??Amanha vers. E quando os vires, lembra?te de que tambl
poders receber cavalos quando nos mudarrnos para a nossa tern
??Dingane assentiu.
Na segunda?feira 5 de Fevereiro, realizou?se a demonstrao
embora Lhes faltasse a preciso militar dos cavaleiros beres,
os me tios montavam com tal prazer e  vontade que mais do
que compe saram a deficincia tcnica. William Wood ouviu o
rei resmung para os seus conselheiros:
??Se os mestios podem montar a cavalo, os Zulus tambm dem.
Temos de vigiar cuidadosamente estes feiticeiros.
Quando a demonstrao terminou, William correu para os voo
trekkers e avisou?os pela segunda vez:
??Dingane tenciona matar?vos esta noite ou amanha.
Novamente Retief se recusou a aceitar o aviso, fazendo notar:
??Amanha de manha ser assinado um acordo. Partiremos i
diatamente a seguir.
??Ser tarde demais??declarou o rapaz. Mas Retief mandou?o
embora.
Depois, voltando?se para Tjaart, disse?lhe:
??Talvez tu devas voltar depressa a Blaauwkrantz para dizer 
nossa gente que obtivemos a terra. Eles que carreguem tudo e
se preparem para tomar posse antes que Dingane mude de
ideias.??De uma pequena bolsa de cabedal, Retief retirou o
documento da concesso e mostrou?o triunfalmente a
Tjaart.??Diz?lhes que viste isto. Diz?lhes que o ka r o
assinar amanha e que depois a terra ser pacificamente nossa.
Assim, Tjaart e Paulus selaram os cavalos e prepararam?se para
ser os portadores de agradveis notcias. Quando Paulus
montava   i seu cavalo, William Wood aproximou?se dele e
segredou:
??Ainda bem que te vais embora, porque amanha todos os A' tros
estaro mortos.
Na manha de tera?feira 6 de Fevereiro, Piet Retief, acon.r
nhado por setenta cavaleiros beres e trinta e um mestios,
cavalgo at aos portes da aldeia de Dingane. Ali, comandantes
zulus manda ram?nos desmontar, segurar os cavalos e depositar
as armas nu
pllha, que seria guardada por um dos regimentos.

??Por respeito para com o rei??disse o zulu. ??Ele ficou
sustado com o barulho no outro dia.
Retief, que era um cavalheiro, concordou com estas
disposies. os visitantes entraram na vasta arena,
sentaram?se e aceitaram as baas com cerveja de sorgo
oferecidas por Dambuza, o conselhei?chefe do rei. o documento
da concesso foi apresentado a Dinga , que, com um gesto
floreado, aps nele a sua marca e o devolveu Retief. Em
seguida, comeou a dana zulu, dois regimentos de  mens
desarmados executando manobras e passos complicados.
Era a mais pacfica das danas, mas William Wood, vendo que, r
detrs dos que danavam, trs outros regimentos se colocavam
enciosamente em posio, correu da arena para o posto mais pr
l da sua misso, onde declarou:
??Vo ser todos mortos.
??Cala?te !??disse uma mulher.??J foste repreendido mais de a
vez por andares a espalhar boatos.
Enquanto a dana regimental prosseguia, o rei ergueu?se e fez
um
.nde, em verso zulu, que comps nesse momento:

Que os lbios brancos com sede Sejam dessedentados!
Que os olhos que tudo querem Fiquem cegos!
Que os cora,ces brancos que batem Se imobilizem!

 etief, que no compreendera nenhuma das r
ama elmente a cabea em direco ao rei e levantou a sua
cabaa. Nesse instante, Dingane gritou:
??Agarrem?nos, meus guerreiros! Matem os feiticeiros!
os regimentos que danavam abriram alas, permitindo que os
 erdadeiros guerreiros avanassem, de zagaias em punho. os
beres,  onfusos  ergueram?se atabalhoadamente, sacaram dos
punhais que raziam e tentaram defender?se. Foi intil. Quatro,
seis, dez zulus  arraram cada um dos beres, imobilizaram?nos
no solo e depois,
 ando?os pelas pernas, arrastaram?nos para fora da arena, ao
longo
: um carreiro que subia uma colina at ao local da execuo.
Wil?
 rn Wood e as mulheres missionrias viram de suas casas os
beres
Ds mestios a serem espancados com cacetes um a um, at 
morte.
  Piet Retief, imobilizado, foi obrigado a ver o seu prprio
filho
A Aliana

ser torturado at  morte. Depois, tambm ele foi
implacavelmente espancado at o cranio se Lhe despedaar e ele
cair sobre a pilha de corpos dos seus companheiros.
o comandante zulu que dirigia as execues gritou ento:
??Cortem o fgado e o corao deste homem. Enterrem?nos meio
do caminho que ele percorreu.
Assim morreu Piet Retief, um homem que conduzira o seu povo
atraves do Interior selvagem com o objectivo de construir um
pas que fosse seu, um homem que confiava naqueles que
conhecia e que depositava toda a sua f em Deus. Veio a ter um
fim terr?vel, mas foi tambm um comeo nobre, pois a sua lenda
iria inspirar uma nao
Dez meses mais tarde, no dia em que outros beres encontraram
o seu cadver, encontraram tambm, junto dos seus ossos, o
documento cuidadosamente marcado por Dingane, rei dos Zulus,
concedendo?lhes

o lugar denominado Porto Natal juntamente com toda a terra
anexa, i9
, desde D?ogeela at ao rio para oeste e do mar para norte,
at on
terra puder ser til ...
De merk + + van de  oning Dingane

TlAART e Paulus, seguindo calmamente a cavalo ao longo margens
do rio Tugela, no puderam saber que os voortrekkers s
companheiros estavam a ser massacrados; mas o rapaz, possudo
um forte pressentimento, disse:
??Pai, acho que o rei vai matar todos os nossos homens.
??Ningum se atreveria a fazer uma coisa dessas.
??Mas William ouviu o rei dizer que ns ramos feiticeiros.
??Ele queria dizer homens sbios. Porque derrotmos Mzilik
??Mas William tem?nos visto matar feiticeiros.
o rapaz mostrava?se to insistente que Tjaart teve de Lhe pre
ateno; tornou?se mais vigilante, medida que se revelou
afortuna pois em breve detectou que se erguia poeira atrs de
si, ao longo trilho que vinham a seguir. De um esconderijo viu
com horror pass rem rapidamente quase dois regimentos, de
zagaias refulgindo a sol, correndo em direco ao rio
Blaauwkrantz.
Tjaart compreendeu imediatamente que tinha de encontrar m
neira de se colocar  frente daquela coluna, a fim de alertar
os aca

pamentos dos voortrekkers. Mas por mais habilmente que ele e
Paulus tentassem galopar por trilhos pouco usados, viam sempre
 sua frente destacamentos de zulus que percorriam em leque a
regio. Ern quatro acampamentos isolados s encontrou runas
fumegantes e b6ere  a sassinados. Numa agonia de pavor,
procuraram ultrapassar as lin. 1   ulus rodeando?as, mas
fracassaram sempre nos seus intentos.
?  ?r?or do Sol de sexta?feira 16 de Fevereiro, encontravam?se
aind  u?nu e de Blaauwkrantz, sem terem entregue o seu aviso
de perigo  ..ssa noite, os carroes dispersos dos
voortrekkers assassinad ? aehavam?se desordenadamente
dispersos ao longo de um desprot  _ldo troo de rio com
dezoito quilmetros de extenso. As mulheres e as crianas
dormiam tranquilamente, sem saberem que os seus homens haviam
sido massacrados por Dingane. outras famflias vinda  de Thaba
Nchu passavam as suas primeiras noites na sua terra prometida.
A uma hora da madrugada, trs regimentos completos de
guerreiulus lanaram?se sobre os carros e as tendas antes que
algum sse fazer soar o alarme. Na primeira vaga, os
assaltantes matatodos os beres que se encontravam na
extremidade oriental da ,  excepo de dois membros da famf
lia Bezuidenhout, que eguiram fugir. o mais novo dos
Bezuidenhout cavalgou pela , atravessando miraculosamente uma
concentrao de guerreiros
aps outra, a fim de avisar os voortrekkers acampados mais
oeste.
ntre aqueles que acordou, contavam?se Jakoba, Minna e Theu el,
a filha destes, Sybilla, de trs anos, e os seus cinco
criados. ram apenas o tempo suficiente para tomar apressadas e
incipienedidas de precauo e logo os Zulus, gritando
estridentemente, ecipitaram sobre eles. Nesses momentos de
terror, Theunis peem Sybilla e ocultou?a atrs de uma rvore,
bem afastada dos es. Quando a deixou, tremendo com um pavor
que no conia controlar, segredou?lhe:
Lembra?te, Sybilla, no faas barulho nenhum.
precipitou?se para os carroes, onde dirigiu a distribuio
das ingardaS  dos punhais e clavas. Com estas armas e um
herosmo s m  ar, a sua gente defendeu?se: as mulheres
dispararam as espin  rd.  at a plvora se esgotar, aps o que
se colocaram lado a lado c m  !s mestios, desferindo golpes
no inimigo mortal. Minna foi a
 ira I cair, despedaada. Um a um, os fiis mestios morreram.
is, Jakoba e Theunis lutaram com tudo a que puderam deitar
A Alian a

mo, e finalmente apenas restava Theunis, um pattico e
insignifi cante ser humano brandindo uma clava.
Quando viu novas hordas a correrem na sua direco e com
preendeu que podiam descobrir a sua filha escondida, correu 
frenl dos negros, levando?os a desviarem?se da rvore. Quando
os guerrej ros o alcanaram, cada um deles espetou?lhe uma
zagaia. Mas el continuou a correr, gritando avisos aos outros
carros. Quando senl os joelhos dobrarem?se?lhe e o sangue
sufoc?lo, voltou?se para e frentar os assaltantes, agarrou as
suas zagaias e morreu de muil fendas.
Balthazar Bronk, que to inexoravelmente Lhe negara a orde
o, conseguira, como muitas vezes acontece com semelhante t
de homens, encontrar?se na extremidade mais afastada do acam
mento, onde os Zulus no chegaram.

TJAART e Paulus chegaram finalmente a Blaauwkrantz no dia ,r
de Fevereiro, antes do romper do Sol. A luz fantasmagrica,
viram a terrvel carnificlna de homens, mulheres e crianas
cortados em pedaos.
??Pai!??gritou Paulus.??os nossos carros!
Reconhecendo as estruturas queimadas, Tjaart precipitou?se e
encontrou Jakoba morta, com seis zulus a seus ps, Minna junto
de trs e todos os criados com os corpos trespassados por
zagaias. Mas no viu Sybilla nem Theunis.
Tjaart comeou a chamar por Theunis, amaldioando?o por ter
fugido e abandonado as mulheres.
??Maldito sejas, Nel!??bradou. E, subitamente, viu?se rodeado
por mulheres que falavam ao mesmo tempo e Lhe afirmavam que
Theums Lhes salvara as vidas.
??Recebeu inmeras feridas e, embora estivesse a morrer,
correu mais de meio quilmetro gritando?nos avisos.
??E Sybilla estava com ele?
??Ele estava s, com as lanas.
Levaram?no at ao local onde Nel jazia, descoberto, e Tjaart
caiu de joelhos ao lado dele, gritando:
??Theunis, onde est a tua filha?
Entretanto, Paulus de Groot, que estivera a olhar o corpo de
Jakoba, sua segunda mae, e depois o de sua tia Minna,
preparava?se para se reunir a Tjaart quando percebeu um
movimento entre as rvores. Dirigiu?se mais para sul e
encontrou Sybilla sob uma rvore. A,

criana vira tudo, mas obediente s instrues que o pai Lhe
dera naqueles ltimos momentos no fizera rudo algum. E
algumas horas passaram at que o fizesse.
. Apenas Jakoba e os Nels foram enterrados, Tjaart percorreu a
fila os carros para averiguar o que sucedera aos outros.
Dezenas de oortrek ers detiveram?no, perguntando?lhe:
??Que notcias h de Retief?
Ele teve medo de Lhes transmitir os seus receios, mas em breve
egaram mensageiros que anunciaram:
??Retief e todos os seus homens esto mortos.
Era bvio que Deus atingira o Seu povo escolhido com uma srie
golpes punitivos. Castigara?o pela sua arrogncia e pelos seus
cados. E amontoados nos seus cordes desguarnecldos, esperando
prximo assalto dos Zulus, os Beres tentavam decifrar o
mistrio
s seus pecados.
Cada um dos homens que morrera na aldeia de Dingane amara Deus
e procurara viver de acordo com as Suas leis, e no entanto
todos tinham perecido. Cada uma das mulheres e crianas
assassinadas em Blaauwkrantz fora fiel  Bblia, e no
obstante tinham sido todas massacradas. Se alguma vez alguma
assembleia de povo tivera uma causa justa para se revoltar
contra a sua divindade, tal acontecia com o  voortrekkers
nesse Vero de 1838. E no entanto eles reagiram de maneira
muito diferente.
Procuraram espiritualmente, dentro de si mesmos, as razes dos
seus re .eses, e concluram que haviam relaxado os seus
deveres religioso  e L obedincia aos Mandamentos. Aps vrios
meses, graas ao tn.li  Llho obstinado de Tjaart em abrir
trincheiras e levantar uma esp   , de defesa, os voortrekkers
sentiram?se moderadamente a saB/o de um ataque zulu.
Consultaram de novo o Livro de Josu para pass,Ll.,nn em
revista os passos atravs dos quais ele triunfara em Jeric
obre os seus inimigos cananeus. Tjaart curvou?se sobre a
capa chamuscada da sua Bblia e leu os versculos relevantes:

E o povo chegou  cidade, e, seguindo cada um em frente,
t n1 lrarn a cidade E destruram completamente .. homens e mu
\, no os e  lelhos, passando a fio de espada bois e ovelhas e

Depoj , jurou sombriamente:
?? o que faremos  aldeia de Dingane. A destruio total.
A Aliatla

E, para o caso de algum homem hesitar, apresentou as
estatsticascondenatrias:??Na aldeia de Dingane foram mortos
cento e dois dos nossos homens. Aqui, em Blaauwkrantz,
duzentos e oitenta e dois. No veld, pelo menos mais setenta,
assassinados enquanto dormiam. Exigimos uma reparao.
??Como  que a podemos conseguir, sendo ns to poucos eles
tantos???perguntou Balthazar Bronk.
??No sei??respondeu Tjaart??, mas Deus mostrar?nos? a
maneira.
E ento chegou ao acampamento o homem que conseguiria
milagres. Era Andries Pretorius, mais novo do que os outros
chefes, um homem de destaque na colnia ber de Graff Reinet,
perto do Cabo. Era um homem grave, pensativo, lento a tomar
decises, mas resoluto depois de o ter feito. Correra para o
Norte em resposta a ma chamada dos voortrekkers cercados, e
no dia da sua chegada, 22 de Novembro de 1838, disse
simplesmente:
??Dentro de uma semana avanamos para destruir Dingane. ,
A primeira medida que tomou foi destacar dois homens para e
piar o inimigo. Escolheu um par curioso??Tjaart van Doom, quem
respeitava devido s suas incurses contra os Xosas em D
Kraal, e Balthazar Bronk. Queria Tjaart porque este sabia
combater Bronk por ser um homem esperto e manhoso.
os dois homens deixaram juntos Blaauwkrantz, dirigiram?se cau
telosamente para norte e depois regressaram ao acampamento com
sombria notcia de que Dingane comeara a reunir os seus regim
tos para um ataque macio.
??Vai lanar contra ns doze mil homens. E ns, quantos remos?
Pretorius, que reunira todos os soldados disponveis, respon
__ ?Lhes:
??A nossa desvantagem ser de trinta para um. Mas seremos a
escolher o campo de batalha.
Cinco dias depois da chegada deste homem dinamico, a f estava
em movimento. Consistia em quatrocentos e sessenta e quaL
homens, com o habitual complemento de mestios e negros, cerca
metade dos quais j combatera contra os Zulus uma vez ou
outra.  dianteira dos sessenta e quatro carr ,es de que o
contingente dispunl seguia o de Van Doom, que fora
reconstrudo de forma a ficar trans' formado num pesado
veculo de guerra, com os lados reforados puxado por sete
juntas de bois bem ensinados para manter o passo

  AA

o terreno que Pretorius escolhera para a batalha era um local
de margenS inclinadas onde uma profunda vala se reunia a um
pequeno rio. nesta rea, o ber formou o seu cordo junto a um
lago onde ha;la ainda pouco os hipoptamos se banhavam. A
formao ficava assim protegida a sul pela vala profunda, a
leste pelo lago dos hipopotamos e a norte e oeste pela cadeia
dos sessenta e quatto carroes. Em posies ao longo do
permetro, e dispostos de forma a visarem o maior nmero
possvel de zulus que se precipitassem para atacar o cordo,
Pretorius colocou quatro pequenos canhes capazes de di
pararem uma enomme quantidade de chumbo, pedaos de ferro,
elos de correntes e pedras.
??Estamos prontos??declarou ele ao anoitecer de sbado lS de
Dezembro. E essa noite foi a mais longa de quantas aqueles
beres em formao de combate conheceriam. Eram poucos, e nos
montes que os rodeavam aglomeravam?se regimentos zulus, homens
que haiam combatido por toda a frica, varrendo tudo  sua
frente. No terior do cordo, novecentos bois mugiam e centenas
de cavalos itavam?se, perturbados pelas fogueiras que os Zulus
mantinham
sas.
Pretorius disse s suas tropas:
??Temos de colocar os nossos homens ao longo de todo o
pertro, pois se dispararmos de uma s direco os animais,
especial.nte os cavalos, fugiro em tropel devido ao rudo e
podem escaar?se por entre carros tombados. Sem cavalos, amanha
estaramos
rdidos.
(,)uando todos os pormenores ficaram assentes, chegou o moe;mo
crucial na histria dos Beres. os voortrekkers no tinham re(
t, mas muitos conheciam o Antigo Testamento quase de cor. m
1. es era Sarel Cilliers, um agricultor culto com uma profunda
on  religiosa, que comeou a recitar aquelas inflamadas
passaen   !; Livro de Josu que pressagiavam a batalha
iminente:

I o Senhor disse a Josu, no tenhas medo deles, pois amanha
po/  ista hora Eu tos entregarei, todos massacrados diante de
Israel; tu lanars fogo aos seus carros . . . Um homem dos
teus perseguir um milhar; pois o Senhor teU Deus  quem
combate por ti, como te prometeu.

Em seguida, Cilliers subiu para a carreta sobre a qual se
encona um apreciado canho conhecido pelo nome de ou Grietjie
A Alian a

??Velha Gertie??e repetiu os termos do pacto em que os
voortrek kers tinham acordado:

Deus Todo?Poderoso. neste momento sombrio estamos perante Ti,
prometendo?Te que, se nos protegeres e entregares o inimigo s
nossas mos, para sempre viveremos em obedincia  Tua divina
lei. Se permitires que triunfemos, observaremos anualmente e
para toda a posteridade, como aniversrio deste dia, um dia de
aco de graas e evocao. E se algum obstar a este
propsito, que se retire do campo de batalha.

Na escurido, os voortrekkers murmuraram os seus amens; eram
agora uma nao criada por Deus, na prossecuo dos Seus
objectivos, e aqueles que foram capazes de dormir as poucas
horas qu faltavam para o amanhecer fizeram?no de conscincia
plenamente tranquila.
A Batalha do Rio do Sangue, como veio a ser chamada, foi um
combate sangrento. Doze mil e quinhentos zulus, todos
guerreiros bem treinados, lanaram?se contra um inimigo
inteligentemente entrincheirado. Sem armas modemas de qualquer
espcie, tentaram dominar um grupo de homens duros e
resolutos, armados com espingardas, pistolas e canhes. o,s
guerreiros zulus bateram com os ps no cho, soltaram os seus
gritos de guerra e lanaram?se directamente contra o cordo.
os homens no interior deste mantiveram?se firmes, esperaram
que o inimigo se encontrasse a dois metros dos carros e
dispararam contra os seus peitos. Esses guerreiros caram mas
outros os substituram, convictos de que os seus escudos de
couro bovino os protegeriam. Tambm eles marcharam
directamente contra os canos das espingardas, e tambm eles
caram.
Mil zulus morreram desta maneira, depois dois mil, mas
continuavam a avanar. Ao fim da primeira hora, os generais
zulus, supondo que os brancos no interior do cordo deviam ter
esgotado as reservas da sua resistncia, decidiram lanar
contra eles os seus dois melhores regimentos, contingentes que
tinham o direito de usar escudos e braceletes inteiramente
brancos e decoraes nos joelhos. Era pavoroso ver aqueles
homens todos da mesma idade e estatura marchar implacavelmente
por sobre os corpos dos seus companheiros cados em direco
ao crculo de carroes.
No interior, Pretorius disse aos seus homens.
??Isto pode ser a mar cheia. Suspendam o tiroteio.

Consequentemente, os homens armados de espingardas aguardaram,
enquanto os artilheiros carregavam ou GrietJIe com uma carga
letal de estilhaos de ferro e balas de chumbo. Quando os
regimentos de lite marcharam directamente contra os canos das
espingardas beres, Pretorius deu o sinal e ou Grietjie e as
suas trs pavorosas ?irmas vomitaram os seus projcteis
assassinos, lanando?os contra os kulus. os guerreiros no
vacilaram nem correram. Limitaram?se a  avanar e a morrer.
Ento, Pretorius tomou uma deciso surpreendente:
??Montem a cavalo??ordenou.??Vamos correr com eles.
Assim, cerca de cem l oortrekkers saltaram para as selas e
galoparam para fora do cordo, numa incurso devastadora,
disparando e arrasando. Cavalgaram contra uma das frentes,
matando como vmgadores selvagens; depois, continuaram para a
outra, abrindo caminho e disparando. finalmente, penetraram no
centro da concentrao zulu, como se fossem imortais.
Depois de matarem centenas de inimigos, regressaram a galope
para o interior do cordo; o nico cavaleiro desta
extrordinria incurso a ser ferido foi Pretorius, cuja mo
foi cortada por uma za

Sevuidamente, ou Grietjie foi retirada da sua posio e
arrastada mo ao longo do arco formado pelos carros at um
dos angulos de onde podia disparar directamente contra a vala
para a qual quatrocentos zu'us se haviam arrastado, esperando
poder atacar por detrs dos carrocoe . Carregado com uma
mistura de pregos e fragmentos metlico  o canho foi apontado
contra a vala e disparado, depois recarre a:l(, e disparado de
novo. Antes que os guerreiros escondidos conse  em trepar para
fora da vala, uma terceira salva matou os que restavam.
No obstante, os admirveis Zulus continuavam a atacar,
lanando?se contra os carroes, tentando em vo aproximar?se
o suficiente para usarem as suas lanas, e s se deixando cair
quando mortalmente feridos.
Ao fim de duas horas, os generais negros procuraram reanimar
as sua ; tropas, reunindo num local todos os sobreviventes de
escudo branco e transmitindo?lhes uma simples ordem:
??Rompam a defesa inimiga e matem os feiticeiros.
Sem a menor hesitao, aqueles esplndidos guerreiros
ajustaram o  e udos, empunharam novas zagaias e iniciaram uma
marcha maI jestosa contra os carros. Vinham de panplia,
combatiam em glria.
A Alia a

onda aps onda caam sob o fogo das armas, e no entanto
continua vam a avanar, homens toda a vida treinados para
obedecer. Quado as ltimas filas chegaram aos carros e
tombaram, os generais deram finalmente o sinal de retirada e
os regimentos derrotados que restavam comearam a recuar. Uma
nova fora substitura?os na Zululandla, uma fora que viera
para ficar.
Antes do crepsculo, os voortrekkers saram do acampamento
para inspeccionar o campo de batalha, no qual contaram mais de
trs mil mortos. Cerca de setecentos morreram de ferimentos a
distncia pelo que no puderam ser contados. outros ainda
vieram a morrer mais tarde.
Que pode dizer?se de uma batalha em que as baixas foram
supenores a quatro mll de um lado e uma mo cortada do outro?
Nem um s homem foi morto ou gravemente ferido no acampamento
voortrekker. Quatro mil contra nada, que espcie de guerra
fora aquela? Anos mais tarde, um perturbado ministro da Igreja
Reformada Holandesa declarana peremptoriamente: No foi uma
batalha. Foi uma execuo. "
Mas a Batalha do Rio do Sangue, embora terrvel, no deve ser
considerada isoladamente, pois representou de facto a ltima
da campanha que incluiu os massacres na aldeia de Dingane e em
Blaauwkrantz. Se se contarem essas mortes beres, mais as
baixas verificadas em herdades desprotegidas, a verdadeira
natureza desta prolongada batalha pode ser entendida:
inicialmente, esmagadoras vitrias zulus; no final, um triunfo
voortrekker to unilateral que chegava a ser grotesco; mas no
balano uma batalha feroz, com perdas de ambos os lados.
A verdadeira vitria no Rio do Sangue no coube ao comando
voortrekker, mas ao esprito do pacto que assegurou o seu
triunfo. Como Tjaart disse quando dirigiu as oraes depois da
batalha:. Deus Todo?Poderoso, s Tu nos permitiste vencer.
Fomos?Te fiis e Tu combateste ao nosso lado. Em obedincia 
aliana que estabe?' leceste connosco e que honraste,
manter?nos?emos a partir de agora como Teu povo na terra que
Tu nos deste.
o que os voortrekkers no compreenderam naquele seu momento de
vitria foi que haviam sido eles quem propusera um pacto a
Deus, e no Ele quem Lhes oferecera uma aliana. Qualquer
grupo de pessoas em qualquer parte do Mundo era livre de
propor um pacto em quaisquer condies que Lhe agradassem, mas
tal no obrigava Deus a aceit?lo, especialmente se os seus
termos unilaterais contrariavam

os Seus ensinamentos bsicos em detrimento de outra raa que
Ele amava igualmente.
No entanto, em obedincia ao pacto tal como o entendiam, os
voortr kerS tinham alcanado uma notvel vitria e,
acontecesse o que acontecesse a partir de ento, homens como
Tjaart van Doorn estavam convencidos de que o que quer que
fizessem estava em consonncia com os desejos divinos. A nao
ber tornara?se uma teocracia??um Estado que se considera
orientado por Deus??e assim permanecena.
Pretorius sabia que no devia permitir ao rei Dingane uma
oportunidade de reorganizar os seus regimentos, pelo que bateu
todo o veld  procura do tortuoso governante. No o apanhou.
Antes de fugir da sua fdnlosa aldeia, Dingane lanou?lhe fogo,
destruindo os tesouros que acumulara. Entre os objectos que os
Beres encontraram na aldeia, contavam?se dois canhes, oferta
de algum que procurara fazer um tratado com o rei, que a
falta de uso deixara enferrujar. Tivessem eles actuado no Rio
do Sangue e talvez a vantagem de ou Grietjie e das suas trs
irmas tivesse sido anulada.
Dingane fugiu muito para o Norte, onde construiu uma nova
aldeia e aguardou, aterrorizado, a vingana dos Beres. o seu
irmo mais novo, Mpande, aproveitou a oportunidade para se
aliar aos Beres, a quem sugeriu uma expedio conjunta contra
os destroados regimentos de seu irmo. Antes, porm, do
incio desta campanha, Dingane enviou o seu conselheiro?chefe,
Dambuza, juntamente com um suhordinado, parlamentar com os
voortrekkers, oferecendo?lhes  duzentas cabeas do seu melhor
gado.
L ??Dingane deseja a paz??implorou Dambuza.??As terras que .
iet Retief procurava so vossas.
Mpande, que assistia a esta reunio, sempre procurando uma
~ortunidade para aumentar o seu prestgio junto dos brancos,
gritou:
??Mentes, Dambuza! No haver paz enquanto Dingane viver.
Rm s tu para falar? No estavas a seu lado quando ele matou
tief e os seus homens? No gritavas tu: Eles so
feiticeiros?
A acusao de Mpande foi to feroz que Pretorius mandou acor
ar os enviados do soberano. Em breve ambos eram julgados pe
te um tribunal militar, onde a principal testemunha era
Mpande.
 vido ao depoimento deste ltimo, ambos os enviados foram con
nados  morte, embora se apresentassem como diplomatas em
viita a um pas anfitrio, como de facto sucedia. Dambuza no
suplipou, mas defendeu o seu subordinado.
A Alian a

??Poupai?o. Ele  um homem novo e no tem culpa.
No houve misericrdia. Tjaart van Doorn, presente em todo
julgamento, viu Balthazar Bronk, desejoso de servir no peloto
o fuzilamento, preparar a sua espingarda. os dois negros
condenad foram arrastados para uma clareira, e Bronk e os seus
homens tom ram posies. os tiros soaram e os dois negros
caram. Ento, aco teceu um milagre. o conselheiro Dambuza
ergueu?se, apenas ligei ramente ferido.
??Ele foi poupado??gritou algum.??Deus salvou?o.
??Carreguem as armas outra vez!??gritou Bronk, ignorando
interveno.??Fogo!??E desta vez a pontaria dos executores f(
certeira .
Ao fim de alguns meses, o prprio Dingane morreu,  orventul
assassinado por instigao de seu irmo Mpande, que subiu ao
tron com o auxlio dos seus aliados beres. Fora destino de
Dingane rei nar durante um perodo da Histria em que a
confrontao com um fora nova e poderosa era inevitvel. o
chefe indgena nunca vis lumbrou sequer como adaptar?se 
situao. o melhor que se pode dizer dele  que os seus erros
no destruram o povo zulu. Sobre as cinzas da aldeia de
Dingane erguer?se?ia a poderosa nao zulu, que em poucas
dcadas se tornou suficientemente pujante para desafiar o
Imperio Britanlco e no prazo de um sculo contestava a nao
ber na governao da frica do Sul.
Uma vez a vitria consolidada, Tjaart estudou cuidadosamente a
situao: desejava desesperadamente que Lukas de Groot ainda
estivesse vivo para poder comparar as suas concluses com as
desse sensato agricultor, pois precisava de ajuda. Tambm
sentia a falta de Jakoba, sempre to ponderada nos seus
obstinados conselhos.
Tjaart quase se decidira a ficar no Natal quando sucederam
duas ocorrncias triviais: soube da chegada iminente de uma
fora inglesa que tomara Porto Natal sob o seu comando e
Paulus, agora um rapaz alto e vigoroso, disse um dia
casualmente: Gostava de ir caar lees. A viso de um veld
virgem voltou a perseguir Tjaart. Gostava do Natal,
especialmente daqueles belos campos ao longo do rio" Tugela,
mas a presena de tantos beres construindo aldeias e cida des
oprimia?o; e, tal como muitos voortrekkers, depois de ter
visto imensido que se estendia para l do rio Vaal, toda a
restante ter Lhe parecia insignificante.
Uma manha foi acordado por um rudo no exterior da sua tenda
deparou?se?lhe Balthazar Bronk, um homem que ele desprezava.

??Van Doorn??disse Bronk??,  verdade o ditado onde quer e um
navio possa navegar, aparece um ingls, . Acho que devemos
artir daqui e voltar para o planalto.
Da sua tenda, Paulus exclamou:
??ptimo! Voltamos e caamos lees.
A medida que Balthazar os expunha, os seus argumentos ganhaam
consistncia, e os dois homens decidiram?se a partlr para as
ontanhas .
? Agora h um bom trilho??declarou Bronk.
Quando se preparavam para partir, um jovem missionrio bapista
americano, natural de Indiana, percorreu os acampamentos.
uando o interrogaram, os voortrekkers compreenderam que se
enontravam perante um verdadeiro homem de Deus, e, uma vez que
ontinuavam a ser considerados proscritos pelos ministros
holandes, ofereceram?lhe o lugar de predikant, que ele
aceitou.
Foi Tjaart quem Lhe pediu a primeira incumbncia:
??Podeis honrar?nos ordenando um homem que j morreu?
??Estais a pedir?me uma coisa bastante invulgar??rephcou o
novo  redikant. Mas quando Van Doorn Lhe explicou quem fora e
como morrera Theunis Nel e o informou de que ele sempre
desejara ser ol?denado clrigo, o jovem predikant
declarou:??Ele obteve de Deu.  a sua ordenao. Seria
incorrecto da minha parte priv?lo dela.
Assim, junto da estreita sepultura assinalada por algumas
pedras, ele rezou pela alma de Theunis Nel, um verdadeiro
ministro da f, apo  o que Tjaart afirmou em tom de desafio:
??? Agora ele  um predikant.
 .?uando Tjaart ps a canga nos seus bois e iniciou com o seu
carm a viagem para oeste, seguiam com ele Balthazar Bronk e
mais seis tamlias. Sentindo mais uma vez a proximidade dos
Ingleses,
dest  feita no Natal, sabiam que tinham ainda de descobrir a
terra promctida que procuravam.
No dia 26 de Maro de 1841, atingiram os contrafortes da
cordilheira Drakensberg, onde descansaram durante trs semanas
antes de  entarem a travessia dos cumes. Bronk tivera razo ao
afirmar que )ra encontrada uma nova passagem; mesmo assim, foi
necessrio uase um ms para os carros reencontrarem o caminho
para Thaba lchu, onde centenas de voortrekkers se tinham
reunido. Aqui tam m eles permaneceram durante os meses frios
de Junho e Julho, Uvindo contar histrias acerca da terra que
se estendia para l do rio raal.
A Al an a

Duas das famlias deixaram?nos, mas juntaram?se?lhes outras
quatro, e foi com um grupo de dez carroes que illiciaram a
sua . perigosa travessia do veld. Vastas reas, despovoadas
pelas antigas depredaes de Mzilikazi, tinham iniciado
lentamente a sua recupe rao, mas os voortrekkers encontravam
ainda as runas de numero sas aldeias que haviam sido
totalmente destrudas. No restava nem uma cabana, nem um
animal, apenas ossos chamuscados. Tjaart observou:
?? como se uma praga bblica tivesse devastado a terra e o
povo.
Uma manha, quando os carroes atravessavam o veld nu, che.`
fiados por Tjaart e Paulus, uma das mulheres desatou a rir,
apontando para as duas figuras: Parecem dois montes de cimos
achatados a deslocar?se pela paisagem, , disse ela. Quando os
outros os olharam, constataram que os dois homens pareciam de
facto duas colinas em movimento: botas pesadas, calas grossas
e speras, ombros largos e chapus chatos de aba larga, Tjaart
pesado de estatura e movimentos, Paulus um verdadeiro filho do
veld. Eram as montanhas itinerantes sobre as quais seria
construda uma nova sociedade.
Em outubro, chegaram ao rio, e Paulus matou um enomme
hipoptamo que Lhe fomeceu carne para duas das semanas que
permaneceriam naquele local ameno. Havia trs meses que
percorriam territrio desconhecido, sem fazerem qualquer ideia
do local onde se deviam fixar, mas ningum se queixava. Havia
alimentos, segurana durante a noite e a beleza inimaginvel
do veld.
No dia 17 de Novembro, Tjaart tomou uma importante deciso:
??Vamos subir para o Limpopo. Sempre ouvi dizer que era a
melhor parte de frica.??E assim os dez carros avanaram
lentamente para norte, para a terra dos embondeiros e das
enormes manadas de antlopes. Na margem sul desse rio, Paulus
de Groot matou o seu leo.  claro que Tjaart e Balthazar se
mantiveram atrs dele e dispararam ao mesmo tempo para evitar
deixarem um leo ferido a assolar a rea, mas no o disseram a
Paulus, concordando todos que fora ele a abater o animal.
Estes voortrekkers passaram os meses de Janeiro a Setembro de
1842 a explorar por zonas o Norte do Limpopo, deslocando?se
cautelosamente para verificarem se a terra que parecia to
pacfica continha ou no tribos inimigas. Enquanto viajavam
por entre moitas baixas decoradas com eufrbias semelhantes a
rvores do Natal com milhares de velas espetadas, os seus
cavalos comearam a enfraque
A Alian a

??Para onde vo elas???perguntou Bronk
Tjaart respondeu:
??Creio que nos vo indicar o caminho de casa.??E voltou
oscarros para leste, a fim de seguir na direco das palancas.
os animais no se assustaram com os carroes, e durante parte
dessa ma. nha os dois grupos deslocaram?se em conjunto, as
palancas  frem
formando um squito majestoso, com os chifres brilhando  luz
Sol, os homens e as rnulheres atrs, na esperana de
alcanarem e breve o termo da sua Jornada.
E ento, dos campos baLlcos e planos que se encontravam a
leste do lago, os voortrekkers viram pela primeira vez a
beleza tranquila de Vrijmeer, com as suas montanhas
protectoras e duas colinas destacadas. Apos sete longos anos
de viagem, tinham chegado a casa.

Uma terra sobre a qual vale a pena escrever

al como muitos outros viajantes, quando ela primeira vez vi a
frica do Sul fiquei npressionado pela beleza da paisagem.
Eram randes reas varndas pelo vento, como no osso oeste
Americano, montanhas gigantes as e magnficos litorais. Era
uma terra sobre a qual valia a pena escrever.
Em novo vivi durante alguns perodos em Amsterdo  onde
aprendi a gostar dos Holan
deses. e mais tarde trabalhei em Java, onde funaamen e      ld
UI
so (lai suas atitudes relativamente aos problemas coloniais.
Estava, portan?
,lto, preparado para respeitar os holandeses que se haviam
fixado na frica do
ESUI Este romance  acerca desse povo robusto e obstinado,
embora ele no
 tivesse t`ormado por si s a personalidade da frica do Sul.
outros europeus,
 bem como escravos importados do oriente, representaram uma
contribuio
 extremamente importante, e fundamentais para todos os outros
grupos foram
 s poderosos negros que tambm partilharam a terra e com os
quais os bran?
 s acabaram por combater.
Fiquei intrigado pelo facto de a frica do Sul ter sido
colonizada pelos lolandeses aproximadamente ao mesmo tempo que
a Amrica o foi pelos lgleses, e constatei que os paralelos
continuavam. Por exemplo, na mesma casio em que o nosso povo
se deslocava para oeste na rota do oregon, os blandeses
moviam?se para leste e para norte na sua Grande Caravana rumo
liberdade .
Tive a sorte de poder fazer trs visitas  Afnca do Sul. Fui a
todos os ecantos do pas, falei com muita gente e estudei a
histria, a geografia e as ealizaes culturais. Vivl com
sul?fricanos de todas as cores e solidariei?me com os seus
problemas. Quase todos os dias me perguntavam: Que eha que
vai acontecer ao nosso pas?  E eu sempre pensava que a
resposta a Ista pergunta exigia uma reflexo sobre as grandes
foras que tinham constudo a nao. Para apreciar os
holandeses cujos descendentes so os afn indere5 de hoje, 
necessrio saber quem eles eram, como se desenvolve m e quais
as suas aspiraes.
Em A Aliana tentei fazer essa avaliao. A frica do Sul 
uma terra Je enfrenta problemas especficos, e todos ns que a
conhecemos rezamos para que encontre as solues mais sensatas.
James A. Michener
